sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Que Honra


Recebemos do amigo Laguardia (Blog Brasil: Liberdade e Democracia), este honroso prêmio, e adicionado a um tema da qual muito me interessa. Os portadores de necessidades especiais. Provém do blog Blog Deficiente Ciente.

Vale dizer que o Blog Deficiente Ciente faz um grande trabalho para as pessoas que têm alguma necessidade especial. Esta pessoas além de nossa ajuda precisam sobretudo de nossa compreenção, simpatia e o amor ao próximo, o mesmo tipo de amos que Nosso Senhor Jesus Cristo teve por nós.
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Que Deus continue abençoando o trabalho do Blog Deficiente Ciente.

Funciona assim:
- Escolha dez amigos para declarar a sua amizade e os nomeie num post.
- Em seguida visite seus blogs e comunique a nomeação.
- Cada um deverá nomear mais dez, e assim sucessivamente.
- Não há prêmios, apenas nossa declaração sincera de amizade e apreço.

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Será que o filme poderia ser pior?

"Lula, o Filho do Brasil" é incrivelmente ruim. Fábio Barreto transformou uma vida única em vida exemplar; a biografia de Lula foi idealizada. Tudo é didático e infantilizante, e o repertório de clichês parece vasto como nunca antes na história do cinema deste país.

Crítica/"Lula, o Filho do Brasil"

Ficção ruim converte vida única em história exemplar

Clichês e interpretações fracas marcam longa de tom didático e infantilizante

"Lula, o Filho do Brasil" é um filme incrivelmente ruim. A ponto de ter frustrado a plateia de convidados que o recebeu com aplausos discretos e ligeiros ao final da estreia, anteontem, na abertura do 42º Festival de Cinema de Brasília.

Na presença da primeira-dama, Marisa Letícia, do elenco, de vários ministros de Estado e de mais algumas centenas de figuras do mundo oficial brasiliense, esperava-se uma noite apoteótica. Não foi.

Antes da exibição, o produtor Luiz Carlos Barreto foi ao palco e criticou a organização do festival pela superlotação da sala.

Alertou que todos corriam risco de morte e pediu que os corredores fossem esvaziados. Foi vaiado. Fábio, o filho do Barretão, reclamou que os atores não tinham onde sentar. Pediu assentos livres. Mais vaias.

Curtos-circuitos à parte, o diretor Fábio Barreto tinha em mãos a matéria-prima de uma vida sem dúvida excepcional: a história única do retirante nordestino que chega à Presidência da República num país desigual como o Brasil.

O filme, no entanto, transformou a vida única em vida exemplar. A biografia de Lula foi idealizada, como se o presidente já estivesse contido em cada gesto da criança predestinada que nasceu no sertão pernambucano, filha de pai alcoólatra e de mãe infinitamente dedicada e bondosa. De resto, passagens importantes na vida do personagem, como a filha Lurian, que teve com Miriam Cordeiro, são deixadas de lado.

O ideário nacional-popular no filme assume propósitos edificantes, como se estivéssemos diante de uma aula-show de moral e cívica dos novos tempos. A narrativa é linear e convencional; tudo é didático, esquemático, infantilizante; o repertório de clichês parece vasto como nunca antes na história do cinema deste país.

A preocupação pedagógica, de realizar um filme bem explicadinho e redundante, lembra algo dos procedimentos da arte socialmente engajada, do antigo CPC ou do realismo socialista.

Mas, aqui, a pedagogia da superação pessoal está submetida à lógica do dramalhão, posta a serviço de uma sensibilidade que aproxima o filme das telenovelas. Seria talvez o caso de falar em realismo de mercado, ou mercadista.

Barretão parece sincero quando diz que fez o filme para "ganhar dinheiro". Fábio não mente quando insiste que o filme é um "melodrama épico", feito para "divertir e emocionar". O pragmatismo sem peias e a vulgaridade da família Barreto não deixam de ser um sinal (político? estético?) do momento nacional.

Registre-se a passagem em que um sindicalista, nos anos 70, saúda o bar "cheio de brameiros". A expressão não existia na época. O jargão da publicidade recente invade a tela sem nenhum pudor. É triste que uma produção tão cara para os padrões brasileiros tenha resultado em interpretações tão precárias em alguns casos.

Rui Ricardo Dias não se decidiu entre ter ou não ter a língua presa, entre imitar o Lula verdadeiro ou inventar uma dicção para seu personagem. Aristides, o pai de Lula, vivido por Milhem Cortaz, é quase um vilão de quadrinhos, resmungando, cambaleando e babando cachaça, sempre com gestos caricatos. A Marisa Letícia arisca de Juliana Baroni é a boa surpresa do elenco, que tem em Glória Pires, no papel de Dona Lindu, a mãe de Lula, seu porto seguro. De novela ela entende.

O filme se encerra com o trecho do discurso de posse em que Lula oferece seu "diploma" à mãe. A narrativa, no entanto, acaba em 1980, quando Lindu morre e o líder sindical deixa o Dops depois de um mês preso.

A história política aparece no filme como pano de fundo, quase uma moldura da trajetória do filho de Dona Lindu. Desde cedo, Lula está sempre fazendo comentários ponderados.

Quando vê pela TV a decretação do AI-5, solta, em tom de lamento: "Mas já estava tudo na mão deles".

A moral da história, porém, vai sendo salpicada ao longo da trama pelas falas que a mãe dirige ao filho em tom de ensinamento: "Primeiro a obrigação, depois a distração"; "O mais importante é não esquecer de onde você veio"; "A gente faz o que dá pra fazer, mesmo que seja pouco"; "Se você sabe o que é pra fazer, vai lá e faz, se não der, espera."

Com "O Filho do Brasil", o lulismo recebe a bênção materna.

LULA, O FILHO DO BRASIL
Quando:
estreia em 1º/1 nos cinemas
Avaliação: ruim



Fernando Barros e Silva

A visão de Aécio

Recebi do governador de Minas Gerais, Aécio Neves, pré-candidato à Presidência da República pelo PSDB, a seguinte mensagem, a respeito da coluna de ontem, “Passo em falso”, em que critiquei o encontro entre ele e o deputado federal Ciro Gomes, candidato potencial pelo PSB.

Como se trata de um depoimento esclarecedor sobre seu processo decisório, num momento fundamental para a definição do candidato do PSDB, publico a íntegra da mensagem:

“Caro Merval, dizem que a política é território onde, em detrimento da verdade, prevalecem as versões.

Hoje, ao ler os jornais, fiquei com o sentimento de que é também o território das interpretações, mais do que o da realidade.

Estou surpreso com a repercussão do meu encontro com Ciro Gomes ontem em Minas.

E por uma única razão: não há nada de novo nele.

O deputado Ciro já esteve por diversas vezes no estado.

Em algumas delas estivemos juntos. Por várias ocasiões ele já reafirmou a possibilidade de retirar a sua pré-candidatura caso a minha venha a se concretizar.

No entanto, em nenhuma dessas ocasiões o assunto mereceu tanta atenção.

A pressa em rotular ou tentar encontrar nesse encontro alguma motivação que pudesse contribuir para as falsas teorias conspiratórias em curso no cenário político fez com que passasse desapercebido o único fato novo ocorrido no encontro: pela primeira vez o ex-ministro vem a Minas e não faz, no estado, nenhuma crítica ao governador Serra.

É claro que isso não foi por acaso. Surpreende que ninguém tenha observado isso, que, se não tem nenhum significado específico quanto à posição de Ciro, certamente revela muito da minha.

Percebo com clareza o esforço feito por alguns no sentido de tentar fazer prevalecer sempre uma visão maniqueísta dos acontecimentos. Por essa ótica, tudo o que eu faço tem como objetivo gerar constrangimentos para o governador Serra, e tudo o que ele faz — ou não faz — tem como objetivo me criar dificuldades.

Serra prefere que a decisão do partido se dê em março? Ora, é para inviabilizar o Aécio, correm a dizer.

O Aécio se encontrou com Ciro? É só para incomodar o Serra, repetem à exaustão.

Essas análises seriam apenas uma forma empobrecida de perceber a realidade política se não terminassem por cumprir uma função: engessar os movimentos do Serra e meus de forma a perpetuar a ideia de um falso antagonismo entre nós.

O governador Serra tem inúmeras razões, todas corretas, para agir da forma que age.

Também eu as tenho.

Nossas iniciativas têm outras motivações. Pergunto: e se eu recebo amanhã, como já recebi inúmeras vezes, a bancada federal de algum partido? Na lógica das análises apressadas, alguém vai dizer: depois de se encontrar com Ciro, Aécio recebe a bancada do partido X para enfraquecer Serra.

E, se a minha agenda política não tiver nenhum encontro que possa ser interpretado do ponto de vista eleitoral, ainda assim alguém pode interpretar: silêncio de Aécio tem como objetivo pressionar Serra.

Tanto o governador Serra como eu temos responsabilidades e não podemos agir ou deixar de agir em função de interpretações.

Não podemos ser reféns de interpretações.

Você se recorda quando, há bem pouco tempo, algumas análises, apesar dos meus reiterados desmentidos, garantiam que eu ia deixar o PSDB? Análises podem se mostrar incorretas. O tempo é que diz. Mas nós, que temos responsabilidades públicas, não temos o direito de errar tão facilmente.

Continuo acreditando que o PSDB precisa ampliar o seu leque de alianças qualquer que seja o nosso candidato. E continuo achando que essas alianças devem ser buscadas no período préeleitoral, no período eleitoral e, certamente, também após as eleições.

A experiência da aliança com o PT em torno das eleições em Belo Horizonte cumpriu um papel importante. Tanto o prefeito Pimentel quanto eu sabíamos que ela estaria necessariamente restrita ao âmbito municipal, uma vez que não há condições políticas de que ela fosse pensada de outras formas.

Digo que ela cumpriu um papel importante — e lembro que existem centenas de alianças municipais PSDB-PT Brasil afora — porque acredito que o processo político não é linear.

Por fim, reitero o que venho repetindo muito ultimamente, por mais ingênuo que possa parecer para muitos: faço política conversando. Com aliados, com possíveis aliados, com adversários. É uma forma de se identificarem espaços e caminhos para a construção de consensos e avanços, embora reconheça que, em algumas circunstâncias, não há como fugir do confronto.

Em Minas, costuma-se dizer que, em política, devem brigar as ideias, não os homens.

Por isso, durante o meu governo, o Palácio das Mangabeiras, residência oficial do governador do estado, vem recebendo deputados, senadores, governadores e ministros de todos os par tidos, inclusive da oposição. À luz do dia.

Pela porta da frente”.


Merval Pereira

PT defende controle público e sanções à imprensa


Em documento a ser levado à conferência do governo, partido pede ainda mudança no modelo de outorga de concessões

Ricardo Galhardo
(O GLOBO)

SÃO PAULO. Um texto aprovado pelo diretório nacional do PT defende o controle público dos meios de comunicação e a criação de mecanismos de sanção à imprensa. No documento, intitulado “Resolução Sobre a Estratégia Petista na Confecom (Conferência Nacional de Comunicação)”, o PT também defende mudanças no atual modelo de outorga de concessões no setor de comunicação que, segundo o partido, é anacrônico, autoritário e “privilegia grupos comerciais em detrimento dos interesses da população”.

No documento, o PT revela ainda a estratégia de apresentar as propostas aos representantes do partido no governo envolvidos com a Confecom. A conferência organizada pelo governo Lula e prevista para acontecer entre os dias 14 e 17 de dezembro tem como objetivo levantar propostas para nortear a elaboração de políticas públicas para o setor. A previsão é que participem representantes do governo, sociedade e empresas de comunicação.

Entre os temas em debate pelo governo está o sistema de outorgas de concessões, que faz parte do eixo temático “Meios de Distribuição”.

O texto do PT afirma que o marco regulatório atual é “anacrônico, autoritário, fragmentado e privilegia os grupos comerciais, em detrimento dos interesses da população. Esses modelos permitem a uns poucos grupos empresariais — muitas vezes associados a fortes conglomerados estrangeiros — exercer o controle quase absoluto sobre a produção e veiculação de conteúdos informativos e culturais”, diz o texto.

Documento fala em “proibição de monopólios” Para substituir o modelo atual, o PT propõe: fortalecimento dos meios de produção público-estatais, regulação sobre conteúdo, mecanismos de controle público, proibição de monopólios, criação de um modelo que garanta mecanismos efetivos de sanção aos meios de comunicação, produção de nova legislação para direito de resposta, paridade racial de gênero na publicidade e um percentual para programas que tratem de história da África.

Perguntado se as propostas ferem princípios universais de liberdade de imprensa e expressão, o secretário nacional de Comunicação do PT, Gleber Naime, respondeu: — Esta proposta é para garantir a liberdade de imprensa e não a das empresas.

Naime prometeu detalhar por e-mail as propostas do partido, mas até as 20h de ontem não respondeu às perguntas.

Segundo ele, o texto foi elaborado num Seminário Nacional do partido sobre comunicação e referendado pelo diretório nacional sem a participação de petistas que ocupam cargos no governo.

O Ministério das Comunicações também foi procurado para explicar, entre outras coisas, o que o governo pretende mudar no sistema de outorgas, mas não respondeu.

Para o especialista em comunicação Carlos Alberto Di Franco, da Universidade de Navarra, as propostas do PT preocupam pois podem esconder objetivos de controle ideológico como os que foram aplicados em outros países latinoamericanos, como Venezuela e Argentina.

— Sob o pretexto de democratização, o que se oculta é a tentativa de um crescente controle ideológico da informação.

As empresas brasileiras de comunicação deram exemplo histórico de seu compromisso em defesa da democracia. Os jornais combateram a ditadura militar.

Mas combateram a ditadura em defesa de uma sociedade aberta e plural. O que vemos em alguns países da América Latina — e a Venezuela é um exemplo claro — é o crescimento de uma visão autoritária, centralizadora e antidemocrática — disse ele.

Nos últimos meses, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva não tem poupado ataques à imprensa. Em encontro com catadores de material reciclável, há cerca de três semanas, Lula disse que os formadores de opinião já não exercem influência sobre a população

Aulas de Democracia: Micheletti diz que vai renunciar temporariamente ao governo

TEGUCIGALPA - A dez dias das eleições, o presidente interino de Honduras, Roberto Micheletti, anunciou a renúncia temporária, pelo período de uma semana, ao cargo que desempenha desde a deposição do presidente eleito, Manuel Zelaya, no dia 28 de Junho.
Micheletti argumenta que com esta decisão, pretende abrir espaço para os hondurenhos se "concentrarem nas eleições e não na crise política" do país.

A decisão, que não apresenta nenhuma mudança real na hierarquia de poder do país, pode ser vista como uma estratégia para legitimar as eleições gerais de 29 de novembro, cuja legalidade vem sendo questionada pela esquerda hondurenha e pela comunidade internacional.

"Pretendo ausentar-me do exercício de minhas funções públicas por um período que poderia iniciar no dia 25 de novembro até 2 de dezembro, decisão que tomarei em consulta com os representantes dos diversos setores hondurenhos que me acompanharam durante esse processo", afirmou Micheletti, em cadeia nacional de rádio e televisão na noite desta quinta-feira.

O líder interino, que vem sendo acusado por organizações civis por sistemáticas violações de direitos humanos, advertiu que se durante sua ausência "se transcorrer uma ameaça a paz e tranquilidade do povo hondurenho, reassumirei minhas funções imediatamente para tomar com rigor as medidas".

Zelaya

Mais cedo, Zelaya emitiu um comunicado pedindo que as eleições fossem adiadas.

"É urgente apresentar soluções legais para esta crise, adiar as eleições deve ser uma condição que permita legitimá-las (...) que nos devolva ao Estado de direito, à ordem constitucional e a credibilidade internacional", disse o mandatário deposto.

Logo depois do anúncio de Micheletti, em entrevista ao canal multiestatal Telesur, Zelaya disse que os Estados Unidos o abandonou "no meio da tormenta", ao anunciar que pode reconhecer os resultados das eleições, mesmo sem a sua restituição.

"O governo dos Estados Unidos mudou de posição na metade do caminho, nos deixou no meio da tormenta (...) entraram em uma terrível contradição", afirmou.

Grande parte dos países latino-americanos anunciaram que não reconhecerão as autoridades eleitas se Zelaya não for restituído.

Para Zelaya, os presidentes da América Latina devem "preocupar-se" com o precedente aberto em Honduras.

"Houve um golpe de Estado (....) um precedente muito grave de desacato as resoluções da OEA, das Nações Unidas", disse.

Impasse

O impasse para alcançar uma solução negociada para a crise se aprofundou há duas semanas, quando o Congresso decidiu adiar a votação do acordo Tegucigalpa-San José que previa a restituição de Zelaya à Presidência e a formação de um governo de unidade.

Nesta semana, o Parlamento hondurenho anunciou que só votará sobre a restituição do presidente deposto, Manuel Zelaya, no dia 2 de dezembro, três dias após as eleições gerais.

No final de semana, Zelaya disse que não aceitaria voltar ao poder se a restituição ocorresse após as eleições.

Antes disso, o acordo, que contou com a mediação do departamento de Estado, foi rompido, quando Micheletti decidiu anunciar de maneira unilateral a formação do governo de coalizão.

O acordo fala da formação de um governo de unidade nacional, mas deixa para o Congresso a decisão sobre o regresso do presidente.

Estadão

UMA DESCOMPOSTURA FABULOSA NO FACINOROSO


No dia 24 de setembro de 2007, o presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, que chega ao Brasil na segunda. falou na Universidade de Columbia, nos Estados Unidos, num evento organizado pela Escola de Assuntos Públicos e Internacionais da instituição. Aquele ano foi dedicado às questões iranianas, e a presença do facinoroso foi apenas um dos eventos. Lee Bollinger, presidente da Columbia — lá, os reitores têm esse título — optou por fazer uma fala introdutória, prévia, ao discurso de Ahmadinejad. E fez história. A descompostura é fabulosa.

No vídeo abaixo, não está toda a sua fala. Antes do ponto em que vocês podem assistir, ele agradece os esforços dos coordenadores do evento e lembra: “Ouvir idéias que nós deploramos não implica endossá-las nem é sinal de fraqueza ou ingenuidade diante dos perigos reais inerentes a essas idéias”. O reitor se preparava para lançar um foguete contra Ahmadinejad.

“Uma das premissas cruciais da liberdade de expressão é que não tornamos honrada a desonra quando abrimos o debate para que ela se manifeste”. O reitor diz compreender o ponto de vista daqueles que acreditam que aquele evento — a presença de Ahmadinejad na Columbia — jamais deveria estar acontecendo, desculpa-se com aqueles que se sentirem pessoalmente atingido pelo fato e diz que fará o máximo para aliviar seu sofrimento. De modo enfático, afirma: “Que fique claro de uma vez por todas: este evento não tem absolutamente nada a ver com o ‘direito’ de quem fala, mas apenas com o nosso direito de ouvir e falar. Fazemos isso por nós”.

Lee Bollinger exalta os valores da liberdade, fala da necessidade de entender o mundo e lembra que a universidade não ocupa escalões do poder. Não faz a paz nem faz a guerra. Mas forma cérebros. E então passa a se dirigir diretamente a Ahmadinejad.

A brutal repressão de professores universitários, jornalistas e defensores dos direitos humanos
O reitor cita casos de perseguição a professores — um deles formado na Columbia e convidado a dar aula na Universidade, diz que a Anistia Internacional acusa a execução de 210 pessoas, 21 delas só no dia 5 de setembro. Entre os mortos estavam crianças e defensores dos direitos humanos. Lembra que se fazem execuções públicas, violando convenções internacionais de direitos civis de que o Irã é signatário. Isso tudo antecede o trecho do vídeo que está aí. O texto que segue depois dele são trechos da fala do reitor dirigindo-se diretamente a Ahmadinejad

1s até 2min37s
“Essas e outras execuções coincidiram com a selvagem repressão contra ativistas estudantis e professores, acusados de fomentar a chamada ‘revolução suave’ (…) Como disse a doutora Esfrandiari num entrevista, ele ficou presa numa solitária por 105 dias porque o governo acreditava que os EUA planejavam uma “Revolução de Veludo” no Irã. Nesta mesma sala, no ano passado, nós aprendemos alguma coisa sobre a Revolução de Veludo de Vaclav Havel. E ouviremos algo semelhante de Michelle Bachelet, presidente do Chile. Estas duas histórias extraordinárias lembram-nos de que não há prisões suficientes para impedir uma sociedade que queira ser livre de ser livre.

Nós, nesta universidade, não temos receio de protestar contra o nosso governo e de contestá-lo em nome desses valores. E não temos receio de criticar o seu governo.

Vamos deixar claro de saída: senhor presidente, o senhor exibe todos os sinais de um ditador mesquinho e cruel.

E eu lhe pergunto: por que as mulheres, os membros da religião Baha’i, homossexuais e muitos dos nossos colegas professores são alvos de perseguição em seu pais?

Por que, numa carta ao secretário geral da ONU na semana passada, Akbar Gangi, um dissidente, e outras 300 personalidades, entre intelectuais, escritores e laureados com o Prêmio Nobel acusam que a sua retórica inflamada contra o Ocidente busca desviar a atenção do mundo das condições intoleráveis que o seu regime criou dentro do Irã, em especial o uso da Lei de Imprensa para banir os críticos?

Por que o senhor tem tanto medo de que os cidadãos iranianos expressem suas opiniões em favor de mudanças? (…)

O senhor me deixa liderar uma delegação de estudantes e professores da Columbia para falar na sua universidade sobre liberdade de expressão, com a mesma liberdade que lhe garantimos hoje? O senhor fará isso?”

A negação do Holocausto
2min43s -3min59s
“Em dezembro de 2005, num programa da TV estatal, o senhor se referiu ao Holocausto como uma invenção, uma lenda. Um ano depois, o senhor apoiou uma reunião de negadores do Holocausto.

Para os iletrados, os ignorantes, isso é propaganda perigosa. Quando o senhor vem a um lugar como este, isto faz do senhor simplesmente um ridículo. Ou o senhor é um provocador descarado ou é espantosamente mal-educado [sem formação intelectual].

O senhor precisa saber que a Columbia é um centro mundial de estudos judaicos e, agora, em parceria com o Instituto YIVO, de estudo do Holocausto. (…) A verdade é que o Holocausto é o mais documentado evento da história humana. (…). O senhor vai parar com esse ultraje?

A destruição de Israel
4min2s -4min54s
Doze dias atrás o senhor disse que o estado de Israel não pode continuar a existir. Isso repete inúmeras declarações inflamadas que o senhor tem feito nos últimos dois anos, incluindo a de outubro de 2005, segundo a qual Israel tem de ser “varrido do mapa”.

A Columbia tem mais de 800 ex-alunos vivendo em Israel. Como instituição, temos profundos laços com nossos colegas de lá. Eu, pessoalmente, tenho me manifestado com força contra propostas de boicotar estudantes e especialistas de Israel dizendo que isso seria boicotar a própria Columbia. Mais de 400 colegas e reitores neste país pensam o mesmo. Minha pergunta, então, é: “O senhor planeja nos varrer do mapa também?”

Financiamento do terrorismo
4min58s - 5min55s
De acordo com o Council on Foreign Relations, está bem documentado que o Irã é patrocinador do terror, financiando grupos violentos como o libanês Hezbollah, que o Irã ajudou a organizar em 1980, e os palestinos Hamas e Jihad Islâmica.

Enquanto o governo que o precedeu colaborou com s EUA na campanha contra o Taliban, em 2001, o seu governo está atacando sorrateiramente as tropas americanas no Iraque, financiando, armando e garantindo livre trânsito para líderes insurgentes como Muqtada al-Sadr e suas forças.

Há inúmeros relatos que ligam o seu governo com os esforços da Síria para desestabilizar o frágil governo do Líbano por meio da violência e do assassinato político.

Minha questão é esta: por que o senhor apóia organizações terroristas que continuam a golpear a paz e a democracia no Oriente Médio, destruindo vidas e a sociedade civil na região?

Guerra por procuração contra as tropas dos EUA no Iraque
5min57s-6min45s

O general David Patraeus afirmou que armas fornecidas pelo Irã (…) estão contribuindo para a sofisticação de ataques, “que não seriam possíveis sem o apoio do Irã”. Muitos formados da Columbia e estudantes estão entre os bravos militares que estão servindo ou serviram no Iraque e no Afeganistão. Eles, como outros americanos com filhos, filhas, pais, maridos e mulheres que estão em combate vêem, certamente, o seu governo como inimigo.

O senhor pode lhes dizer e a nós por que o Irã está lutando uma guerra que não é sua no Iraque, armando a milícia Shi’a, alvejando e matando tropas americanas?

Finalmente, o programa nuclear do Irã e as sanções internacionais
6min46s-10min30s
Nesta semana, o Conselho de Segurança da ONU avalia ampliar as sanções [contra o Irã] pela terceira vez porque o seu governo se recusa a suspender o programa de enriquecimento de Urânio
(…)
Por que o seu país se recusa a aderir ao padrão internacional de verificação de armas nucleares, em desafio a acordo que o senhor fez com a agência nuclear das Nações Unidas? E por que o senhor escolheu fazer o seu próprio povo vítima dos efeitos das sanções internacionais, ameaçando fazer o mundo mergulhar na aniquilação nuclear?

Deixe-me encerrar com este comentário. Francamente, com toda sinceridade, senhor presidente, eu duvido que o senhor tenha coragem intelectual de responder essas questões.
(…)

Voltei
Quem, no Brasil, diria estas mercas verdades a Ahmadinejad?


Reinaldo Azevedo

Tarso provoca Itália


Em meio ao clamor de autoridades e setores da sociedade italiana para que o Brasil cumpra a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), o ministro da Justiça, Tarso Genro, afirmou hoje que há uma tendência no governo brasileiro de manter o ex-extremista Cesare Battisti no País por razões "humanitárias e políticas". O ministro resolveu aumentar a crise. Depois de conceder refúgio a Battisti, ato que desencadeou a crise, disse que identifica influências "fascistas" nas ameaças de setores do governo italiano.

"A Itália não é um país nazista nem fascista, mas vem sendo constatado um crescimento preocupante do fascismo em parte da população italiana", disse Tarso. "O fascismo venha ganhando força inclusive em setores do governo." Tarso disse que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva não tem pressa em anunciar sua decisão sobre o destino de Battisti, definida por ele como "solitária" e "soberana". O governo também alega não estar preocupado com retaliações diplomáticas e ameaças de representações contra o Brasil em cortes internacionais, prometidas pelo gabinete do primeiro-ministro da Itália, Silvio Berlusconi, com quem Lula esteve no último fim de semana.

(Com Agência Estado)

Reinaldo Azevedo:
Tarso acredita que ofender gratuitamente o governo de um país não ofende o estado. Pergunto: quando ele pôs em dúvida a decisão do Judiciário italiano; quando ele pôs em dúvida a capacidade de a democracia italiana manter um preso em segurança, ele estava ofendendo o governo ou o estado?

Augusto Nunes:
"Não faz sentido entregar um perseguido ao carrasco", declamou Tarso Genro. Foi exatamente o que fez o ministro da Justiça ao deportar para Cuba os pugilistas Erislandy Lara e Guillermo Rigondeaux, capturados no Rio quando tentavam a fuga para a Alemanha. A misericórdia de Tarso é seletiva.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

EM CARTA A LULA, BATTISTI AFIRMA QUE AÇÕES TERRORISTAS FIZERAM UMA ITÁLIA MELHOR. PARABÉNS, MINISTRO MARCO AURÉLIO!!!


Já escrevi aqui, e é fato, que o caso Battisti, em si, não chega a ser um botão quente, não é? Se as oposições tivessem a coragem de levar o homicida à televisão, e também as suas vítimas, a coisa talvez fosse diferente. Mas não o farão. Defendo a extradição porque acho que lugar de assassino é na cadeia. É questão simples. E, claro, pesa o asco que tenho pela canalha terrorista.

Battisti enviou uma carta a Lula, tornada pública. Espero que o ministro Marco Aurélio de Mello a leia com atenção para perceber a canalhice intelectual e moral com a qual está colaborando. Dos demais que decidiram que Lula é César, não espero grande coisa — nem mesmo uma leitura percuciente do texto.

A impostura segue abaixo. No começo do caso, Battisti fazia questão de se apresentar como alguém que tinha renunciado à política, que se ocupava agora da natureza, dos passarinhos e de assuntos morais. Mais: apresentava-se como um arrependido. Dado o andamento das coisas, voltar a ser um “político” passou a ser útil. Na carta a Lula, ele se apresenta como um utopista e, atenção, SUSTENTA QUE AS AÇÕES TERRORISTAS AJUDARAM A CRIAR UMA ITÁLIA SOCIALMENTE MAIS JUSTA. É claro que ele não chama terrorismo de “terrorismo”. O país teria melhorado, diz ele, em razão do sangue dos “companheiros” que tombaram. Sobre o sangue de suas vítimas, ele nada diz. Pulha!

Às vezes, sinceros amigos meus me dizem: “Você é muito duro; não se exponha tanto”. Perdão! Não consigo! O que vai abaixo é a mais descarada, safada e vigarista defesa do TERRORISMO. E Battisti defende o terrorismo para deixar claro que seus atos foram “políticos”. E, dada a seqüência, o crime político parece alguma coisa mais doce e melhor do que o crime comum.

Parabéns, ministro Marco Aurélio — e note que só me refiro ao senhor, uma deferência. O senhor se torna signatário desta rara peça de moral humanista. Aprendemos que o sangue do crime político é mais barato. E pode ser libertador, não é? Segue íntegra da carta.

*

“AO EXCELENTÍSSIMO SENHOR
LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA
PRESIDENTE DA REPÚBLICA FEDERATIVA DO BRASIL
SUPREMO MAGISTRADO DA NAÇÃO BRASILEIRA

AO POVO BRASILEIRO
“Trinta anos mudam muitas coisas na vida dos homens, e às vezes fazem uma vida toda”.
(O homem em revolta - Albert Camus)

Se olharmos um pouco nosso passado a partir de um ponto de vista histórico, quantos entre nós podem sinceramente dizer que nunca desejaram afirmar a própria humanidade, de desenvolvê-la em todos os seus aspectos em uma ampla liberdade. Poucos. Pouquíssimos são os homens e mulheres de minha geração que não sonharam com um mundo diferente, mais justo.

Entretanto, freqüentemente, por pura curiosidade ou circunstâncias, somente alguns decidiram lançar-se na luta, sacrificando a própria vida.

A minha história pessoal é notoriamente bastante conhecida para voltar de novo sobre as relações da escolha que me levou à luta armada. Apenas sei que éramos milhares, e que alguns morreram, outros estão presos, e muito exilados.

Sabíamos que podia acabar assim. Quantos foram os exemplos de revolução que faliram e que a história já nos havia revelado? Ainda assim, recomeçamos, erramos e até perdemos. Não tudo! Os sonhos continuam!

Muitas conquistas sociais que hoje os italianos estão usufruindo foram alcançadas graças ao sangue derramado por esses companheiros da utopia. Eu sou fruto desses anos 70, assim como muitos outros aqui no Brasil, inclusive muitos companheiros que hoje são responsáveis pelos destinos do povo brasileiro. Eu na verdade não perdi nada, porque não lutei por algo que podia levar comigo. Mas agora, detido aqui no Brasil não posso aceitar a humilhação de ser tratado de criminoso comum.

Por isso, frente à surpreendente obstinação de alguns ministros do STF que não querem ver o que era realmente a Itália dos anos 70, que me negam a intenção de meus atos; que fecharam os olhos frente à total falta de provas técnicas de minha culpabilidade referente aos quatro homicídios a mim atribuídos; não reconhecem a revelia do meu julgamento; a prescrição e quem sabe qual outro impedimento à extradição.

Além de tudo, é surpreendente e absurdo, que a Itália tenha me condenado por ativismo político e no Brasil alguns poucos teimam em me extraditar com base em envolvimento em crime comum. É um absurdo, principalmente por ter recebido do Governo Brasileiro a condição de refugiado, decisão à qual serei eternamente grato.

E frente ao fato das enormes dificuldades de ganhar essa batalha contra o poderoso governo italiano, o qual usou de todos os argumentos, ferramentas e armas, não me resta outra alternativa a não ser desde agora entrar em “GREVE DE FOME TOTAL”, com o objetivo de que me sejam concedidos os direitos estabelecidos no estatuto do refugiado e preso político. Espero com isso impedir, num último ato de desespero, esta extradição, que para mim equivale a uma pena de morte.

Sempre lutei pela vida, mas se é para morrer, eu estou pronto, mas, nunca pela mão dos meus carrascos. Aqui neste país, no Brasil, continuarei minha luta até o fim, e, embora cansado, jamais vou desistir de lutar pela verdade. A verdade que alguns insistem em não querer ver, e este é o pior dos cegos, aquele que não quer ver.

Findo esta carta, agradecendo aos companheiros que desde o início da minha luta jamais me abandonaram e da mesma forma agradeço àqueles que chegaram de última hora, mas, que têm a mesma importância daqueles que estão ao meu lado desde o princípio de tudo. A vocês os meus sinceros agradecimentos. E como última sugestão eu recomendo que vocês continuem lutando pelos seus ideais, pelas suas convicções. Vale a pena!

Espero que o legado daqueles que tombaram no front da batalha não fique em vão. Podemos até perder uma batalha, mas tenho convicção de que a vitória nesta guerra está reservada aos que lutam pela generosa causa da justiça e da liberdade.



Reinaldo Azevedo

Governo deve vetar fim do fator previdenciário


O ministro da Fazenda, Guido Mantega disse nesta quinta-feira, ao chegar ao Ministério da Fazenda, que a tendência do governo é vetar a proposta aprovada na véspera na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara que acaba com o fator previdenciário. "A linha do governo, dependendo da matéria, será vetá-la, quando ela prejudica as contas públicas", disse.

Mantega, no entanto, destacou que o projeto ainda não foi aprovado pelo plenário da Câmara. Ao ser indagado se o governo estava tranquilo em relação à aprovação na CCJ, ele disse que "o governo está sempre preocupado quando se trata de gastos".

O projeto propõe o fim do fator previdenciário como elemento para calcular o valor da aposentadoria, instituído na reforma da previdência, durante o governo de Fernando Henrique Cardoso.

Aposentadoria - O fator previdenciário foi instituído em 1999, com a Lei 9.876, para incentivar o segurado do INSS a adiar sua aposentadoria, prolongando o tempo de contribuição. Com isso, a ideia era equilibrar receitas e despesas da Previdência Social, reduzindo o déficit previdenciário.

O fator previdenciário reduz de 25 a 40% as aposentadorias. Se um trabalhador que possui 60 anos de idade e 25 anos de contribuição quiser se aposentar por idade, ele não receberá o valor integral. Para conseguir melhorar seus rendimentos, a pessoa tem de trabalhar mais até completar os 35 anos mínimos de contribuição.

(Com Agência Estado)

Lula deve contrariar STF e manter Battisti no Brasil


O presidente Luiz Inácio Lula da Silva deve manter o terrorista italiano Cesare Battisti no Brasil. O governo pretende alegar "razões humanitárias" para não extraditar Battisti, argumentando que o ex-integrante do movimento Proletários Armados pelo Comunismo (PAC) está doente. A mesma justificativa foi adotada pelo governo francês para não entregar à Itália a militante de esquerda Marina Petrella.

Além disso, Battisti responde a processo penal no Brasil por falsificação de documento e uso de passaporte falso e deve ficar no país até que seja julgado. "A lei é clara nesse sentido e não há o que discutir", afirmou o ministro da Justiça, Tarso Genro, que disse ter ficado "surpreso" com o voto favorável à extradição do presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Gilmar Mendes, na votação de quarta-feira.

Mendes criticou o refúgio concedido por Tarso a Battisti, sob a alegação de que não se pode atribuir motivação política a "crimes de sangue". Foi enfático, ainda, ao defender a tese de que o italiano - em greve de fome para pressionar a Justiça a absolvê-lo - deveria ser condenado pelos delitos, independentemente de seus objetivos. "Estou surpreso com esse sentimento dúbio", provocou Tarso.

Para o ministro, o endosso à extradição de Battisti contraria a jurisprudência do Supremo, uma vez que outros julgamentos da Corte decidiram pela concessão de refúgio a estrangeiros acusados de crimes políticos. Na Itália, Battisti foi condenado à prisão perpétua por quatro assassinatos nos anos 70.

Lula sempre apoiou a decisão do Ministério da Justiça de abrigar Battisti. O presidente foi convencido por amigos de que, se o ex-militante de extrema-esquerda retornar à Itália, corre risco de vida. De qualquer forma, na conversa mantida com o primeiro-ministro italiano Silvio Berlusconi, no fim de semana, Lula prometeu respeitar a decisão do STF.

(Com Agência Estado)

Procurador diz ter esperança de ver Battisti em prisão italiana


O magistrado italiano Armando Spataro, procurador-geral da República em Milão, recebeu com satisfação o parecer favorável do Supremo Tribunal Federal (STF) à extradição de Cesare Battisti e diz acreditar que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva seguirá a decisão da corte.

"Ainda que exista um ponto de interrogação, com o presidente Lula, existe uma razoável esperança de ver Battisti finalmente numa prisão italiana", afirmou Spataro, por telefone, à BBC Brasil.

Na quarta-feira, em Brasília, o STF aprovou a extradição de Battisti para a Itália, mas concluiu que caberá ao presidente Lula a decisão final sobre a entrega ou não do ex-ativista de esquerda ao governo italiano.

Armando Spataro foi integrante do grupo de promotores públicos que levou Battisti a ser condenado à prisão perpétua por crimes cometidos no fim dos anos 70.

"Mesmo com a votação sendo de 5 votos a favor e 4 contra, o importante é o resultado final", acrescentou o magistrado. "Esta decisão confirma a falsidade de algumas teses da defesa de Battisti e confirma a absoluta correção e legalidade dos procedimentos italianos nos nossos anos de chumbo."

Refúgio

Para Spataro, a concessão do asilo politico a Cesare Battisti, por parte do governo brasileiro, tinha sido um equívoco das autoridades.

"As palavras do ministro da Justiça, Tarso Genro, me pareciam palavras mal informadas, não devidamente informadas", disse o italiano, em uma referência à concessão do status de refugiado político a Battisti em janeiro deste ano.

Na ocasião, ao justificar a decisão de conceder refúgio político ao italiano, o ministro disse que o ex-ativista tem "fundado temor de perseguição política por suas opiniões políticas".

"A noção de delito politico, quando formou-se, nunca previu a cobertura de atos de terrorismo", argumenta Spataro. "O terrorismo é uma coisa completamente diferente. Ele não é, absolutamente, um delito político, e isso é importante compreender."

Cesare Battisti foi condenado à prisão perpétua pela Justiça italiana, acusado de participação em quatro assassinatos entre 1977 e 1979, quando integrava o grupo Proletários Armados pelo Comunismo. Ele nega as acusações.

O procurador afirma que, em nenhum momento desde a prisão de Battisti no Brasil, foi consultado por magistrados ou políticos brasileiros. "Eu tive contato apenas com o embaixador italiano no Brasil, que me pediu informações concretas e o rito do processo."

"Eu defendo que Battisti é um assassino puro. Battisti cometeu homicídios e desafio quem quer que seja a me dizer que o assassinato de um açougueiro tenha uma finalidade politica, que o homicídio de um cliente de um restaurante tenha uma finalidade politica", diz o procurador italiano.

Estadão

Entrevista com FHC, 2° bloco:





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Bloco 1 , Click Aqui

Um dia Patético no STF


Poderia começar afirmando que o Supremo Tribunal viveu ontem um dia triste. Mas foi mais do que isso. Conheceu todas as tonalidades do patético. Quando pensei que o ministro Ayres Britto já tinha conseguido atingir o sublime às avessas, veio Eros Grau em seu socorro, pedindo passagem, tarefa sempre facilitada no seu caso, e mandou ver: “Deixe comigo! Eu posso fazer melhor e conheço com mais pertinência os rigores do ridículo”. E idéias um tanto estranhas, parte delas francamente incompreensível (volto a este ponto no post abaixo deste), saíram daquele emaranhado singular — não menos emaranhadas, não menos singulares.

Comecemos de trás para a frente, por aquilo que foi decidido, ou não foi, e depois pensemos um pouco nas motivações. Descobrimos ontem que, para cinco ministros do STF, a Casa deve se confundir com um Grêmio Lítero-Musical, que também pode produzir, sei lá, sonetos, madrigais e aconselhamentos. De literatura, vai bem. Volta e Meia, Britto solta lá um Fernando Pessoa e, desconfio, dada a anemia poética de certas imagens, coisas que saem de sua própria cachola. Eros Grau já se aventurou, viajante inverossímil, pelos caminhos ignotos — e, no caso de sua prosa, também sonoros — da literatura erótica.

Para os ministros Carmen Lúcia, Joaquim Barbosa, Marco Aurélio, Eros Grau e Ayres Britto, uma das funções do Supremo Tribunal Federal é, parece, aconselhar o presidente da República. Isto: o tribunal seria uma espécie de assessoria do Executivo. Cabe agora a Lula JULGAR a decisão dos ministros e decidir se cumpre ou não o que foi decidido.

Já expus aqui em detalhes por que acho que a concessão do refúgio a Cesare Battisti foi descabida. Os próprios ministros que votaram a favor da extradição se encarregaram de desmoralizar aquele texto esdrúxulo, ridículo mesmo, de Tarso Genro, que arrogou para si a condição de Corte Revisora da Justiça Italiana. A serem políticos os crimes de Battisti, qualquer indivíduo pode sair por aí a matar autoridades e a alegar que está descontente com o ordenamento social, político e jurídico do Brasil. Trata-se da mais pura, rasgada e evidente vigarice intelectual.

Compreendo que os quatro ministros que votaram contra a extradição tenham, vá lá, tentado tirar do STF o poder de decisão. Posso não achar intelectualmente maiúsculo, mas compreendo. Agora, o que dizer de Ayres Britto? Ele concorda que a concessão do refúgio foi descabida, que os motivos alegados por Tarso Genro são impróprios, mas delega ao presidente a decisão?

Se, por cinco a quatro, o refúgio a Battisti foi considerado impróprio, refugiado, então, ele não é. Sobre isso, não resta dúvida. Não sendo refugiado e estando preso no Brasil por causa dos crimes comuns que cometeu, ele é, então, o quê? O Brasil está se tornando craque em inventar instâncias novas entre o certo e o errado. Agora há o acerto, o erro e as jabuticabas inventadas pelos gênios brasileiros. Vejam lá o Zé Mané Zelaya na nossa embaixada em Honduras. Não está como asilado, refugiado ou sei lá o quê. É nosso “hospede”. Agora temos um hóspede em Tegucigalpa e outro na Papuda.

Circulavam dúvidas severas sobre o voto de Britto, alvo de uma imensa pressão do governo. O Painel, da Folha, havia antecipado no dia 16:
Ataque…
É enorme a pressão para que o ministro Carlos Ayres Britto mude o voto no caso Battisti, ajudando a formar no STF, nesta quarta, maioria favorável ao entendimento de que caberia ao presidente da República a decisão final sobre a extradição.
…especulativo.
Desde a chegada ao Supremo, em 2003, Britto repete a colegas que deve sua indicação em boa medida ao jurista Celso Antonio Bandeira de Mello, contratado pela defesa de Battisti especificamente para influenciar o pupilo.

Foi um Deus nos acuda! Oh!, como essa coluna ousa escrever tal coisa? Para variar, os esbirros do oficialsmo tentaram desmoralizar o jornalismo. E, no entanto, a coluna acertou na mosca. Convidei, no próprio dia 16, os meus leitores a verem o ministro sem preconceitos. Escrevi:
Ayres Britto foi um dos ministros que votaram com o relator Cezar Peluso. Um voto claríssimo, que não ensejava dúvidas ou ambigüidades. Não tendo havido nenhum fato novo daquela data até agora, tenho razões para acreditar que ele mantém o seu voto, já que o único fato novo seria a pressão oficial, o que o desmoralizaria.

Pois é… Como se nota, eu estava mais preocupado com a sua reputação do que ele próprio. Isso vive acontecendo. É que sou um homem bom. Sei lá se foi Bandeira de Mello que o levou a posição tão esdrúxula. O fato é que ele decepcionou os crentes, não é?, e cumpriu as expectativas dos céticos… Aprendi a lição: de agora em diante, ele só vai me surpreender quando acertar. Não sei se fui muito sutil… Falo um pouco mais sobre Britto e Eros Grau no post abaixo.

Tratado de extradição
Existe um tratado de extradição firmado entre Brasil e Itália. Lula vai cumpri-lo apenas se quiser, é isto? O Brasil firma tratados, que têm prescrição constitucional, e o chefe de estado dispõe deles segundo lhe dá na telha?

Há uma única hipótese de Lula não entregar Battisti à Itália sem denunciar o tratado de extradição, isto é, sem declarar a sua nulidade: alegar que há fundado temor de perseguição política a Battisti na Itália. Nesse caso, estará declarando que o Brasil tem motivos para afirmar que, naquele país, não vigora um regime democrático de direito, o que seria mais uma ofensa, em meio a muitas, a uma país amigo; como se não bastasse o rol de sandices de Tarso Genro naquele seu texto destrambelhado.

Mais: quem vai tirar Battisti da cadeia? Lula? Seria essa outra atribuição que lhe concedem os Cinco do Supremo? Lula não deve ter gostado tanto assim do resultado. Ele odeia esse negócio de ter de decidir alguma coisa quando não há uma solução ótima para… Lula!

Mas nem isso me faz ignorar o fato de que, num quadro geral de rebaixamento institucional, não seria o Supremo a se preservar imaculado.


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O Supremo Tribunal Federal tem seus homens singulares, muito singulares! E já deixo claro: só tratarei aqui de questões públicas — ou porque evidenciadas em julgamentos transmitidos ao vivo pela TV ou porque ditas em público, sem compromisso de sigilo. Não tento, a partir daí, encontrar a motivação dos votos necessariamente. Tento compreender personagens que são importantes para todos os brasileiros.

Como deixei claro aqui, já concordei com opiniões de Britto — fim da Lei de Imprensa e o voto no caso Francenildo-Palocci — e já discordei também, a exemplo de Raposa Serra do Sol, de que ele foi o relator. No caso da reserva, vimos um Britto capaz de articular uma soma de conhecimentos que não apela apenas ao aborrecido saber jurídico, a esse emaranhado de leis e normas, aos códigos que nos regem — essas coisas, vocês sabem, que podem oprimir um magistrado.

Havia naquele voto, a gente notava, um espírito inquieto, insaciável na busca de novos conhecimentos — e ele pode ter atingido elevações que nos escapam, o que é sempre chato para quem fica fora da viagem. Ayres Britto confessou a mais de uma pessoa que já conheceu o fenômeno da levitação — sim, ele teria levitado. Até quando um interlocutor seu me narrou isso, que eu soubesse, só Paulo Coelho havia tido, entre nós, esse gostinho. Britto é vegetariano — e uma visão o teria levado a fazer tal escolha. Vocês parem de má vontade: não é que ele ficou com fome e passou a ver coisas. Isso acontece até comigo se paro de comer carne. A visão antecedeu a renúncia permanente à picanha, à alcatra e à chuleta.

“O que isso tem a ver com o voto dele, Reinaldo?” Bem, no caso de Raposa Serra do Sol, por exemplo, quando ele discorreu sobre o caráter telúrico dos índios — antes, ao menos, de os silvícolas tentarem fazer um acordo com o MST… —, percebi uma sensibilidade diferenciada. Já estou preparado para enfrentar as críticas dos “levitadores” e dos vegetarianos com banda sonora. Não estou ironizando ninguém. Estou é com inveja e me ressentido da minha mediocridade metafísica. Ninguém de outra dimensão me procura. Fico aqui, nesta solidão povoada de bilhões.

Eros Grau — eu ainda não me conformo que Eros tenha escrito prosa erótica; sempre acho que ele só tentou um trocadilho — também avançou ontem para um conhecimento que me pareceu buscar o além-do-homem. Eu gravei a sessão e preciso de tempo, se o STF não tornar disponível a íntegra, para transcrever o seu, sei lá como chamar, voto nessa questão da obrigatoriedade ou não de Lula extraditar Battisti.

Louvo o esforço dos seus colegas, que fingiram entender o que ele falou. Eu quero a transcrição porque me pareceu que, freqüentemente, as palavras corriam atrás do sentido, mas perdiam o fôlego, coitadas, no meio do caminho. Eros “garrou” lá numa dissertação sobre a Teoria da Interpretação. Sei que acusou alguns de seus pares de se aterem excessivamente a códigos e de se prenderem a juízos pré-estabelecidos, não ficando claro — entre outras obscuridades que ainda hei de esclarecer — por que ele próprio estaria livre de tal risco. A mim me pareceu que, para Eros, “ideológicos” são os que discordam dele, e dotados de visão multiplamente informada (não só pelas leis) são os que concordam com ele. Isso, reitero, na hipótese de aquilo que disse fazer algum sentido, coisa de que não estou convencido. Quero ler a transcrição primeiro. Se preciso, peço para alguém verter para o búlgaro.

Se a performance de Britto causou espécie, Eros tentou lhe provocar a inveja. Em seu voto, afirmou que Lula está obrigado a seguir o tratado de extradição. Está? Bem, então, na prática, eram cinco dizendo que Lula não poderia escolher. Epa! Quando se deu conta do que havia dito, reformou ali mesmo, ao vivo e em cores, o que acabara de dizer. Não! Ele se alinhava com aqueles que davam todo poder ao presidente, que faziam dele o Supremo do Supremo. Pronto! E ainda demonstrou certa irritação com, claro!, a confusão alheia…

São os nossos homens singulares de tempos singularíssimos!



Reinaldo Azevedo

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Com voto de Mendes, STF autoriza extradição de Battisti

BRASÍLIA - O Supremo Tribunal Federal (STF) autorizou na tarde desta quarta-feira, 18, a extradição do ativista italiano Cesare Battisti, condenado à prisão perpétua na Itália pelo assassinato de quatro pessoas entre os anos de 1977 e 1979. Último ministro a votar, o presidente da Corte, Gilmar Mendes, acatou o pedido do governo italiano, argumentando que Battisti deve ser extraditado porque foi condenado por crimes comuns, e não políticos.

Com o voto de Gilmar Mendes, o julgamento terminou com um placar de 5 votos favoráveis à extradição e quatro contrários. Esse resultado, porém, não significa necessariamente que Battisti será entregue ao governo da Itália.

Depois do intervalo para o lanche, os ministros irão decidir se o presidente Luiz Inácio Lula da Silva é obrigado ou não a cumprir a decisão do STF. Isso porque, para parte dos ministros, a decisão final cabe ao Executivo. A interpretação, exposta pelo ministro Marco Aurélio Mello em sessão na semana passada, é de que o que está em jogo é uma questão de política externa, o que, pela Constituição, é atributo presidencial.


Na abertura do julgamento, Marco Aurélio, que votou contra a extradição, anunciou que fará uma mudança em seu voto. Ele deve alterar apenas o seu julgamento sobre a prescrição ou não do crime.

A intenção do presidente do Supremo era dar o caso por encerrado logo depois de ler seu voto. Concluiria que os quatro colegas que concordaram com a manifestação do relator do caso, Cezar Peluso, automaticamente acolheram a tese de que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva seria obrigado a extraditar Battisti. Mas ministros consideram que esse tema deve ser debatido em separado. "Está tudo em aberto", disse um ministro logo após suspensa a sessão da semana passada, com 4 votos a favor da extradição e 4 contra.

Sondagem feita pelo Estado indicou que, sendo travado esse debate em separado, cinco dos nove ministros que participam do julgamento dirão que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva não será obrigado, mesmo com a autorização do STF, a mandar Battisti para a Itália. Isso permitirá que Lula mantenha o ativista no Brasil, como o governo deseja.

No entendimento desses cinco ministros, o papel do Supremo no processo de extradição é apenas analisar se existe algum impedimento legal para que alguém seja extraditado - como ser brasileiro nato ou o fato de o crime estar prescrito. Concluída essa análise e tendo o entendimento de não haver nenhum impedimento, o STF julga estar autorizada a extradição. A efetiva entrega dependeria do presidente da República.

O pedido de extradição foi feito ao Brasil pelo governo da Itália, depois que Battisti foi preso em 2007. O italiano está detido no presídio da Papuda, em Brasília, onde aguarda a decisão do STF e na última terça-feira, Battisti recebeu a visita de parlamentares que desejavam deixar claro seu apoio a permanência de Battisti como refugiado no Brasil.

No início do julgamento, manifestantes pró-Batisti tiveram de ser retirados do plenário da Corte. Em frente ao Tribunal, dois homens chegaram a se despir para protestar contra uma eventual extradição.


Estadão

Verdades amargas que Obama deveria ter dito para Hu Jintao em Pequim



Na terça-feira, Barack Obama, o presidente dos Estados Unidos, encontrou-se com Hu Jintao, o presidente da República Popular da China, para uma reunião privada. A agenda era longa, cobrindo a economia mundial, a mudança climática e a não-proliferação de armas nucleares. As duas últimas são as mais importantes, a longo prazo. Mas a primeira é a mais urgente. Se não conseguirmos uma recuperação econômica global saudável, a esperança de um relacionamento cooperativo provavelmente será vã. Mas essa recuperação está longe de certa. Pior, parte do que está acontecendo agora - particularmente a decisão da China de desvalorizar o yuan juntamente com o dólar - torna uma recuperação saudável menos provável.

Essa, então, era uma oportunidade para Obama dizer algumas verdades brutais. Eu espero que ele tenha dito, após um briefing cuidadoso por parte de seus assessores, seguindo esta linha:

"Sr. presidente, como eu disse no Japão, 'os Estados Unidos não pretendem conter a China, nem um relacionamento mais profundo com a China significa um enfraquecimento de nossas alianças bilaterais. Pelo contrário, a ascensão de uma China forte e próspera pode ser uma fonte de força para a comunidade das nações'. No futuro previsível, nossos dois países serão líderes no palco mundial. Nós devemos abordar nossos desafios em um espírito de cooperação e acomodação. Mas isso, a propósito, não está acontecendo em suas políticas cambiais."

"As autoridades chinesas expressaram preocupação compreensível com as políticas fiscal e monetária americanas. Mais recentemente, Liu Mingkang, seu regulador chefe bancário, argumentou que a combinação de um dólar fraco com baixas taxas de juros tinha encorajado um 'imenso carry trade' que estava tendo um 'impacto enorme nos preços globais dos ativos'. De forma semelhante, muitas autoridades chinesas se queixaram de nosso imenso déficit fiscal e temiam a segurança dos investimentos chineses nos títulos do Tesouro americano."

"Eu compartilho essas preocupações. Mas nossas políticas fiscal e monetária atuais têm uma causa direta: nós estávamos contemplando o abismo há um ano. Mesmo agora, nossa recuperação é fraca demais para reduzir o desemprego de seus níveis intoleráveis. Diante desses riscos, o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) e meu governo atuaram para sustentar a demanda. De fato, aqueles que alertaram que nosso pacote de estímulo provaria ser pequeno demais estavam certos."

"Nós enfrentamos uma recessão por um simples motivo: a crise financeira que herdamos provocou um colapso nos gastos privados americanos e um aumento acentuado na poupança privada. Meus assessores me disseram que, entre o quarto trimestre de 2007 e o segundo trimestre de 2009, a balança entre a renda privada americana e os gastos passaram de um déficit de 2,1% do produto interno bruto para um superávit de 6,2% - um deslocamento para a frugalidade de 8,3% do PIB. O colapso de nossa posição fiscal é apenas um reflexo desta mudança na balança entre renda e gastos privados. O alívio por parte do Fed também é uma resposta inevitável ao colapso."

"Eu sou o presidente dos Estados Unidos. Eu não colocarei nossa economia em uma depressão para proteger o valor das reservas chinesas. Afinal, ninguém nos Estados Unidos pediu para vocês intervirem em uma escala tão imensa nos mercados de moeda e assim acumular um total incrível de US$ 2,275 trilhão em reservas de moeda estrangeira até setembro deste ano, grande parte disso em nossa moeda."

"A política que a China aparentemente nos recomenda não funcionaria nem mesmo em seus próprios termos. Suponha que o Fed interrompa o alívio quantitativo e aumente as taxas de juros, visando fortalecer o dólar, enquanto promovemos um imenso arrocho fiscal. Isso devolveria a economia à recessão. Consequentemente, os déficits fiscais certamente piorariam de novo."

"Como Dominique Strauss-Kahn, o diretor-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), apontou aqui em Pequim, 'no final do dia, uma demanda doméstica chinesa maior, juntamente com uma maior poupança americana, ajudará a reequilibrar a demanda mundial e assegurará uma economia global mais saudável para todos nós'."

"Eu reconheço que a China exerceu um papel valioso ao estimular a demanda doméstica e assim facilitar os ajustes globais necessários. O FMI aparentemente espera um declínio imenso no superávit em conta corrente da China neste ano. Infelizmente, isso poderá ser temporário: primeiro, seu programa de estímulo, com sua dependência em uma enorme expansão do crédito, poderá provar ser insustentável; segundo, o declínio no superávit comercial da China é em grande parte resultado do colapso induzido pela crise no comércio mundial; e, terceiro e mais importante, a China embarcou em uma depreciação da moeda ao atrelar o yuan ao dólar em desvalorização."

"Em um momento de demanda global fraca, sua política é uma do tipo 'empobreça seu vizinho'. Vocês se queixam das ações protecionistas que implantei. Mas o impacto delas será trivial em comparação ao 'protecionismo cambial' da China. Essa política transferirá os custos do ajuste aos parceiros comerciais da China. Mas, de novo nas palavras de Strauss-Kahn, 'uma moeda mais forte faz parte do pacote de reformas necessárias. Permitir a valorização do yuan e de outras moedas asiáticas ajudaria a aumentar o poder aquisitivo dos lares, aumentar a participação do trabalhador na renda e fornecer os incentivos certos para reorientar o investimento'."

"Vocês decidiram, como estou certo, que essas admoestações não significam nada. O que vocês podem não entender é a velocidade com que as democracias podem mudar sua postura, de uma mão aberta a um punho cerrado. Se, ao longo do próximo ano ou dois, seu superávit em conta corrente explodir para o alto, enquanto nosso déficit fizer o mesmo, será impossível para nós ignorá-lo. Isso é particularmente verdadeiro quando analistas sérios - o Goldman Sachs, neste caso - estimam que, no caminho atual, a China poderá ter um superávit maior, em relação ao PIB mundial, em 2020, do que os 'os superávits combinados da Alemanha, Japão e países do Oriente Médio em 2007'."

"Mas nós não temos todo esse tempo. Se a economia doméstica americana permanecer fraca e o desemprego alto, enquanto aumenta nosso déficit comercial, particularmente nosso déficit bilateral com a China, a pressão para 'fazer algo' seria irresistível. Eu teria que considerar os tipos de ações tomadas por Richard Nixon em 1971. Para forçar valorizações por parte da Alemanha e do Japão, ele ameaçou uma sobretaxa de 10% sobre as importações. Com grande pesar, eu poderia me sentir obrigado a fazer o mesmo. Eu então argumentaria que a determinação da China de frustrar o ajuste necessário no câmbio se tornou intolerável. Os Estados Unidos têm o direito de se protegerem contra esse mercantilismo. O sistema comercial seria terrivelmente danificado. Mas a alternativa seria intolerável."

Será que Obama falou tão diretamente? Provavelmente não. Ele deveria? Sim, eu acho que deveria. Nós já perdemos tempo demais discutindo as políticas cambiais da China. É hora de uma ação.


Martin Wolf
Tradução: George El Khouri Andolfato

The Finacial Times

Passo em falso


A insistência com que o governador Aécio Neves alardeia sua amizade pessoal e afinidade política com o deputado federal Ciro Gomes, candidato potencial do PSB à Presidência da República, e a repetição, por parte deste, da promessa de não se candidatar caso o governador de Minas venha a ser o escolhido do PSDB, é mais uma prova exemplar de como nosso sistema partidário é caótico, gerando governos eleitos sem uma mínima base parlamentar que lhes dê sustentação política efetiva.

Ciro foi de diversos partidos, inclusive da Arena no tempo da ditadura, mas teve sucesso político no PSDB, pelo qual chegou a ser ministro da Fazenda na transição do governo Itamar Franco para o primeiro governo de Fernando Henrique.

Esse período serviu também para que se tornasse adversário ferrenho tanto do ex-presidente quanto de José Serra, a quem, pela gana que tem, deve atribuir uma atuação decisiva para que não tenha continuado ministro da Fazenda.

A atuação de Aécio na tentativa de distender o ambiente político no pós-Lula tem sentido, mas ficou evidente que é uma tarefa quase impossível costurar alianças políticas com adversários figadais nesse período que antecede a eleição.

Ele já tentara uma aliança em Minas com o então prefeito petista de Belo Horizonte Fernando Pimentel para emplacar um candidato comum, Márcio Lacerda (PSB), e esbarrou na negativa do PT nacional.

Ao vetar a aliança na sua instância mais alta, depois que ela fora aprovada pelos diretórios regional e estadual, o PT mostrou que sua visão política é pragmática até certo ponto. Aceita fazer acordos "até com o diabo", mas não quer fortalecer uma eventual candidatura tucana à Presidência da República.

Aécio teve que se contentar com um apoio "informal" ao seu secretário, que acabou sendo eleito. Mas não ficou nada da aliança com o PT no estado. Tanto que Pimentel é um dos coordenadores da candidatura da ministra Dilma Rousseff à Presidência e deve ser o candidato petista ao governo de Minas, com a tarefa de derrotar o governador Aécio, que pretende lançar seu super-secretário Antonio Anastasia.

Para aumentar as diferenças, a candidata oficial pretende ressaltar na campanha suas origens mineiras, embora tenha feito toda sua vida política e profissional no Rio Grande do Sul. Para não perder o controle político de Minas, caso não venha a ser candidato a presidente, Aécio terá que derrotar o petismo, que é forte no estado.

Mas, voltando à relação Ciro/Aécio: é difícil acreditar que o PSB aceitaria sair da base petista para apoiar Aécio à Presidência, mesmo que Ciro assim o quisesse. Mais difícil ainda é aceitar que Ciro, desistindo do Planalto por Aécio, não se candidatará ao governo de SP, como quer Lula. E, candidatando-se, não fará campanha agressiva contra Serra, que, nesse caso, seria candidato à reeleição.

Não é nem o caso de analisar as chances de vitória de Ciro em São Paulo, que são quase nulas em qualquer caso. Simplesmente os ataques de Ciro a Serra inviabilizariam o seu apoio a nível nacional a Aécio. Portanto, essa estratégia do governador mineiro não serve para nada, a não ser para criar um ambiente de constrangimento dentro do seu partido.

A ideia central da candidatura de Aécio é a de que ele é mais agregador do que Serra, e que sua candidatura seria "mais ampla", para usar as palavras do presidente do PSDB, Sérgio Guerra, que, de tão inábeis, podem ser tentativa pouco sutil de sinalizar a Serra que abra caminho para Aécio.

Mas, como vender essa imagem se ele não consegue conciliar em seu próprio partido?

A busca de apoios em partidos que fazem parte da coligação governista, mas que são claramente peixes fora d"água, como PP e PTB, faz parte de um movimento correto para demonstrar sua suposta maior capacidade de agregar apoios. Mas fazer provocação pública a seu concorrente e ao presidente de honra do PSDB, FH, em troca de nada, não parece uma estratégia adequada num momento capital como a definição da candidatura oposicionista.

É claro que deve haver alguma razão recôndita para que Aécio, um político experiente, tenha dado esse passo aparentemente em falso, quando encaminhava bem sua justa tentativa de ser escolhido pelo partido. Talvez ele e seus assessores considerem que assim possa ser visto como um candidato desligado da história do PSDB, e que, por isso, não será apanhado na armadilha que o PT está armando, de comparar os governos de FH e de Lula.

Estaria incorrendo num erro que pode ser fatal, o mesmo em que incorreram Serra e Alckmin, os dois tucanos batidos por Lula: evitar a "contaminação" do governo FH, em vez de assumir suas virtudes e defender o programa partidário.

O mesmo erro Serra está cometendo novamente, na tentativa de se mostrar uma alternativa confiável para eleitores de esquerda que eventualmente possam estar insatisfeitos com a escolha de Dilma.

Até o momento, mesmo admitindo-se que exorbita de seu poder para tentar colocar em pé a candidatura de Dilma, é o presidente Lula quem está fazendo tudo certo, apesar de ser o PSDB que tem em José Serra o candidato preferido do eleitorado até o momento.

A indefinição do PSDB, e sua divisão cada vez mais clara, contrastam com a unidade governista, mesmo que a candidata oficial seja ruim de voto e não tenha traquejo político.

O que alimenta o apoio de um amplo leque de partidos à sua candidatura é a crença na capacidade de Lula transformar em votos para sua candidata sua grande popularidade.

O PT, com sua gana de poder e seu programa esquerdista reafirmado, deveria ser um empecilho a esse apoio por parte de partidos que confiam em Lula, mas não no PT.

Mas o PSDB teria que lhes dar alguma segurança. Até o momento, não tem nem candidato nem proposta alternativa.

A propósito de informação de que o PSDB gastou R$160 milhões na campanha presidencial de 2006, dada na coluna de sábado, "Plutocracia", recebi o seguinte esclarecimento do vice-presidente executivo do PSDB, Eduardo Jorge Caldas Pereira: "A campanha do PSDB de 2006 custou cerca de R$83 milhões, e este número está na página do TSE. A confusão que leva ao erro pode ser a solicitação do TSE, que pediu ao PSDB para registrar, como doação do partido ao candidato, a parcela desses recursos que, segundo o TSE, deveriam estar explicitados como despesas específicas do candidato e não da campanha. Assim, se trata de dupla contagem, pois o PSDB só arrecadou e só fez dispêndio na conta do Comitê financeiro".

Merval Pereira

No vácuo de Lula

SÃO PAULO - Lula acredita que o Tribunal de Contas da União é um entrave ao progresso do país. Seu governo quer manietar o TCU para reduzir os efeitos práticos da fiscalização das obras e da aplicação dos recursos públicos. Lula também disse há pouco que a imprensa não deve fiscalizar o poder, mas informar seus leitores. Se for mais que um jogo de palavras, trata-se de uma defesa do jornalismo subalterno. Seria, claro, um enorme retrocesso, mas o traço obscurantista foi logo assimilado ao repertório de disparates de Lula a que, afinal, estamos habituados.

O lulismo começou esvaziando a desconfiança dos mercados. Depois esvaziou os partidos, os movimentos sociais, os sindicatos autônomos, o que restava de vida intelectual independente no país.

Lula ficou cheio de si e hoje aglutina um poder quase incontrastável. Mas, apesar das bobagens que diz, se mantém um democrata. Talvez tenha razão quem acha que Lula representa a parte boa do PT.

Sua aclamação popular, porém, dá ensejo para que o governo venha flertar com tentações autoritárias, bem ao gosto dos "neoestatólatras". Parece ser este o caso da Confecom -a conferência organizada por Franklin Martins para discutir a regulação das comunicações no país.

Segundo as propostas compiladas pelo Planalto, e reportadas ontem por esta Folha, fica claro que a intenção é expandir e facilitar os negócios da mídia estatal, como a TV Brasil, que ninguém vê, e fortalecer a mídia privada regional e/ou comunitária, que hoje já é dependente da verba do Estado e na prática faz propaganda do governo. Sob a retórica da democratização, o que se busca é esvaziar a imprensa independente, aquela que fiscaliza e dá azia em Lula todas as manhãs.

Seria essa uma demanda da sociedade e da democracia ou uma agenda motivada por algum ressentimento pessoal? Seria uma iniciativa da gestão Lula ou do governo paralelo que o futuro primeiro-ministro começa a operar a serviço de Dilma Rousseff?


Folha de São Paulo

AHMADINEJAD, O MATADOR


No próximo dia 23, um delinqüente internacional chamado Mahmaoud Ahmadinejad chega ao Brasil. Ele é presidente do Irã e expressão, vá lá, leiga, da ala dura do clero xiita que desenvolve um programa nuclear secreto. O Irã quer a bomba. Sem ela, o país já financia dois movimentos terroristas: o Hezbollah, que, na prática, governa o Líbano, e o Hamas, que tem o governo da Faixa da Gaza. Sem a bomba, o Irã já ameaça varrer Israel do mapa. Ahmadinejad, como se sabe, nega o Holocausto judeu e diz que tudo não passou de uma grande conspiração. Isso já seria o bastante para jogá-lo na lata do lixo. Não para o Itamaraty de Celso Amorim. Não para o governo Lula. Como não reconhecer? O governo brasileiro já adulou gente ainda pior. Um lulista poderia dizer: “Pô, a gente apóia o ditador do Sudão, que já matou 300 mil pessoas!”

Ahmadinejad chega na segunda-feira, seis dias depois de a Justiça do Irã, controlada com mão de ferro pela ala radical que ele representa, ter condenado cinco pessoas à morte e outras 81 a penas que variam de seis meses a 15 anos de prisão. Seu crime: participaram de protestos contra a fraude nas eleições — fraude que foi reconhecida pelo aiatolás do Conselho da Revolução Islâmica. Só o aiatolá Lula disse não ter visto nada demais, comparando os protestos da oposição a uma torcida contrariada, cujo time tivesse sido derrotado. Agora, com a profundidade política habitual, ele poderia continuar na alegoria: “Veja bem: nos estádios brasileiros, infelizmente, também morre gente de vez em quando…”

Tudo isso, dirão os pragmáticos, diz respeito à política interna do Irã, e o Brasil deve ser pragmático. Pragmatismo com um negador do Holocausto? Pragmatismo com um financiador do terrorismo? Pragmatismo com um governo que condena pessoas à morte por delito de opinião?

Quando Shimon Peres, presidente de Israel, esteve por aqui, o governo fez saber que Lula defendeu a criação do estado palestino (é justo!) e o entendimento com o Irã: é uma estupidez porque é impossível haver entendimento com quem não o reconhece e promete destruí-lo. O Irã tem de se entender é com as normas do direito internacional.

Vamos ver quais serão as mensagens de Lula a Ahmadinejad que vazarão para a imprensa. Posso adivinhar: o presidente brasileiro defende a paz e acredita que todo mundo tem o direito ao uso pacífico da energia nuclear…

Quem defende a paz na conversa com um delinqüente está defendendo a paz dos delinqüentes. Já é comum citar, eu sei, mas vá lá. Quando Chamberlain e Daladier disseram a Hitler que ele poderia ficar com um naco da Checoslováquia desde que, depois, a Europa vivesse em paz, estavam fazendo, sem querer, a opção pela guerra. E com desonra. A “paz” a qualquer custo é coisa de bandidos. Os milhões de mortos da Segunda Guerra não deixam de ser uma magnífica obra do “pacifismo”.

Volto à cena doméstica. Receber Ahmadinejad como líder de respeito, que tem o que dizer, corresponde, não tem jeito, a condescender com o terrorismo. É claro que um governo não precisa endossar práticas de outros para manter relações diplomáticas e comerciais. Ocorre que o presidente do Irã não é apenas “um outro”. Ele é o avesso da política; ele é a personificação do terror e, como se nota, esmaga o seu próprio povo.

O vídeo abaixo traz a morte de Neda Soltani, a jovem alvejada no meio da rua porque protestava contra a fraude eleitoral que ajudou a reeleger Ahmadinejad. Outra boa maneira de demonstrar repúdio à presença deste senhor no Brasil é esfregar nas suas fuças a imagem de Neda. É ele o seu assassino.



Reinaldo Azevedo

“LULA, O FILHO DO BRASIL” E A ESTÉTICA INAUGURADA PELA PT



Foi o maior fuá ontem em Brasília. Mil e quatrocentas pessoas deveriam estar no Teatro Nacional para a pré-estréia de “Lula, O Filho do Brasil”, filme da família Barretão que inaugura a estética do lulo-petismo — sim, uma verdadeira revolução, como queria Trotsky, tem uma estética também revolucionária. Já volto ao ponto. Imaginem se onde cabem 1.400 puxa-sacos não se amontoam no mínimo 1.800! E foi o que aconteceu. Os adoradores de Lula se espalhavam pelos corredores. Barretão pai, o Luiz Carlos, tentou chamar os fiéis à razão: “Não há bombeiros aqui. Se estourar uma lâmpada, as pessoas estarão todas correndo risco de vida”. Foi vaiado. Barretão filho, Fábio, o diretor, reclamava: “Nós, equipe e atores, estamos sem lugar para sentar”. Inútil. Ficou todo mundo no mesmo lugar. Era o dia de celebrar a igualdade.

Ao fim da seção, aplausos e tal, como seria de se esperar numa platéia esmagadoramente petista — exceção feita a alguns jornalistas, poucos não-petistas, é verdade. Relata um amigo que a reação, no entanto, foi fria. Segundo ele, há momentos no filme, em especial alguns diálogos, que são constrangedores. Por que a relativa frieza? Não sei. Preciso ver o filme primeiro. A minha hipótese é a de que não há Lula de ficção que possa superar o de verdade na dor e na alegria. Que humorista tentaria sacanear o petista especulando sobre as eventuais vantagens que teria a Terra se fosse quadrada? E, no entanto, Lula se deu a tais divagações.

O filme, diz-me esse amigo, é feito para emocionar, para chorar — e não para chorar pouco. Pode estar aí um problema? Um clichê, escreveu Umberto Eco, incomoda; cem clichês podem comover — duzentos, acrescento eu, podem narcotizar. De todo modo, “Lula, O Filho do Brasil” não foi feito para sensibilizar aquela platéia. Ao contrário até: a esmagadora maioria se considera parte da construção do mito. Lá se encontravam o apparatchik e aquele misto de lobistas e homens de negócios que tão bem caracteriza Brasília. Muitos ali terão seus cineastas do coração — e não é a família Barretão. Devem achar que o filme é importante “para o povo”, entenderam?, apostando, obviamente, no seu efeito eleitoral.

Financiamento ilegal de campanha
A platéia estava coalhada de ministros. Quem deu o tom adequado para a coisa foi o do Planejamento, Paulo Bernardo. Respondendo a críticas dos que antevêem uso eleitoral do filme, mandou ver: “Não tem nada ilegal ou irregular nisso. Eles [os oposicionistas] também que façam um filme. Se procurarem, acham alguma história interessante”. Quanta delicadeza d’alma! Vamos pensar: o contrário de “oposição”, nesse contexto, é “governo”. Se Bernardo desafia a oposição a fazer um filme, então admite que se trata de um trabalho do… governo, de uma manifestação de oficialismo. A divulgação massiva do filme se dará em ano eleitoral. Assim como dois mais dois são quatro, estamos falando de uma peça da propaganda eleitoreira.

Persigamos a lógica de tal raciocínio, o que acabará me levando àquela questão sobre a inauguração de uma nova estética. Barretão se orgulha de não ter recorrido a leis de incentivo. Huuummm… Pra quê? O filme mais caro até agora feito no Brasil — R$ 16 milhões ao todo — contou com o apoio generoso das seguintes empresas: AmBev, Camargo Corrêa, Embraer, Suez, Nestlé, OAS, Odebrecht, Oi e Volkswagen. Eike Batista, o coruscante, contribuiu com R$ 1 milhão, mas como pessoa física. Consta que nem foi preciso pedir. As empresas fizeram questão de colaborar.

Há uma lei maior e bem mais importante operando aí: a Lei do Poder. Vejam o caso da Oi, antiga Telemar. Se deu R$ 10 milhões para a empresa de Lulinha, por que não daria uma graninha para o filme sobre a vida do pai de Lulinha, que é quem manda? A contribuição estética certamente será irrelevante. Mas a contribuição ética de Barretão ao cinema e à política já é inigualável!” Estaríamos diante de uma sofisticada maneira de financiamento irregular de campanha?

As centrais sindicais entraram na parada e vão levar o filme aos trabalhadores. Hugo Chávez já foi convidado para distribuí-lo — e financiar essa distribuição — entre seus companheiros bolivarianos da América Latina. Tenta-se comprometer o próprio Barack Obama com o apoio à fita nos EUA. Nesse caso, é bem possível. Sabem como é este moço. Já Chávez… Vai que Lula tome o lugar de Bolivar no coração dos chavistas…

Estética
Stálin era um conservador em estética. Teria dito certa feita: “Fizemos a revolução, mas conservamos a bela língua russa”. Lula não diria o mesmo sobre o português — especialmente com a expansão, do modo como se dá, de certo ensino universitário. A nossa revolução atinge a língua também. Trotsky, no exílio, chegou a flertar com uma arte transgressora. Mas, na URSS stalinista, triunfou o analfabetismo cafona do Realismo Socialista: os “homens do povo” passaram a ser as personagens da produção cultural, que tinha de ter uma mensagem edificante, que contribuísse para solidificar a moral revolucionária.

Não vi o filme, mas parece que não se encaixaria bem nessa definição — e as fontes de financiamento, somada à confissão involuntária de Bernardo, sugerem outra estética: o lulo-petismo criou o Vitimismo Triunfalista Estato-Capitalista. O estado não põe dinheiro na propaganda petista. Quem faz isso é a iniciativa privada que ou faz negócios com esse estado ou não quer ficar de mal…

A expectativa é a de que o povo saia chorando de emoção com Lula e, de coração “lavado e enxaguado”, vá votar em Dilma. Será? A mitificação do presidente contribui para fortalecê-la ou só reforça o contraste existente entre ambos? Verei certamente o filme — é obrigação profissional — e escreverei aqui as minhas impressões. Nos cinemas, os trailers têm sido recebidos com uma vaia meio preguiçosa — um muxoxo, um “hannn” de insatisfação. É uma vaia também fria, como o aplauso.

“O filme é para o povo, não é pra você, Reinaldo”. Tá… Eu juro que preferiria chorar de raiva a chorar de melancolia.

Reinaldo Azevedo

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Censura na Blogosfera

A Justiça proibiu dois blogs de Cuiabá - Prosa e Política, da economista Adriana Vandoni, e Página do E, de Enock Cavalcanti - de emitirem "opiniões pessoais" sobre o deputado José Riva (PP), presidente da Assembléia Legislativa do Mato Grosso e alvo de quase uma centena de ações judiciais movidas pelo Ministério Público por supostos atos de improbidade. Em decisão do dia 10, o juiz Pedro Sakamoto, da 13ª Vara Cível, acolheu pedido de liminar em ação de indenização por danos movida por Riva, "conhecida personalidade pública do Estado".

Os blogueiros devem se abster "de emitir opiniões pessoais pelas quais atribuam àquele (deputado) a prática de crime, sem que haja decisão judicial com trânsito em julgado que confirme a acusação, sob pena de multa de R$ 1.000,00 por ato de desrespeito a esta decisão e posterior ordem de exclusão da notícia ou opinião".

"Em algumas matérias os réus extrapolaram o direito de informação e agrediram a dignidade do autor por meio de afirmação indevida da prática de crimes sobre os quais ainda não há decisão judicial irrecorrível", asseverou o juiz. "Estou convicto de que a mantença dessas matérias jornalísticas em site da internet resultará em prejuízo à imagem do autor uma vez que este está sendo tachado de criminoso antes mesmo da existência de sentença com trânsito em julgado."

"Não será esta concessão de liminar que me acovardará ou intimidará", reagiu Adriana em seu blog (www.prosaepolitica.com.br).

A censura provocou manifestações de solidariedade a Adriana até no Senado. "Fatos como esse, bem como a censura ao Estadão no caso da família Sarney, só demonstram que temos que caminhar muito para que tenhamos uma democracia não só formal, mas sobretudo material", alerta o procurador da República Pedro Taques. "A decisão viola princípios constitucionais. A responsabilização não pode ser prévia, notadamente tendo em conta fatos narrados em peças judiciais e do Ministério Público."

"Todo excesso deve ser combatido", declarou o deputado. "A notícia pode ser publicada, mas dentro do limite da notícia. Não tenho condenação com trânsito em julgado. Em que pese os processos, ela (Adriana) não tem direito de emitir opiniões jocosas e agressivas contra a minha pessoa. Fiz o que devia fazer para acabar com exageros. Ser questionado na Justiça tudo bem, mas não é justo que a imprensa condene você."


Estadão



Lamentável...
Esse é o Brasil onde quem deve não precisa mais temer!