quarta-feira, 29 de abril de 2009

África do Sul O populista Zuma é eleito presidente

O REI DA POLIGAMIA Jacob Zuma casa-se com sua esposa de número 4

EM ESTILO ZULU

O populismo de Jacob Zuma, próximo presidente da África
do Sul, é do gênero que faz a desgraça do continente


Thomaz Favaro

A vitória do Congresso Nacional Africano (CNA) nas eleições parlamentares da quarta-feira da semana passada nunca esteve em dúvida. O partido venceu as três eleições anteriores realizadas desde o fim do apartheid, em 1994. A apuração parcial das urnas indica uma vitória com dois terços dos votos. O resultado dá ao CNA o direito de indicar o presidente da África do Sul: Jacob Zuma, líder da rebelião na cúpula partidária que forçou o presidente Thabo Mbeki a renunciar. Parece continuísmo, mas a sucessão representa uma ruptura cultural e ideológica no país que responde por um terço da economia da África abaixo do Saara. Em lugar de darem o exemplo aos vizinhos com sua democracia e vigor econômico, são os sul-africanos que adotam o gênero de político populista que faz a desgraça do continente.

Nelson Mandela e Thabo Mbeki, os dois presidentes anteriores, pertencem à elite negra sul-africana e se formaram em universidades renomadas. Zuma vem da outra metade da população, que é pobre, vive na zona rural e toca a vida de acordo com os costumes tribais. Filho de uma empregada doméstica, ele cuidava do gado num grotão de KwaZulu, coração do povo zulu, a mais numerosa etnia do país. Adolescente, entrou para a ala militar do CNA africano e só aprendeu a ler já adulto, na prisão. Aos 67 anos, Zuma tem uma carreira marcada por escândalos de corrupção, lavagem de dinheiro, extorsão, fraude e sonegação de impostos (apenas para citar acusações que chegaram à Justiça). O fato de nunca ter sido condenado não é prova de sua inocência, e sim da robustez de seu poder político. Seu primitivismo espanta. Em um julgamento por estupro, em 2006, do qual também saiu absolvido, ele revelou que pensava que uma ducha poderia evitar a contaminação pelo vírus da aids.

A imprensa sul-africana diz, em tom de galhofa, que a principal dúvida é o nome da primeira-dama. Polígamo, Zuma admite ter quatro esposas e vinte filhos. Como um homem com tal currículo pode ser tão popular? Muitos sul-africanos votam no candidato do CNA por reverência ao papel do partido na luta contra o apartheid. Mas a maioria dos eleitores de Zuma são os camponeses, que o veem como um dos seus. A máquina do partido também não quer saber de mudanças. O monopólio sobre a administração pública permitiu a uma pequena elite ligada ao CNA enriquecer rapidamente, enquanto os indicadores sociais do país mostram avanços tímidos. O desemprego chega a 40% e uma em cada oito pessoas está infectada com o vírus da aids. Por falta de planejamento no setor energético, o país, que no próximo ano vai sediar a Copa do Mundo, sofre com apagões frequentes. Como prova de que as coisas vão mal, metade dos sul-africanos acredita que sua vida continua igual ou pior que nos tempos do apartheid. Com Zuma, a África do Sul fica mais africana.

QUINZE ANOS DEPOIS DO
FIM DO APARTHEID...

...a economia sul-africana representa um terço do PIB da África abaixo do Saara...

...e a quantidade de pobres declinou de 50% para 45% dos sul-africanos

Mas o número de portadores do vírus da aids saltou de 0,8% para 12% da população...

...e a expectativa de vida caiu de 60 para 49 anos

Revista Veja, ed 2110


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