sexta-feira, 10 de abril de 2009

A Amazônia eo alto Purus


SÃO PAULO - A Amazônia que ocupa as margens do Alto Purus, no Acre, quase não foi tocada pelo homem. De suas matas e espécies nativas, muitas ainda nem sequer foram batizadas. A distância, ali, é medida pelo tempo: um lugar está a tantas horas de barco do outro, ou a tantos dias. O rio desce tão sinuosamente que um ponto que se avista a cem metros adiante só será atingido mais de meia hora depois, assim que se percorrer toda a volta. Pela corrente vêm galhos e até troncos de árvores, não porque derrubadas pelo homem, mas porque tiradas pelas águas caudalosas e barrentas de suas cheias. Paisagens parecem se repetir, como uma curva à direita com imbaúbas e uma pequena praia de barro, dando a impressão de que nada mudou. Índios e caboclos surgem a intervalos, em pequenos povoados onde levam sua vida de subsistência: plantar, caçar, pescar. Ou em canoas com motorzinhos de rabeira e carregadas de macaxeiras e jabutis. Mesmo a flora e a fauna, com exceção das mais triviais garças e andorinhas, se exibem eventualmente, em meio ao silêncio e à aparente monotonia da subida. O que é outono e inverno em outros lugares, ali se chama verão; o inverno, de novembro a abril, é a época do calor e das chuvas, de tal umidade que as noites esfriam e produzem uma cerração que, ao baixar, deixa um orvalho sobre a grama que mais parece resultado de chuva. É como um deserto pluvial.


Assista ao trailer do documentário 'Um Paraíso Perdido'

Foi essa Amazônia que o escritor Euclides da Cunha (1866-1909) viu em 1905: como a natureza flagrada logo depois do Gênesis. Nesse labirinto a vapor, sem pedras nem estradas, sem nomes nem cidades, ele viu o que chamou de “um paraíso perdido”, ecoando a expressão do poeta cristão John Milton (Paradise Lost). Planejou escrever sobre ele um grande livro sob esse título – livro que dizia que seria superior ao clássico Os Sertões (1902), o livro de sua juventude, de estilo “bárbaro”, produto das reportagens feitas para O Estado de S.Paulo durante a Guerra de Canudos. Oito anos depois de sua incursão no semiárido baiano, onde testemunhou as crueldades e os equívocos do Exército republicano contra a seita monarquista de Antonio Conselheiro, Euclides, ansioso pelos vazios do território, decidiu partir para o Acre.

Formado em engenharia pela Escola Militar da Praia Vermelha, incubadora do positivismo nacional, Euclides viajou sob as ordens do Barão do Rio Branco, o chanceler que tratou de demarcar as dimensões continentais do Brasil. O Acre, com seus contenciosos com Bolívia e Peru, era o último bastião desse processo. A função de Euclides, em parceria com uma comissão peruana, era conferir o traçado hidrográfico do Purus, feito 40 anos antes pelo explorador inglês William Chandless, esclarecer dúvidas a respeito de sua bacia e nascente e assinar um acordo com o país vizinho. A tarefa, que comprovou o mapeamento de Chandless, foi realizada com muito custo. Mas para Euclides, que sonhava ir para lá desde 1903, o mais importante era conhecer profundamente o Brasil e desvendar em sua mente aquela “terra sem história”.

Treinada em diversas disciplinas, a começar pela geologia, a mente de Euclides estava repleta de leituras sobre expedições amazônicas, principalmente de autores como Alexander Humboldt, Von Martius, Henry Bates e Alfred Russell Wallace (codescobridor da evolução das espécies), além do próprio Chandless. Tais relatos não eram apenas científicos; todos continham uma sensação de espanto e maravilhamento, quase de perturbação emocional diante da grandeza e das contradições da Amazônia. Com Euclides não foi diferente. No livro póstumo A Margem da História, seus textos sobre a região foram reunidos, com destaque para o relato do que viu no Alto Purus. “(A Amazônia) é, sem dúvida, o maior quadro da Terra; porém chatamente rebatido num plano horizontal que mal alevantam de uma banda, à feição de restos de uma enorme moldura que se quebrou.” E “o homem, ali, é ainda um intruso impertinente”. Entre admirado e pessimista, Euclides voltou diferente de lá.

Se a Canudos chegou disposto a mostrar o atraso moral de um bando de fanáticos e de lá saiu decidido a vingar os fortes sertanejos pela maneira ignorante como foram tratados, ao Alto Purus ele chegou inspirado a encontrar uma riqueza natural a ser colhida pela nação e de lá saiu desconsolado com a paradisíaca monotonia de uma região onde só existia o trabalho semiescravo dos seringueiros. “A adaptação exercita-se pelo nomadismo”, escreveu, como leitor da biologia de seu tempo. “Daí, em grande parte, a paralisia completa das gentes que ali vagam, há três séculos, numa agitação tumultuária e estéril.” Com sua mistura de determinismo (o homem é produto do meio) e idealismo (“um serviço organizado de melhoramentos que nos salve o majestoso rio”), de prosa científica e expressões bíblicas, Euclides igualou sua obra-prima em pelo menos um aspecto: as questões estão todas ali, lançadas por seu estilo único, por mais que discordemos de suas soluções.

Hoje, porém, o Alto Purus mudou. Se continua com o mesmo ar de abandono, desabitado e desconhecido, de acesso e permanência difíceis, por outro lado tem outra paisagem humana, com cidades pequenas e uma ponte a caminho. Foi para mostrar semelhanças e diferenças do que Euclides viu, neste ano em que se comemora seu centenário de morte, que o Grupo Estado refez boa parte de sua viagem.


Estadão online

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