quarta-feira, 8 de abril de 2009

Coréia do Norte e a Nova Ordem nuclear

FOTO: Clausewitz.



Numa reunião de cientistas em Londres, um físico pediu a Deus que estivesse enganado. “Perdemos a batalha contra a proliferação”, disse ele. A ONU considera a maior ameaça à humanidade o aumento do número de países em condições de acesso ou já dispondo de armas de destruição maciça. O Irã eriçou o fantasma da bomba islâmica, tendo Israel como alvo potencial. Já Israel entrou pela porta dos fundos num clube que deveria ser restrito. Todo mundo sabe que ele tem a bomba, sem que haja registro oficial. A Coreia do Norte usa arroubos atômicos ainda não milimetrados como instrumento de chantagem. O último dos regimes stalinistas quer a garantia de que não tentarão derruba-lo, deixem de tratá-lo como paria e lhe deem assento na comunidade internacional, com as necessárias condições de vida. A bomba milionária e os desfiles pomposos incidem num país cuja boa parte da população não tem o que comer.

Certamente não passa pela cabeça de ninguém a ideia de que algum dos possuidores pense em usá-las. Há quem fale na possibilidade de que o governo Obama tenha de lidar, mais adiante, com um “alerta nuclear”. Desde que as sanções não funcionem, como parece que não funcionarão, Israel bombardearia as usinas do Irã, num primeiro lance com armas convencionais, sem que no momento se saiba se os iranianos teriam como retaliar e com quais dispositivos militares. O Paquistão possui a bomba, é islâmico e, ao mesmo tempo, aliado estratégico dos Estados Unidos na luta contra o terrorismo. O que não impediu Bush, com olhos da China, de sancionar a bomba da Índia, que já guerreou com o Paquistão pela posse da Cachemira, disputa ainda não resolivida. Complicada e assustadora colcha com retalhos cujos pontos podem explodir a qualquer momento. É onde mora o perigo maior, nessa “marcha da insensatez”, pedindo à historiadora Bárbara Tuchman que nos empreste a frase.

Não um ato pensado, mas um acidente. Nos tempos da guerra fria os americanos mantinham sempre uma dupla de militares no último estágio dos disparos, a partir de ordem do presidente. Um vigiava o outro. Um descendente de poloneses, por exemplo, poderia tentar ir à forra contra ex-soviéticos que ocuparam o país de seus pais. A posse tresloucada de bombas foi satirizado no filme Doutor Fantástico. O fato é que os Estados Unidos tinham sempre no ar uma parte de sua frota de bombardeiros atômicos de longo alcance com permissões de “seguir adiante” desde que não houvesse ordem em contrário. A ex-União Soviética certamente procedia de modo igual. Houve casos de alarmes falsos e dedos nervoso em gatilhos. Os riscos de acidente se multiplicam na medida em que novos arsenais entram em cena, sobretudo em áreas de instabilidade. O Paquistão nuclear, por exemplo, estaria na idade da implosão? Parece que sim.

Há quem fale numa nova ordem nuclear. Os dois superpoderes militares egressos da segunda guerra, os Estados Unidos representando o capitalismo e a União Soviética o comunismo “real”, lançaram o mandamento inicial. Ter armas de destruição maciça não para usá-las, mas para impedir que outros as usassem. O clube logo se expandiu no âmbito desse mandamento. Bateram às suas portas, e conseguiram entrar Inglaterra, França e depois China. Estados Unidos e União Soviética construíram arsenais em condições de destruir o mundo muitas vezes. Era o overkill, uma capacidade destrutiva muito além do necessário para subjugar o adversário. Fez-se o “equilíbrio pelo terror”. Mas diante de um potencial anárquico, tornou-se necessário adotar barreiras. A ordem nuclear entrou na etapa da não proliferação. Foi negociado o tratado de 1968, com dois objetivos.

Os países não nucleares só poderiam desenvolver tecnologias com finalidades pacíficas. As potências nucleares teriam de reduzir gradativamente seus arsenais. A fiscalização ficou a cargo da Agência Internacional de Energia Atômica, do sistema da ONU. Nada do que foi acertado foi cumprido, e não por culpa somente de novos atores, como Índia e Paquistão. Um ex-secretário de Defesa americano, Robert McNamara, escreveu há pouco que o componente central do aparato militar dos Estados Unidos continuam sendo as armas nucleares. A Rússia fala abertamente que vai “modernizar” seu arsenal, certamente com o incremento de muitos megatons. E uma outra ordem nuclear pede passagem. É chamada ironicamente de bombas “boas” e bombas “ruins”.

As que atendem a interesses estratégicos do Ocidente, como as da Índia e Paquistão, conseguem discreta admissão. A do Irã, se é que ele a terá algum dia, estaria condenada a um rótulo de “ruim”. Ela alteraria a fundo a situação estratégia no Oriente Médio e no universo islâmico. Moderados sunitas, até agora dominantes, temem uma onda xiita a partir do Irã e do Iraque. O rei da Jordânia já se mostrou alarmado.



Blog da União Nacional Republicana

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