sábado, 18 de abril de 2009

A Cúpula das Américas: Um início vermelho...



Obama diz que EUA querem ''um novo começo'' com Havana

Na Cúpula das Américas, presidente americano faz mea-culpa e fala em superar décadas de desconfiança

Patrícia Campos Mello


O presidente Barack Obama afirmou ontem que os Estados Unidos estão buscando "um novo começo" em relação a Cuba. Obama fez a declaração logo após desembarcar em Trinidad e Tobago, onde participa da 5ª Cúpula das Américas. Obama afirmou que os EUA estão prontos para engajar-se com o governo cubano, mas advertiu que não vai "falar só por falar".

"Precisamos superar décadas de desconfiança", disse. "Gostaríamos de falar com os líderes cubanos sobre direitos humanos, reforma democrática e questões econômicas."

Havana e Washington trocaram vários gestos de aproximação no primeiro dia da Cúpula das Américas. A Casa Branca admitiu estar "impressionada" com a declaração do presidente cubano, Raúl Castro, na quinta-feira(de que está disposto a discutir sobre "tudo" com os EUA), mas disse esperar ações concretas - libertação de prisioneiros políticos e redução das taxas sobre remessas de cubano-americanos.

Raúl afirmou que está pronto para conversar com os EUA até mesmo sobre direitos humanos, liberdade de imprensa e prisioneiros políticos. Raúl até reconheceu que a abordagem de Cuba em relação aos EUA pode ser falha. "Podemos estar errados, admito. Somos seres humanos", disse. "Estamos dispostos a sentar e conversar, como deve ser feito."

RECEPTIVIDADE

A secretária americana de Estado, Hillary Clinton, também foi bastante receptiva. "Os comentários são bem-vindos, a abertura que eles representam, e nós estamos examinando com cuidado como responder", disse Hillary na República Dominicana.

Mas o presidente venezuelano, Hugo Chávez, continuou ameaçando sabotar a cúpula por causa da exclusão de Cuba. Até hoje, todas as Cúpulas das Américas tiveram declarações com apoio unânime - algumas vezes com reservas, como fez a Venezuela em Mar del Plata, em 2005. Mas, se Chávez e seus aliados cumprirem a ameaça de não assinar a declaração, seria a primeira vez na história.

A organização da cúpula até fechou para a imprensa as plenárias e a recepção de hoje, com medo de discussões em horário nobre. "Passamos oito meses negociando a declaração e a Venezuela não se opôs, resolveu encrencar agora", disse uma fonte do Itamaraty.

Ontem, em meio a sorrisos, Chávez e Obama trocaram um aperto de mãos. "Há oito anos, essa mesma mão apertou a de (George W.) Bush. Eu quero ser seu amigo", disse Chávez ao seu colega americano. Muitos analistas acreditam que Chávez já conseguiu o efeito desejado de roubar o espetáculo e vai acabar concordando em assinar o documento, desde que sejam feitas mudanças mínimas na declaração.

MEA-CULPA
Em seu discurso na cerimônia de abertura, Obama falou em "lançar um novo capítulo" no relacionamento com a América Latina e fez vários mea-culpas. "Os EUA mudaram, não foi fácil, mas nós mudamos", ele disse, diante de aplausos. "Mas não apenas os EUA precisam mudar, todos nós temos a responsabilidade de olhar para a história." Se a política dos EUA será de não interferência na região, como exigem muitos países, isso significará "que não podemos culpar os EUA por todos os problemas do hemisfério". "Os EUA vão admitir os erros que cometeram, mas os americanos precisam ganhar reconhecimento."

Obama abordou todas as críticas mais comuns da esquerda latino-americana em relação ao "império" e prometeu reconhecer os países "que pensam diferente". "Todos nós fomos colonizados por impérios e conseguimos a libertação." E até fez piadas. "Estou grato porque o presidente (Daniel) Ortega não me culpou por coisas que aconteceram quando eu tinha 3 meses de idade", disse Obama, após o presidente da Nicarágua ter feito um discurso no qual criticou os EUA por patrocinarem os contras na época do sandinismo. Hoje, Obama se encontrará com líderes da União das Nações Sul-Americana (Unasul).

A Casa Branca achou que o levantamento de restrições a Cuba acalmaria os ânimos, mas muitos líderes continuam dizendo que Obama precisa avançar mais. Segundo um funcionário do Departamento de Estado, não haverá mais nenhum anúncio concreto sobre Cuba durante a cúpula. "O presidente deixou bem claro que agora é necessária uma resposta de Cuba, seja com a libertação de presos políticos ou com a simplificação, do lado cubano, da recepção de remessas'', disse o funcionário ao Estado.

Estadão


Defesa de Cuba ofusca agendas bilaterais

Crise econômica e biocombustíveis são deixados para segundo plano

Ruth Costas


As sanções americanas a Cuba tornaram-se, como se esperava, um dos debates centrais da Cúpula das Américas. Especialistas, porém, alertam para o risco de a questão cubana ofuscar uma série de outros pontos da agenda regional que poderiam avançar durante o encontro.
"Parece-me correto que os países latino-americanos pressionem os EUA pelo fim do embargo", diz o economista cubano Carmelo Mesa-Lago, professor da Universidade de Pittsburgh. "Mas a verdade é que esse é apenas um tema da agenda bilateral entre EUA e Cuba. Há outras questões de interesse geral que poderiam avançar nessa cúpula se a questão cubana não monopolizasse os debates."

O diretor da revista Foreign Policy, Moisés Naim, concorda. "Cuba é importante simbolicamente, mas estrategicamente é irrelevante. Mudanças na política de envio de recursos e visitas à ilha, por exemplo, são irrelevantes para 99,9% dos latino-americanos", disse em entrevista recente ao Estado, referindo-se ao anúncio feito por Obama no dia 12.

Entre os temas em que se pode avançar está a cooperação para o desenvolvimento de energias alternativas. O presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, quer convencer o americano Barack Obama a acabar com as barreiras comerciais ao etanol brasileiro.

"Seria de interesse do Brasil selar o compromisso da região com energias alternativas, ampliar as parcerias em pesquisas e abrir fontes de financiamento", diz o cientista político David Fleischer, da Universidade de Brasília.

Outra questão importante é o combate aos efeitos da crise econômica global na América Latina. Com a desaceleração econômica, alguns países da região precisarão de financiamento externo para fechar suas contas. Fleischer lembra que o México, recentemente, aceitou uma linha de crédito disponibilizada pelo Fed (banco central americano).

A discussão do protecionismo americano sobre os produtos agrícolas também interessaria a boa parte dos países da região. Para Obama, porém, trata-se de um tema espinhoso, já que o Partido Democrata tradicionalmente está comprometido com interesses de produtores e sindicatos nos EUA.

Por outro lado, Mesa-Lago lembra de uma área na qual a agenda latino-americana e a de Obama parece convergir em muitos aspectos: o combate ao narcotráfico. A secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton, admitiu recentemente em visita ao México a parcela de culpa dos EUA no problema.

Por um lado, os americanos são os maiores consumidores da cocaína produzida no Peru, na Bolívia e na Colômbia. Por outro, fabricam boa parte das armas usadas pelos cartéis mexicanos.

"Obama pode muito bem investir em programas de prevenção ao consumo e parece disposto a impor algumas restrições à venda de armas nos EUA.", diz Mesa-Lago, explicando que o obstáculo, nesse caso, é o forte lobby pró-armas que existe nos país. "Se os países da região derem mais ênfase a essa questão nesse momento, talvez ajudem o presidente americano a conseguir o apoio necessário para iniciativas nessa área."


Estadão

Alba exige fim de ''agressões'' americanas

Países bolivarianos classificam de ?inaceitável e insuficiente? declaração de Trinidad e Tobago

Patrícia Campos Mello


Em um manifesto contra a Cúpula das Américas, os países da Alternativa Bolivariana para as Américas (Alba) "exigem" que o presidente americano, Barack Obama, acabe com "a nefasta tradição de intervencionismo e agressão". "Exigimos que o novo governo dos EUA, cuja chegada criou muitas expectativas, acabe com a grande e nefasta tradição de intervencionismo e agressão que a tem caracterizado ao longo da historia e recrudesceu durante o governo (George W.) Bush. Exigimos que o governo elimine as operações secretas e intervenções, diplomacias paralelas e guerras de mídia para desestabilizar governos."

No documento, os membros da Alba - Bolívia, Cuba, Dominica, Honduras, Nicarágua e Venezuela - afirmam que a declaração da cúpula é "inaceitável e insuficiente", pois não dá respostas para a crise econômica e exclui Cuba. Os países da Alba também batem de frente nos interesses do Brasil de expandir os biocombustíveis no hemisfério. "Generalizar o uso de biocombustíveis só pode ter efeitos negativos sobre os preços dos alimentos e recursos naturais como solo, água e florestas."

A declaração diz também que as medidas divulgadas pelo G-20 na reunião de Londres, no início do mês, são equivocadas. "Estão muito equivocados os que pensam que gastos fiscais e algumas medidas regulatórias resolverão a crise", diz o texto. "Estamos vivendo uma crise econômica de caráter sistêmico, e não uma crise cíclica."

Os líderes ainda criticam o G-20 por ter aumentado os recursos do Fundo Monetário Internacional (FMI). "É necessária uma transformação completa do FMI, Banco Mundial e da OMC (Organização Mundial do Comércio), que com seus princípios neoliberais têm contribuído para a crise global."

CRESCIMENTO

A cúpula da Alba em Cumaná, na Venezuela, também serviu para oficializar a adesão de mais um membro ao grupo, São Vicente e Granadinas. O encontro contou com a participação do presidente do Paraguai, Fernando Lugo, que compareceu como convidado e propôs tratamento comercial preferencial a países sem aceso ao mar.

Estadão

Em cúpula, Chávez diz querer ser 'amigo' de Obama



Presidentes dos Estados Unidos e da Venezuela se cumprimentaram durante a Cúpula das Américas.


- Os presidentes dos Estados Unidos, Barack Obama, e da Venezuela, Hugo Chávez, trocaram um breve cumprimento nesta sexta-feira, pouco antes da abertura da sessão inaugural da 5 Cúpula das Américas, em Trinidad e Tobago.

Em um ato que o governo venezuelano está classificando como "uma saudação histórica", os dois líderes se cumprimentaram e Chávez afirmou querer se tornar "amigo" de Obama.

"Com esta mesma mão, há oito anos, eu cumprimentei (o ex-presidente norte-americano George W.) Bush. Quero ser seu amigo", disse Chávez a Obama, segundo a página de internet do Ministério das Comunicações da Venezuela.

Ainda segundo o governo venezuelano, Obama teria agradecido a saudação.

As relações entre a Venezuela e os Estados Unidos foram bastante tensas durante os oito anos do governo de George W. Bush.

Chávez costumava fazer duras críticas às políticas do ex-presidente dos Estados Unidos e, durante a 61 Assembleia Geral das Nações Unidas (ONU), em 2006, chegou a chamá-lo de "diabo".

Expectativa

Há uma grande expectativa a respeito da atuação de Obama durante a Cúpula das Américas, já que este é seu primeiro encontro oficial com a maior parte dos líderes da região.

Analistas e políticos esperam que Obama sinalize, durante a cúpula, mudanças em relação à diplomacia norte-americana para a América Latina.

Estas expectativas aumentaram ainda mais com fato de a Casa Branca ter anunciado, apenas alguns dias antes do encontro, o relaxamento de algumas restrições a viagens e envio de remessas a Cuba que haviam sido implementadas durante do governo Bush.

Críticas


Mesmo assim, antes mesmo do início da reunião em Trinidad e Tobago, Chávez anunciou que "vetaria" a declaração final da Cúpula, que termina no próximo domingo.

Entre as principais críticas de Chávez está o fato de Cuba não estar representada na Cúpula das Américas. A ilha caribenha foi suspensa da Organização dos Estados Americanos (OEA) em 1962.

Também nesta sexta-feira, os líderes da Alba (Alternativa Bolivariana para as Américas), um bloco formado por países latino-americanos com governos de tendência esquerdista - entre os quais estão Venezuela e Cuba - divulgaram um documento onde classificam a declaração final da Cúpula das Américas como "inaceitável".

Segundo os países da Alba, o rascunho da declaração final - que já foi divulgado - "exclui injustificadamente" o debate sobre o fim do bloqueio americano a Cuba e "não dá respostas" à crise econômica internacional.

Estadão




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