segunda-feira, 13 de abril de 2009

Entrevista com Mahmoud Ahmadinejad, parte 2


O presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad falou à Spiegel sobre o que ele espera do presidente dos EUA Barack Obama, por que a nova estratégia dos EUA para o Afeganistão está errada e por que o Irã deve ter um lugar no Conselho de Segurança da ONU. A entrevista será publicada pelo UOL Notícias em três partes, em três dias consecutivos. Confira abaixo a continuação da entrevista.

Spiegel: É verdade que a reputação dos EUA no mundo sofreu com o presidente George W. Bush. Mas com todo o respeito, presidente, a reputação do Irã também sofreu tremendamente durante seu tempo de governo.

Ahmadinejad: Onde? Com quem? Com os que estão no poder ou com o povo? Com que povo e com que governos? Durante os mais de três anos que estou no governo, visitei mais de 60 países, onde fui recebido com grande afeição tanto pelo povo nas ruas quanto pelos que estão no governo. Temos o apoio de 118 países do Movimento Não-Alinhado. Concordo que nossa reputação junto ao governo americano e a alguns governos europeus não é positiva. Mas isso é problema deles. Todos os povos estão fartos do governo americano.

Spiegel: Mas o senhor não está nem mesmo dando uma chance ao novo governo. Sua atitude é caracterizada pela falta de confiança.

Ahmadinejad:
Nós falamos de Barack Obama com muito respeito. Mas somos realistas. Queremos ver mudanças concretas. Nesse contexto, também estamos interessados em ajudar a corrigir uma política equivocada no Afeganistão.

Spiegel: O que o senhor propõe fazer?

Ahmadinejad:
Veja, mais de US$ 250 bilhões foram gastos na campanha militar no Afeganistão até hoje. Com uma população de 30 milhões, isso chega a mais de US$ 8 mil por pessoa, ou cerca de US$ 42 mil para uma família média de cinco pessoas. Fábricas e estradas poderiam ter sido construídas, universidades criadas e campos cultivados para o povo afegão. Se isso tivesse acontecido, será que haveria algum espaço para os terroristas? É preciso agir na raiz do problema, e não nos galhos.
A solução para o Afeganistão não é militar, mas humanitária. É do interesse do Ocidente nos ouvir, e se não o fizerem, nós lavamos nossas mãos em relação ao assunto. Somos apenas observadores. Nós lamentamos profundamente a perda de vidas humanas, não importa quais vidas foram tiradas. Isso vale tanto para os civis afegãos quanto para as forças militares que intervieram no país.

Spiegel: Isso soa como se o senhor não tivesse nenhum interesse em ajudar os americanos e a Otan a lutar contra o Taleban. Obama coloca mais ênfase na reconstrução civil, mas ele também acredita que é preciso usar a força militar para lidar com os radicais que querem atrapalhar essa reconstrução.

Ahmadinejad:
Nesse momento, digo para você que a nova política de Obama está errada. Os americanos não têm familiaridade com a região, e a percepção dos comandantes da Otan está equivocada. Digo isso na condição de um professor treinado: isso está errado. Pelo menos no que diz respeito aos US$ 250 bilhões - se o dinheiro tivesse sido gasto nos EUA, talvez tivesse resolvido o problema do desemprego, pelo menos em parte. E talvez hoje não houvesse crise econômica.

Spiegel: O senhor está seriamente insistindo que os EUA se retirem da região?

Ahmadinejad:
É preciso ter um plano, é claro. Uma retirada só pode ser feita com várias medidas. É preciso que seja acompanhada por outras ações simultâneas, como um fortalecimento do governo regional. Você sabe que a produção de narcóticos cresceu cinco vezes durante o comando da Otan no Afeganistão? Narcóticos! Isso mata gente. Perdemos mais de 3.300 pessoas na guerra contra o tráfico de drogas. Nossa força policial se sacrificou ao defender nossa fronteira de mil quilômetros com o Afeganistão.

Spiegel: O Irã sempre se opôs ao Taleban. Mas o retorno deles ao poder não pode ser evitado sem a força militar.

Ahmadinejad:
O poder deve ser dado ao povo. Isso requer ajuda econômica, além de um processo político claro. O governo afegão deveria ter recebido mais responsabilidade nos últimos sete anos. O presidente Hamid Karzai disse para mim uma vez: eles não permitem que façamos nosso trabalho.

Spiegel: Todos, incluindo os americanos, enfatizam que as pessoas precisam ser respeitadas. Obama e a Otan concordaram com uma lista abrangente de medidas para o Afeganistão e estão contando com o apoio do Irã a essas medidas, em prol de um Afeganistão estável. O senhor tem a intenção de recusar qualquer cooperação?

Ahmadinejad:
Acredito que o caminho diplomático seja a abordagem correta para avaliar uma opção como essa. Vocês são jornalistas, não representantes da Otan, é por isso que não vou explicar minha posição em relação a isso. Se recebermos um pedido por meio dos canais diplomáticos, responderemos.

Spiegel: Mas alguns políticos em Teerã temem o contato com os EUA. De acordo com oficiais norte-americanos, o vice-ministro de exterior do Irã, Mohammed Mehdi Ahundzadeh, cumprimentou o enviado especial dos EUA Richard Holbrooke na conferência sobre o Afeganistão em Haia na semana passada, mas depois o ministro de exterior negou veementemente o encontro. Como podemos confiar em sua disposição para cooperar se um inofensivo aperto de mão representa um problema para vocês?

Ahmadinejad:
Não acho que isso seja de fato relevante. Um aperto de mão, uma gentileza, isso não é um problema a meu ver.

Spiegel: O senhor está minimizando o fato. Mas talvez haja mais coisas por trás de um aperto de mão que causem tumulto. Talvez seja um símbolo de quão profunda é a rixa entre Teerã e Washington - e do fato de que vocês estão de fato indispostos a se acertar com seu favorito arqui-inimigo.

Ahmadinejad:
Naturalmente, não podemos esperar que problemas que surgiram durante mais de meio século sejam resolvidos em apenas alguns dias. Não somos obstinados nem ingênuos. Somos realistas. O importante é a determinação de fazer melhorias. Se a atmosfera muda, é possível encontrar soluções.

Spiegel: O senhor, assim como os americanos, faz uma distinção entre o Taleban incorrigível que deve ser combatido, e o Taleban moderado, com o qual é possível manter um diálogo?

Ahmadinejad:
Eu não me aventuraria a um veredicto conclusivo sobre esse aspecto. Eu não sei o que isso significa. Não se esqueça, o povo afegão tem laços históricos estreitos com o Irã. Mais de três milhões de cidadãos afegãos vivem no nosso país. E como também somos amigáveis com os alemães, eu repito: uma presença militar mais forte não é a solução.

Spiegel: O senhor está preocupado com os soldados alemães no Afeganistão?

Ahmadinejad:
Nós também gostamos dos alemães. Estamos preocupados.

Spiegel: E ainda assim o senhor ignora as consequências.

Ahmadinejad:
Não. Se algo nos é explicado de uma maneira lógica, nós aceitamos. Nós negociamos com os americanos no Iraque, ainda que isso fosse contra o nosso princípio básico de não falar com os americanos.
Fizemos isso por causa do problema em questão, dentro do contexto da lógica clara.

Spiegel: Se as tropas americanas se retirarem do Iraque, a situação de segurança provavelmente irá se deteriorar dramaticamente. Vocês irão preencher o vácuo de poder no vizinho Iraque, onde seus colegas xiitas somam dois terços da população? Vocês defendem o estabelecimento de uma teocracia, uma República Islâmica do Iraque?

Ahmadinejad:
Acreditamos que o povo iraquiano é capaz de cuidar de sua própria segurança. O povo iraquiano tem uma civilização com mais de mil anos de história. Nós apoiaremos o que quer que os iraquianos decidam fazer e qualquer forma de governo que escolherem. Um Iraque soberano, unido e forte é benéfico para todos. Nós receberíamos bem isso.

Spiegel: Os serviços de inteligência americanos concluíram que Teerã desempenha um papel totalmente diferente no Iraque. A CIA alega que o Irã está incitando a resistência às tropas através das milícias xiitas.

Ahmadinejad:
Não prestamos atenção aos relatórios dos serviços de inteligência americanos. Os americanos ocuparam o Iraque e são responsáveis por sua segurança. No passado, eles quiseram desviar a atenção de seus próprios erros culpando-nos pela agitação. Eles precisam corrigir os próprios erros. As coisas melhoraram para os americanos desde que eles reconheceram isso e começaram a respeitar o povo iraquiano. Nossas relações com Bagdá são muito próximas. Nós apoiamos totalmente o governo iraquiano. Como sempre, nossas políticas são totalmente transparentes.

Spiegel: Presidente, isso não é verdade. O senhor se opõe às nações mais importantes do mundo em um dos principais conflitos internacionais. O Irã é altamente suspeito de construir uma bomba nuclear sob o pretexto de realizar pesquisas civis. Apenas recentemente, o presidente Obama alertou quanto a esse perigo real durante visita à Europa. Existem quatro resoluções da ONU pedindo que o Irã pare com suas atividades de enriquecimento de urânio. Porque o senhor não atende a esses pedidos de uma vez por todas?

Tradução: Eloise De Vylder
Der Spiegel

UOL

Um comentário:

Anônimo disse...

Que porra de blog ridículo é este?