segunda-feira, 13 de abril de 2009

Entrevista com Mahmoud Ahmadinejad, parte 1

Achei surpreendente que Obama tenha dado um valor tão alto para a civilização iraniana, nossa história e cultura. Também é positivo o fato de ele ter enfatizado o respeito mútuo e as interações honestas como base para a cooperação.
Em uma parte de seu discurso, ele diz que uma nação no mundo não depende apenas de armas e força militar, foi exatamente isso o que dissemos para os governos americanos anteriores. O grande erro de George W. Bush foi que ele queria resolver todos os problemas militarmente.
Já se foram os dias em que um país podia enviar ordens para outros povos. Hoje, a humanidade precisa de cultura, ideias e lógica



Entrevista conduzida por Dieter Bednarz, Erich Follath e Georg Mascolo.

O presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad falou à Spiegel sobre o que ele espera do presidente dos EUA Barack Obama, por que a nova estratégia dos EUA para o Afeganistão está errada e por que o Irã deve ter um lugar no Conselho de Segurança da ONU. A entrevista será publicada pelo UOL Notícias em três partes, em três dias consecutivos. Confira abaixo a primeira parte da conversa.

Spiegel: Presidente, até agora o senhor viajou para os Estados Unidos quatro vezes para comparecer à Assembléia Geral das Nações Unidas.Qual é a sua impressão dos EUA e dos norte-americanos?

Ahmadinejad:
Em nome de Deus, o Misericordioso, o Compassivo, tenho prazer de recebê-los em Teerã mais uma vez, depois de nossa extensa conversa há quase três anos [Veja a entrevista realizada em 2006 (em inglês)]. Agora sobre os EUA: É claro, é impossível conhecer um país como os Estados Unidos em algumas visitas curtas, mas meu discurso e as discussões na Universidade de Columbia foram muito especiais para mim. Tenho muita consciência de que deve-se fazer uma distinção entre o governo americano e o povo americano. Nós não responsabilizamos os americanos pelas decisões equivocadas do governo Bush. Eles querem viver em paz, como todos nós.

Spiegel: O novo presidente dos EUA, Barack Obama, enviou uma mensagem em vídeo para a nação iraniana há três semanas, durante o festival de Ano Novo iraniano. O senhor assistiu ao discurso?

Ahmadinejad:
Sim. Coisas importantes estão acontecendo nos Estados Unidos. Acredito que os americanos estejam no processo de iniciar desenvolvimentos importantes.

Spiegel: Como o senhor se sentiu em relação ao discurso?

Ahmadinejad:
Ambivalente. Algumas passagens eram novas, enquanto outras repetiam posições já bem conhecidas. Achei surpreendente que Obama tenha dado um valor tão alto para a civilização iraniana, nossa história e cultura. Também é positivo o fato de ele ter enfatizado o respeito mútuo e as interações honestas como base para a cooperação.Em uma parte de seu discurso, ele diz que uma nação no mundo não depende apenas de armas e força militar, foi exatamente isso o que dissemos para os governos americanos anteriores. O grande erro de George W. Bush foi que ele queria resolver todos os problemas militarmente. Já se foram os dias em que um país podia enviar ordens para outros povos. Hoje, a humanidade precisa de cultura, ideias e lógica.

Spiegel: O que isso significa?

Ahmadinejad:
Sentimos que Obama precisa transformar suas palavras em ações.

Spiegel: O novo presidente dos EUA, apesar de ter chamado de "repugnantes" as críticas anti-israelenses agressivas feitas pelo senhor, ainda assim falou de um novo começo nas relações com o Irã e estendeu suas mãos.

Ahmadinejad:
Eu não entendi os comentários de Obama exatamente assim. Presto atenção ao que ele diz hoje. Mas é por isso mesmo que eu vejo que falta algo de decisivo. O que o leva a falar sobre um novo começo? Aconteceu alguma mudança na política americana? Nós recebemos bem as mudanças, mas elas ainda têm de ocorrer.

Spiegel: O senhor está constantemente fazendo demandas. Mas a verdade é: suas políticas, as relações desastrosas do Irã com os Estados Unidos, são um peso para a comunidade global e uma ameaça para a paz mundial. Onde está a sua contribuição para aliviar as tensões?

Ahmadinejad:
Eu já expliquei isso para você. Apoiamos as conversações com base na justiça e no respeito. Essa sempre foi nossa posição. Estamos esperando que Obama anuncie seus planos, para que possamos analisá-los.

Spiegel: E é só?

Ahmadinejad:
Temos que esperar e ver o que Obama quer fazer.

Spiegel:> O mundo vê de forma diferente, e nós também. O Irã precisa agir. O Irã precisa mostrar que tem boa vontade.

Ahmadinejad:
Onde fica esse mundo do qual você está falando? O que nós temos que fazer? Você está ciente de que não fomos nós que cortamos relações com os Estados Unidos. Os Estados Unidos cortaram relações conosco. O que você espera do Irã agora?

Spiegel: Atitudes concretas, ou pelo menos um gesto de sua parte.

Ahmadinejad:
Eu já respondi a essa pergunta. Washington cortou relações.

Spiegel: O senhor está dizendo que receberia bem uma retomada das relações com os Estados Unidos?

Ahmadinejad:
O que você acha? O que deve acontecer? Qual abordagem é a correta?

Spiegel: O mundo espera respostas do senhor, não de nós.

Ahmadinejad:
Mas eu enviei uma mensagem para o novo presidente dos EUA. Foi um grande passo, um passo imenso. Eu o parabenizei por sua vitória nas eleições, e disse algumas coisas em minha carta. Isso foi feito com cuidado. Nós estávamos e continuamos interessados em mudanças significativas. Se quisermos resolver o problema entre nossos países, é importante reconhecer que o Irã não exerceu um papel no desenvolvimento desse problema. O comportamento dos governos americanos foi a causa. Se o comportamento dos Estados Unidos mudar, podemos esperar um progresso importante...

Spiegel: ... isso poderia levar à retomada de relações diplomáticas, talvez até à reabertura da embaixada, que foi ocupada em 1979, ano da revolução?

Ahmadinejad:
Ainda não recebemos um pedido oficial nesse sentido. Se isso acontecer, tomaremos uma posição sobre o assunto. Esta não é uma questão de forma. Mudanças fundamentais precisam acontecer, para beneficiar todos os envolvidos. O governo americano precisa finalmente aprender lições com o passado.

Spiegel: E o senhor não?

Ahmadinejad:
Todos precisam aprender com o passado.

Spiegel: Então, por favor, nos diga quais lições o senhor está aprendendo.

Ahmadinejad:
Estivemos sob pressão durante os últimos 30 anos, injustamente e sem que tivéssemos cometido erros. Nós não fizemos nada...

Spiegel: ...de acordo com o senhor. Os americanos veem as coisas de um jeito bem diferente. A crise dos reféns de 444 dias, durante a qual 50 cidadãos americanos foram detidos no final de 1979 até o começo de 1981 na embaixada americana em Teerã, ainda hoje é um trauma coletivo americano.

Ahmadinejad:
Mas pense nas coisas que foram feitas aos iranianos! Nós fomos atacados pelo Iraque. Foram oito anos de guerra. Os Estados Unidos e alguns países europeus apoiavam essa agressão. Nós fomos atacados até mesmo com armas químicas e o seu país, entre outros, ajudou e encorajou esses ataques. Nós não cometemos uma injustiça com ninguém. Não queríamos atacar ninguém, nem ocupamos outros países. Não temos presença militar na Europa ou nos EUA. Mas as tropas da Europa e dos EUA estão estacionadas ao longo de nossas fronteiras.

Spiegel: Os governos ocidentais, incluindo o da Alemanha, estão convencidos de que o Irã apoia organizações terroristas e de que o Irã teve dissidentes mortos no exterior. Talvez os erros não tenham sido cometidos apenas por um lado...

Ahmadinejad:
Você quer dizer que as tropas foram colocadas ao longo de nossas fronteiras porque nós supostamente apoiamos organizações terroristas?

Spiegel: Nós não dissemos nem concluímos isso. Mas a acusação de apoio ao terrorismo foi feita. Onde está sua contribuição construtiva?

Ahmadinejad:
Antes de mais nada: nós não praticamos o terror, mas somos vítimas dele. Depois da revolução, nosso presidente e primeiro-ministro foram mortos num ataque a bomba no prédio adjacente ao meu gabinete. Nossa fé proíbe que nos engajemos no terrorismo. E no que diz respeito às contribuições construtivas que nos cobram, nós contribuímos com a estabilização tanto do Afeganistão quanto do Iraque nos últimos anos. Enquanto fazíamos essas contribuições, o governo Bush nos acusou de fazer o oposto. Você acredita que os problemas podem ser resolvidos com força militar e invasão? A estratégia empregada pelos EUA e pela Otan não estava errada desde o princípio? Nós sempre dissemos que essa não é a maneira de lutar contra os terroristas. Hoje eles estão mais fortes do que nunca.

Spiegel: Mais uma vez, não vemos evidência de nenhuma autocrítica.

Ahmadinejad:
Então porque você não me diz quais são os erros que nós supostamente cometemos. Não temos interesse num acerto de contas histórico.

Spiegel: O senhor não está insistindo que os americanos peçam desculpas pelo golpe da CIA em 1953 contra o primeiro-ministro iraniano eleito Mohammed Mossadegh?

Ahmadinejad:
Nós não queremos nos vingar. Só queremos que os americanos corrijam seu curso. Você vê de fato algum sinal de que isso esteja acontecendo?

Spiegel: Sim, vemos. George W. Bush declarou que o Irã era um integrante do Eixo do Mal e ameaçou Teerã, pelo menos indiretamente, com uma mudança de regime. Não há mais nenhuma menção a isso no governo Obama.

Ahmadinejad:
Há mudanças na escolha da linguagem. Mas não é suficiente. Durante os últimos 30 anos, a Alemanha e outros países europeus estiveram sob pressão dos americanos para não melhorarem suas relações com Teerã. É o que todos os estadistas europeus nos dizem.

Spiegel: Foi isso o que o ex-chanceler alemão Gerhard Schröder disse quando o senhor se encontrou com ele em Teerã em fevereiro?

Ahmadinejad:
Sim, ele disse isso, entre outras coisas. Agora esperamos ver ações concretas. Isso é bom para todos, mas é especialmente benéfico para os Estados Unidos, porque a posição americana no mundo não é exatamente boa. Ninguém confia nas palavras dos americanos.

Tradução: Eloise De Vylder

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