quarta-feira, 22 de abril de 2009

Mistificação Econômica



A TAXA DE "inflação mínima" de um país é uma espécie de radiador que dissipa o calor (os aumentos de custo) produzido pelos atritos operacionais do sistema econômico: funcionamento inadequado das instituições (segurança, Justiça), falta de infraestrutura (estradas, comunicações), nível de competitividade (controle do poder econômico e regulação da concorrência) etc.
São dificuldades "estruturais", que precisam ser removidas para que a "taxa mínima de inflação" se aproxime das vigentes nos seus competidores externos. Esse é o objetivo das famosas reformas "microeconômicas". É, também, condição necessária para o bom funcionamento da política "macroeconômica" canônica utilizada na maioria dos países.
Nas condições atuais de temperatura e pressão vigentes no Brasil, essa "taxa mínima de inflação" parece situar-se entre 4% e 5% ao ano, compatível com a atual meta de inflação, de 4,5%. Cada vez que, sem o apoio da política fiscal e sem a remoção de alguns dos atritos (com reformas microeconômicas), o Banco Central tentar reduzi-la, aumentando a taxa de juros, o custo em termos de PIB será importante, e o sucesso, efêmero e pequeno.
Envolvido no cipoal incestuoso do "produto potencial" estimado pelo passado (que ele mesmo construiu com sua política monetária), só obtém sucesso passageiro com a oportunística supervalorização do real, explorando o diferencial de juros interno e externo.
A economia real no Brasil dá tênues sinais de que, lentamente, começa a recuperar-se, e os catastrofistas já ameaçam o Brasil com a possibilidade da volta da inflação!
Mas de onde ela virá? Do excesso de demanda global sobre o mítico "produto potencial", que benevolamente concedem agora estar em torno de 5%? Hoje estamos rodando próximo de zero.
Talvez em três trimestres (com alguma sorte e muita inteligência) estejamos em 3%. Logo, um "excesso de demanda" é pouco provável. Virá, então, de intransponíveis tensões produzidas pelo aumento do custo marginal? O provável é o oposto. O produto industrial estará se recuperando, e os atuais ajustes salariais mal atingem a reposição da inflação passada.
É hora de superar toda essa mistificação protegida por uma duvidosa "ciência monetária" e aproveitar a oportunidade para aproximar definitivamente a taxa de juro real do Brasil à do mundo, o que depende não só de ações do Banco Central mas também de medidas do governo (Executivo e Legislativo).

Delfim Netto
Folha de São Paulo 22/04/09

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