sábado, 4 de abril de 2009

Nércio no PAC.


Rio, 30 de março de 2009.

Iletradissimo Sr. Dr. Presidente Lula.

To lhe iscrevendo para dizer que a tar da crise mim arrebentou. Ando fartando inté rapadura com farinha na mesa. Pra ser vero cum o amigo inté a mesa sumiu.

A tar da ajuda que vós Misse mim mandava todo mês num tem vindo mais. Todo dia que vou receber o moço diz que eu já recebi. Num intendo muitcho bem a expricação. Devo di ter um irmão gêmeo igualzinho a eu que vai lá i pega tudo antes de eu chegar.

Além di tar passando um tico de fome, eu andava muitcho avexado. Meu barraquinho na beira du córrego foi levado pelos homi num tar di choque di ordi. Tomei também umas pancada. Dessa vez num bati nus homi pruque eles era muitcho i tava tudo cum chapéu quinem coco e escudo e ropa dura e um porrete di respeito.

Resurtado. Fui mora di baixo da ponte. Si Vós Missê quiser mim iscreve, manda a carta para quarta ponte qui tem na Avenida Brasil. É a quarta si vós misse tiver vindo da favela da maré. Si tiver vindo du ostro lado eu num sei.

Num tô agüentando morar di baixo da ponte. É muitcho frio e quando chove moia tudo. Nem dá pra aproveitar o jornar e os papelão pra mi cobrir di novo.

Mas a boa noticia é que os cumpanheiro du partido arrumo uma vaguinha pra eu trabaia num tar di PAC. Dá inté pra comprar um jabá.

É ruim pruque mim perguntaram o qui eu sabia faze. Eu respondi que sabia carregar lata de água e material.

Dai mim botaram para carrregar e descargar cimento. To arrebentado.

É cimento chegando u dia inteiro. Vem aqueles carretão e eu mais os cabra descarrega tudo i leva pru depósito. A noite nós faz hora extra. Pruque mandam nóis levar os saco du depósito pra um outro caminhão na rua de cima.

Dizi qui é pra outra obra. Só num intendo pruque o caminhão num leva direto pra outra obra. Mas o encarregado diz qui é ordi di cima.

Mas tem ostro nengócio ruim. No nosso depósito tem um gato safado qui mija nus saco de cimento tudo. Se eu pegar vo arrancar o coro e fazer churrasquinho e comer quinem preá. O pior é qui deve di ter um safado di um gato na fábrica di cimento também. Pruque os saco que vem na carreta do dia seguinte também vem tudo mijado. Já tô inté cum catinga di mijo di gato nu lombo.

Us cumpanheiro aqui é tudo muitcho legal. Só num intendi muitcho bem onde eles trabaia. Na placa qui tem no pé do morro vem dizendo “Essa obra gera 300 empregos”. Mas só tem 19 cumpanheiros trabaiando comigo. É dez pra carregar o materiar e 10 pra construir os barraco.

Daí quando chega o dia do pagamento tem uma mala cheia com 300 envelope com dinheiro e nome do povo qui trabaia na obra. Eles paga nós e leva a mala. Diz que o resto é pra pagar o povo que trabaia nu escritório da obra. É pena pruqeu si o povo trabaiasse tudo aqui dava pra fazer um forro da peste.

Ostro dia eu escuitei que tem uma tal de mãe do PAC. Dize qui é ela qui manda em tudo e qui vós Missê é patrão dela.

Quando ela vier aqui vou perguntar si não posso ficar cum um barraquinho desses qui nós ta construindo. To necessitado mesmo. Si vós Missê der uma força, mando uma garrafa da branquinha di presente. U moço da caneta que manda nós carregá u cimento é muitcho legal. Madou vir uma dez garrafa da boa e deu pra nós.

Di resto ta tudo muitcho bem. Lembrança a patroa.

Seu criado Nércio.


OFCA

3 comentários:

Pobre Pampa disse...

O Nercio tá parecido com o outro, que não sabia de nada, também. Muito bem bolada a viagem do cimento! Parece a construção de Brasília!

Clausewitz disse...

Olá querido amigo. Tem um prêmio merecido para você lá no Blog do Clausewitz, que é um anti-comunista convict e defensor da democracia e do estado de direito. Grande abraço e bom domingo.

WORF NETO disse...

STENIO, faça uma gentileza para o seu amigo. Não estou no meu PC que encontra-se em manutenção. Agradeça imensamente ao Clausewitz pela indicação ao prêmio 11 de Abril. Um forte abraço! Não estou conseguindo postar no Blog dele. Muito Obrigado!