domingo, 26 de abril de 2009

O BRASIL É O ALVO DA ALBA


Mal regressou da 5ª Cúpula das Américas em Trinidad e Tobago, o presidente Lula gravou uma entrevista para o seu programa Café com o Presidente na qual externou um otimismo sem reservas sobre o evento de que participou com evidente disposição construtiva. Lula voltou do Caribe convencido de que "demarcamos uma nova história" nas relações entre a América Latina e os Estados Unidos. A seu ver, o presidente Obama "tem a compreensão" das medidas certas que deve tomar no tempo certo e os líderes regionais "têm a convicção" de que ele é uma novidade importante para transformar esse relacionamento numa parceria mais efetiva.

O tempo dirá o quanto há de realismo e o quanto de wishful thinking nos prognósticos de Lula sobre a compreensão que atribui a Obama. Já a convicção que ele diz ter visto, indistintamente, entre os seus colegas das redondezas deve ser recebida no mínimo com cautela. É bem verdade que o venezuelano Hugo Chávez enfiou no saco a viola com que pretendia azucrinar os ouvidos do novo presidente americano com a sua melopeia anti-imperialista. Mas o fez à falta de melhor, por mera "necessidade tática": Obama, ao anunciar "um novo começo" com Cuba, e a aparente prontidão do regime de Havana para o diálogo com os Estados Unidos tiraram, por ora, o fôlego do caudilho.

Antes disso, porém, na reunião da Alternativa Bolivariana para as Américas (Alba), Chávez levou a um ponto caricatural o seu antiamericanismo. "Onde haverá mais democracia, nos Estados Unidos ou em Cuba?", perguntou retoricamente em dado momento. "Eu não tenho dúvidas", completou. "Em Cuba há mais democracia."

Além disso, como observa o venezuelano Moisés Naím, editor da revista Foreign Policy, a questão cubana ofuscou em Port of Spain "as profundas divergências que separam os latino-americanos". Ao que se pode acrescentar que o Brasil foi arrastado ao centro delas. A rigor, nem todos os países estendem as efusões de boa vontade que marcaram a Cúpula ao "gigante que não fala a nossa língua", como é possível ouvir, significativamente, nas sedes de seus governos. Isso emergiu com clareza meridiana às vésperas do evento, quando se reuniram na Venezuela os líderes dos seis membros da Alba, o bloco chavista da região, mais o seu convidado paraguaio Fernando Lugo.

Fiéis a seu mentor bolivariano, eles assinaram um documento que começa rebaixando o G-20 de foro representativo da comunidade internacional - como o considera Lula depois de ter trabalhado para que substituísse nesse papel o G-8 - a um "grupo exclusivo". O presidente brasileiro não foi obviamente citado no texto, mas a posição dos bolivarianos representou um nítido voto de desconfiança no seu empenho em ampliar o acesso dos países em desenvolvimento aos debates sobre a crise econômica.

Em seguida, por iniciativa do boliviano Evo Morales, o manifesto da Alba investe contra o programa do etanol, menina dos olhos das políticas de Lula, por seus presumíveis "efeitos negativos sobre os preços dos alimentos e recursos naturais". Morales também queria que a menção ao etanol na declaração final da Cúpula viesse acompanhada de uma nota de rodapé sobre a sua alegada ameaça à segurança alimentar. E, para terminar, o documento da Alba emitiu um claro sinal de que se inclina a apoiar a pretensão paraguaia de renegociar com o Brasil o Tratado de Itaipu - o que o presidente Lugo rapidamente anunciou como manifestação de solidariedade.

Na entrevista de despedida da Cúpula de Trinidad, Lula deu-lhes o troco. "O Brasil é grande", argumentou, depois de se referir a Lugo e Morales pelo nome. "Então as pessoas estão sempre achando que o Brasil é culpado por alguma coisa que acontece com eles." A verdade é que o Brasil já há algum tempo vem tomando o lugar dos Estados Unidos como o inimigo a ser combatido pela "revolução bolivariana". As concessões de Lula, mesmo em detrimento do interesse nacional, como nos casos dos contenciosos comerciais com a Argentina e a Bolívia, não bastaram para aplacar os governantes vizinhos que encontraram um novo "inimigo externo" para respaldar o seu populismo e disfarçar os seus fracassos. A última coisa que lhes ocorrerá é seguir o conselho do presidente brasileiro, separando "o que é ingerência externa e o que é subserviência e erro de nossa própria classe dirigente".

EDITORIAL
O ESTADO DE S. PAULO
26/4/2009

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