domingo, 5 de abril de 2009

O Estadão entrevista Henrique Meirelles


O presidente do Banco Central (BC), Henrique Meirelles, tem um recado para a sociedade que, à primeira vista, pode soar estranho: a redução da taxa de juros pode incomodar. "Não podemos ter queda para empréstimos e, ao mesmo tempo, dizer que não pode haver queda em alguns investimentos", diz. "A queda dos juros no Brasil, em ocorrendo, tem de premiar toda a economia." Em outras palavras, o mundo de rentabilidades altas sem muito esforço ficará na lembrança se os juros continuarem a cair fortemente, como indicam hoje os mercados futuros e as projeções de analistas. Na ata da última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), o BC avisou que a remuneração da caderneta de poupança - TR mais 6% ao ano - é um empecilho à derrubada da taxa básica (Selic). Meirelles conversou com o Estado na sede do BC em São Paulo.

A última ata do Copom apontou que a poupança é um limitador para a queda dos juros. Como mexer em tema tão sagrado para o brasileiro comum?

Em primeiro lugar, temos de separar o que é o pequeno poupador, que não tem conhecimento do mercado financeiro, dos grandes investidores. A segunda questão é que a sociedade brasileira está aguardando por muitos anos uma queda dos juros. Temos de ser consistentes com a queda dos juros. Não podemos ter uma queda para empréstimos e, ao mesmo tempo, dizer que não pode haver queda em alguns investimentos. A queda dos juros no Brasil, em ocorrendo, tem de premiar toda a economia.


É possível preservar o pequeno poupador e mexer com o grande?


Não há, ainda, nenhuma decisão tomada.


Mexer na TR (taxa referencial, usada no cálculo da remuneração da caderneta de poupança) é uma possibilidade?

Pode ser uma solução, dependendo da evolução no longo prazo. A longo prazo, temos um limite que é o rendimento real de 6%. Essa é uma questão que, cedo ou tarde, terá de ser encaminhada.

O brasileiro está preparado para conviver com uma rentabilidade de suas aplicações bem mais baixa do que até agora?


Esse é o desafio. Espero que daqui a pouco o BC não comece a ser criticado por manter juro muito baixo. Uma das coisas que muitas vezes algumas pessoas não gostam que se diga, mas é realidade: é a primeira vez em décadas que o BC pode, numa crise, baixar os juros para estimular a economia. Não temos mais de estar preocupados com vulnerabilidades. É um ganho do processo de estabilização da economia.


Que fatores permitiram isso?


Em primeiro lugar, uma inflação consistente com a trajetória de metas nos últimos anos. Em segundo, a diminuição da relação dívida pública/PIB. Em terceiro, acumulação de reservas, que eliminou a vulnerabilidade cambial. Em consequência disso, o País se tornou credor líquido, o que permitiu ao Tesouro ter ganhos fiscais com a desvalorização do real.


Desses quatro fatores, três estão diretamente ligados à atuação do BC. Por que, então, o BC é tão criticado no Brasil?


Não sei. Talvez seja um fenômeno de comunicação. Não sinto essa crítica conversando com as pessoas nos restaurantes, nas ruas, nos aeroportos. Sinto hoje um reconhecimento muito grande da população. O que acho que existe são setores da liderança empresarial e políticos que elegem o combate aos juros como algo que seja um tema desejável e constante. A verdade é que assumimos com uma Selic a 25% e hoje está em 11,25%.


Preocupa a volta da inflação quando o País voltar a crescer?


A inflação, com política monetária mal conduzida, pode voltar em qualquer país a qualquer momento.


Por que demorou tanto para o juro cair no Brasil?


Se olharmos o que caiu nos últimos anos, não foi uma queda tão lenta. Foi uma velocidade razoável. Saímos de 14% (em termos reais) em 2003 para 5% hoje. É uma queda rápida. O fato de ter demorado tanto tempo até iniciar esse processo de queda está relacionado aos antigos fatores de vulnerabilidade da economia.
O BC tem manifestado preocupação com o spread bancário. Os bancos dizem que não dá para baixar o spread (diferença entre o que os bancos pagam para captar recursos e o juro cobrado do cliente) sem reduzir impostos. Têm razão ou é choradeira? O aumento de spreads foi mundial, principalmente a partir do episódio Lehman Brothers. Há uma série de componentes, como o aumento do risco. Acredito que, com as medidas já tomadas, devemos voltar aos níveis em que estávamos antes de iniciar esse processo. A partir daí, podemos discutir questões estruturais.

O spread brasileiro é o mais alto do mundo porque o juro brasileiro é o mais alto do mundo?


Não. Tivemos no período recente quedas da Selic com aumento forte dos spreads. Os fatores são outros e muitos serão encaminhados.


O cadastro positivo (banco de dados de bons pagadores que poderia ser usado por todos os bancos e lojas) enfrenta resistência no Congresso. De quem?

Há diversas resistências, algumas explícitas, como das associações de defesa do consumidor. Isso foi negociado, explicado e está diminuindo. Há outras resistências. O relevante é a consciência de que o cadastro positivo hoje é importante, o que fará com que seja aprovado num futuro próximo.

Os bancos estão ajudando ou estão resistindo?


Não acompanho o dia a dia do Congresso para dar uma resposta precisa sobre isso. Os presidentes de bancos com quem converso me asseguram que são favoráveis.


Nos últimos anos, houve um enorme aumento da concentração bancária. É um problema?


Existem países que têm um número pequeno de instituições financeiras, que são muito competitivas. É isso que precisamos criar no Brasil. Portanto, bancos públicos, bancos pequenos e médios crescendo, cadastro positivo, mais transparência, tudo isso ajuda.


Falta competição ao sistema financeiro nacional?


Não gosto de frases definitivas. Acho que existe uma boa competitividade no sistema financeiro nacional, mas temos uma realidade de spreads elevados. Portanto, aumentar essa competitividade via bancos pequenos e médios, cadastro positivo e uma ação mais forte do mercado é algo saudável para o País.

No pior momento da crise, houve risco de quebra de banco aqui?

Não houve risco no sentido de que o BC, naquele momento, colocou disponível ao mercado bancário o mecanismo do redesconto. Além do que, tínhamos R$ 260 bilhões em compulsórios. Se o BC não tivesse sido autorizado pelo Congresso e pelo presidente a fazer o redesconto, se não tivéssemos os compulsórios, poderíamos ter tido uma crise sistêmica.


O sr. trabalhou muitos anos nos EUA. Como teria lidado se estivesse à frente de um banco quando os produtos que provocaram a crise eram oferecidos no mercado?

Não fiz e não teria feito. Sempre achei essas operações muito arriscadas. Nunca concordei e mais: até aquele momento, achava que era algo peculiar meu por ter vivido em um país que tinha tido tantas crises. Isso mostra que crises financeiras não são peculiaridade de emergentes. Excesso de risco leva a excesso de perda. Uma das conclusões, hoje, é que a regulação deve ser diferente.

O que está na origem dessa crise?


Na última década, a globalização, a tecnologia e a deflação chinesa de produtos exportados permitiu que a política monetária americana fosse acomodatícia e sinalizou que os juros continuariam baixos. Isso levou os tomadores de empréstimos a assumir riscos partindo do pressuposto de que não havia risco macroeconômico. Isso mostrou não ser real. Esse tipo de política monetária foi uma lição que não deverá continuar.


O ano começou ruim, como tem mostrado a produção industrial. Como imagina que terminará?


Nossa previsão de crescimento é de 1,2% para o ano. Em relação à produção industrial, é importante notar que o processo de desestocagem foi liderado pela indústria automobilística, que já está em forte recuperação. Em seguida, bens duráveis, que também já estão em recuperação forte. Mas foi seguido por outras partes da cadeia produtiva. A partir do segundo trimestre, teremos uma visão mais clara, que mostrará a recuperação.

O que esse 1,2% representa ao longo do ano?


Certamente um país em expansão no fim do ano. O crescimento começará a ficar claro no segundo trimestre. Infelizmente, o PIB do segundo trimestre só será conhecido em setembro. Mas alguns dados setoriais serão conhecidos antes disso.


O Brasil pode ter recessão técnica antes desse crescimento?


Não fazemos previsão de PIB trimestral. Dito isso, se ocorrer, será um dado significativo que não muda esse quadro, pois temos um carry-over (carregamento) negativo importante considerando-se a queda no quarto trimestre, muito concentrada em dezembro.


Os números vão piorar antes de melhorar?


Não acredito que piorem. O vale foi de fato no quarto trimestre do ano passado.

A que o sr. atribui a queda tão violenta da economia?


Foi uma conjugação de fatores. Em primeiro lugar, o que de fato não era previsível foi a quebra do (banco) Lehman Brothers. A partir daí, houve uma paralisação - temporária, mas aguda - do sistema financeiro internacional, que atingiu o mundo todo. O crédito global foi dramaticamente reduzido. Isso levou a uma reação em cadeia das corporações globais, que tomaram decisões de redução de estoques e de centralização de caixa. Isso gerou, juntamente com o efeito dos mercados, um processo global de desestocagem sincronizada. Houve efeitos em cadeia em todos os países.


Muitos criticam o BC por não ter reduzido o juro em dezembro.


As avaliações que temos são de que o movimento do BC foi bem-sucedido. O que influencia de fato a atividade econômica é a taxa de juros de mercado. A mensagem e a decisão do BC (em dezembro) fizeram as taxas do mercado a termo caírem a partir daquele momento. Evidentemente, também pesou o decréscimo da atividade, mas o que prevaleceu foi a confiança em que o BC estava no controle do processo e não tomaria nenhuma medida que pusesse em risco a estabilidade dos preços. O fato concreto é que temos hoje a menor taxa de juros reais da história.


Daria para evitar essa forte queda da economia brasileira?


Quem disser que previa a queda do Lehman Brothers não está dizendo a verdade. Portanto, ter tomado medidas partindo do pressuposto de que o Lehman ia quebrar seria muito arriscado. O movimento foi extraordinariamente sincronizado no mundo por causa da globalização financeira, do comércio e do processo de tomada de decisões. Portanto, em alguns momentos, querer se descolar do mundo, como fizemos no passado, pode ter consequências graves e negativas. Podemos substituir uma crise externa de curta duração por uma interna de longa duração. O Brasil está na direção certa.


O q
ue o atrai na vida pública? A vida de executivo de banco não era mais confortável?

Não há dúvida de que a vida de um executivo do mercado internacional oferece vantagens importantes do ponto de vista de tranquilidade pessoal. De outro lado, administrando um banco que tinha presença em 32 países e acompanhando esses países muito tempo, tinha ansiedade grande de poder aplicar tudo isso que vi acontecer no Brasil. Nesse aspecto, me sinto gratificado.

Muitas reportagens ao longo dos anos diziam que o sr. ia cair...


Há uma falta de hábito de muitas pessoas de ter um BC comprometido com a estabilidade de preços. Depois de décadas de desequilíbrio financeiro, é um processo que causa estranheza muitas vezes. Mas os resultados estão aí.


Se depender da sua vontade, o sr. deixa o BC em 31 de dezembro de 2010?


Vamos aguardar. Agora, estou focado no BC.


Estadão online

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