sábado, 4 de abril de 2009

O PT, o PSOL e o manifesto liberticida


Ao hipotecar apoio a Chavez no episódio da RCTV, os dois partidos pregam que a crítica seja monopólio do governo

Os eventos de 18 anos atrás que culminaram com a queda do Muro de Berlim, na antiga Alemanha Oriental, já foram narrados sob todos os Ângulos. Mas há detalhes que quase escaparam ao registro histórico. Um deles é o seguinte. Quando se alastravam as manifestações populares contra o regime comunista, alguns dirigentes do PT participavam, na Alemanha Oriental, de um curso de formaçãoo política promovido pelo SED (Partido Socialista Unificado, como se chamava o partido comunista no país).
Um dia, os manifestantes cercaram a sede do SED, exigindo o fim do sistema de partido único. Dentro do edifí­cio, os petistas ouviam aulas sobre o futuro socialista da humanidade ministradas por um poder em adiantada putrefação.O episódio não é totalmente irrelevante, ainda mais à luz dos acontecimentos desta semana. Domingo passado, um minuto antes da meia-noite, o sinal da emissora venezuelana RCTV saiu do ar em definitivo, dando lugar transmissões de mais uma tevê estatal. Nas ruas de Caracas, policiais reprimiam manifestantes que protestavam contra o fechamento da emissora, decidido pelo governo de Hugo Chavez. Horas antes, em Brasília, a embaixada da Venezuela recebia um manifesto de apoio ao ato de Chavez assinado pelo PT e pelo PSOL.

Os dois principais partidos de esquerda do Brasil, que vivem às turras, encontraram um eixo programático comum: a supressão da liberdade de opinião daqueles que não concordam com um governo socialista e revolucionário. E ta empresa privada, além de veicular todas as baixezas típicas de uma TV comercial, faz propaganda aberta contra o processo revolucionário, tendo sido protagonista do golpe fascista de 11 de abril de 2002.O trecho do manifesto entregue na embaixada sintetiza os argumentos do governo Chavez para interromper a concessão da RCTV. A emissora, de fato, apoiou o golpe, mas isso foi há cinco anos - e num país cujo presidente emergiu para a vida política por meio de um golpe militar frustrado.

O jornalismo da RCTV não esconde sua oposição ao governo e, realmente, editorializa o noticiário. Contudo, na Venezuela atual, o governo dispõe, para incensentivá-lo, de uma emissora pública ainda mais tendenciosa e de uma poderosa emissora privada cada vez mais dócil ao chavismo.Chavez apresenta o seu socialismo do século 21 como uma entidade a ser inventada, diferente de todos os socialismos anteriores. A diferença é decrescente, no que concerne ao pluralismo político. Mas subsiste ao menos uma diferença crucial: o regime venezuelano não parece seduzido pela idéia de estatização geral da economia e mantêm excelentes relaçõees com grandes magnatas - entre os quais Gustavo Cisneros, o bilionário mexicano que controla a rede Venevision. No passado, a acusação de golpismo foi dirigida também contra Cisneros.

Agora, sua rede aparece como principal beneficiária da audiência liberada pelo fim da RCTV e das verbas de publicidade oficial em emissoras privadas.Manifestos partidários de apoio a um governo estrangeiro não são documentos banais. Mas nem todos os manifestos se equivalem. É razoável hipotecar apoio a um governo legí­timo (ou apenas legal) contra um golpe de força - como o golpe antichavista de 2002. Coisa diferente é prestar homenagem a um governo - qualquer governo - que usa o poder para banir a divergência. O ato do PT e do PSOL deve ser classificado como manifestação de liberticidas.Os cortesãos brasileiros de Chavez se imaginam socialistas e revolucionários, tal como o alvo de sua corte. Eles se enxergam partícipes da corrente histérica que tem por fonte a obra de Karl Marx. Sugiro-lhes que leiam o que vai a seguir: Tanto a liberdade ou a essência do homem que mesmo seus oponentes a implementam, enquanto negam sua realidade; eles querem se apropriar, para si mesmos, como um mais que precioso ornamento, daquilo que rejeitaram como ornamento da natureza humana.

Nenhum homem combate a liberdade; no má¡ximo, combate a liberdade dos outros. Portanto, todos os tipos de liberdade sempre existiram, apenas que às vezes como privilégio especial, Ás vezes como direito universal.Isto, que um signatário do manifesto liberticida qualificaria inadvertidamente como pensamento burguês, foi escrito por Marx, em maio de 1842, na Nova Gazeta Renana. À parte de uma série de artigos sobre a liberdade de imprensa - isto é, bem entendido, a favor da liberdade de imprensa. Embora dirigidos contra a censura prussiana, os textos não defendem a liberdade de imprensa em bases conjunturais, mas como um princí­pio inegociável.
No mesmo artigo, existe a constatação de que, em todos os lugares, documentos governamentais oficiais experimentam perfeita liberdade de imprensa, e uma outra, que a complementa: A verdadeira censura, baseada na essência mesma da liberdade de imprensa, É a crítica. Esse é o tribunal que se desenvolve a partir da liberdade de imprensa. Censura é crítica como monopólio do governo. Marx estava certo. O PT e o PSOL querem que a crítica seja monopólio do governo - do seu governo, é claro. Quando firmam o manifesto, os dois partidos estão dizendo que são frutos podres da árvore tombada do stalinismo. Há algo de positivo no ato deplorável: o fim das ilusões, para quem ainda as nutria, sobre a natureza polí­tica dessas agremiações.

Depois desse manifesto, são tolos rematados podem acreditar na sinceridade das proclamações democráticas de seus dirigentes.Hoje, o PT não fala mais de socialismo - mas a palavrinha permanece no seu programa. O socialismo é o nome do PSOL. O PSOL não sabe dizer o que é o seu socialismo, como o PT também nãoo sabia. Os dois, porém, sabem dizer uma coisa: o socialismo deles, como o socialismo real que naufragou no leste europeu, viria a ser o reino da liberdade como monopólio dos que têm o poder. No fim das contas, aquilo que querem para a Venezuela não pode ser tão diferente assim do que querem para o Brasil. PT e PSOL tem, nas suas fileiras, alguns parlamentares cujos nomes estão ligados, na percepção pública, À noção de democracia.
Seria injusto atribuir responsabilidades automáticas pelo manifesto liberticida a figuras como Eduardo Suplicy, José Eduardo Cardozo ou Chico Alencar. Por outro lado, eles não podem se fingir de paisagem para sempre. Se não erguem a voz para cobrar a retratação das direções partidárias, tornam-se parte do programa de abolição das liberdades públicas. Nessa hipótese, seus nomes devem ser relacionados pelos eleitores na lista dos liberticidas - no caso, numa lista especial de farsantes liberticidas.


IMORTAIS GUERREIROS

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