sábado, 4 de abril de 2009

OTAN - 60 anos!

A Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) comemora neste final de semana seu 60º aniversário, em um cenário internacional muito diverso do mundo bipolar no qual foi criada. Para os especialistas, o grupo que se consolidou como guardião da estabilidade europeia durante suas seis décadas hoje se vê diante novos desafios para sua identidade: contra quem a aliança precisa se defender? E como agir quando a hegemonia militar não é o bastante?

"O principal desafio da Otan nos dias de hoje consiste exatamente em encontrar seu papel", resume Juliana Viggiano, analista do Núcleo de Pesquisa em Relações Internacionais (Nupri) da Universidade de São Paulo.

Para Viggiano, a aliança foi obrigada a reavaliar seus objetivos estratégicos após a dissolução da União Soviética, líder da "ameaça comunista" contra a qual a Otan se colocava. "Instabilidades de caráter político, econômico e social passaram a ser consideradas as principais ameaças à segurança da Europa, atribuindo um papel mais periférico às funções militares", explica a especialista.

"Embora esteja ativamente participando da Guerra do Afeganistão, a organização não abandonou essa posição de privilegiar aspectos não-militares como o elemento central de sua atuação para combater fenômenos como o terrorismo e o tráfico de drogas", acrescenta Viggiano.

Essa nova realidade ganhou contorno nítido após os ataques às Torres Gêmeas de Nova York em 11 de setembro de 2001. Pela primeira vez desde a derrocada comunista, os aliados europeus mencionavam o artigo 5º do tratado que regula a a Otan: qualquer ataque contra um dos países membros será considerado um ataque contra todos.

"O 11 de setembro teve, em princípio, uma repercussão militar para a OTAN com seu envolvimento na guerra do Afeganistão. Em termos políticos, os desdobramentos da participação da aliança nesse contexto da guerra devem ser traduzidas no novo direcionamento estratégico da aliança, que provavelmente começará a ser elaborada este ano", explica a especialista.

Corações e mentes

O presidente-geral da Otan, Jaap de Hoop Scheffer, reconhece essa mudança de foco na ação da aliança, citando o principal conflito no qual a Otan age atualmente. "A guerra no Afeganistão não pode ser vencida militarmente", afirmou Scheffer em entrevista à revista alemã Der Spiegel.
O líder da Otan explica que hoje os alvos da ação precisam ser "corações e mentes". "Dez anos atrás, bastava uma divisão de tanques para impressionar um país. Hoje, isso pode significar sentar diante de um computador para lançar um ataque virtual ou desligar o suprimento de gás."

Para a analista Viggiano, este novo cenário traz questões em aberto. "A Otan vai buscar instrumentos alternativos: fortalecimento político, econômico e social das sociedades. Mas o que fazer então quando não funcionar? Será essa estratégia de intervenção militar eficiente para combater o terrorismo? Quais as opções? Essas são questões que a Otan precisa trabalhar para definir seu papel nos anos que se seguem."

Passando o chapéu

Outro desafio da organização é conseguir suporte financeiro para suas operações. Em entrevista ao Financial Times, Scheffer afirmou que a aliança está buscando um montante de US$ 2 bilhões anuais para financiar as atividades no Afeganistão. É uma soma ambiciosa, diante dos atuais US$ 25 milhões disponíveis.

Scheffer conta que um dos objetivos centrais dos encontros deste final de semana será negociar esse financiamento com a comunidade internacional, inclusive com contribuições de países de fora da aliança, como Japão, Arábia Saudita e países do Golfo. "É difícil ver como os aliados da Otan - dados os valores enormes que já gastam para manter as forças lá - podem contribuir para os US$ 2 bi ao ano. É impossível para eles", declarou.

Atualmente, a aliança conta com um orçamento total de US$ 2,7 bilhões, formado pela participação dos países-membros, em um montante que varia principalmente em relação aos PIBs nacionais. São vinculados à Otan 5.200 funcionários civis, divididos em 320 comitês, além de cerca de 60 mil soldados em missões de combate.

Liderança dos EUA

Ao lado da questão da partilha dos custos, a partilha das responsabilidades aparece como uma questão latente no grupo, em especial na relação entre os Estados Unidos, principal financiador da aliança, e os membros europeus.

"O governo de George W. Bush optou por uma posição mais unilateral, desagradando seus parceiros europeus em especial no episódio da Guerra do Iraque, o que não só gerou divergências entre seus principais membros (Inglaterra que apoiou a guerra e a França e Alemanha que se opuseram, para citar as maiores potências) como diminuiu a participação norte-americana na Guerra do Afeganistão, aumentando o fardo da organização no conflito", explica Viggiano.
Questionada a respeito da posição do novo governo dos Estados Unidos, a especialista afirmou acreditar que "a postura favorável de Obama ao multilateralismo é sim um aspecto positivo para relação da Otan com os Estados Unidos".
Eugênio Diniz, professor da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, não se mostra tão confiante neste sentido. "É muito difícil estimar o comportamento futuro de Obama, suas atitudes concretas não demonstram tanta clareza", declara o analista de relações internacionais. "Pode ser que estejamos diante de um novo Jimmy Carter."

O pesquisador concorda, no entanto, que a posição de liderança dos Estados Unidos está consolidada. "Não existe alternativa", afirma Diniz. "Há uma enorme desproporção entre os recursos estadunidenses e de outras nações, inclusive quanto a arsenal, satélites, capacidade de comunicação e capacidade de resposta militar."

Guardiã da estabilidade

Por outro lado, o mecanismo de segurança coletiva da Otan é reconhecido como uma estratégia bem-sucedida na estabilidade do Atlântico Norte. Após duas Guerras Mundais e uma Guerra Fria, a região conhece uma estabilidade militar e política - cuja manutenção é um claro papel da aliança.

"A Otan ainda é a organização multilateral militar mais forte do mundo", lembra Viggiano. "A possibilidade de uma nova guerra entre os países do ocidente europeu é uma perspectiva remota para os membros da aliança, mas a Otan continua a ser central para a garantia de defesa desses países".

"A aliança continua voltada a manter a estabilidade na Europa na medida em que, aos instituir uma instância de liderança clara, justamente evita disputas pela liderança", conclui Diniz.

Operações em andamento



Afeganistão

Otan lidera uma força militar (ISAF) com objetivo de estabelecer um governo democrático estável

Iraque

Aliança trabalha no treinamento e suporte de forças de segurança iraquianas

Kosovo

Desde 1999, a Força Kosovo (KFOR) atua para manter condições de segurança, sob mandato da ONU

Bósnia

Um quartel-general em Sarajevo tem o objetivo de reformar o sistema de defesa ao lado de forças locais

Mediterrâneo

Navios da Otan patrulham o mar Mediterrâneo, escoltando navios civis e atuando contra o terrorismo

Cronologia

1949 - Organização do Tratado do Atlântico Norte é criada em Washington. Os 12 países fundadores são Estados Unidos, Bélgica, Canadá, Dinamarca, França, Grã-Bretanha, Islândia, Itália, Luxemburgo, Noruega, Holanda, Portugal
1952 - Entrada de Turquia e Grécia
1955 - Entrada da República Federal Alemã;

Formação do Pacto de Varsóvia
1966 - França deixa estrutura militar de comando
1982 - Entrada da Espanha
1989 - Queda do Muro de Berlim
1991 - Fim do Pacto de Varsóvia
1992-95 - Otan entra em ação contra os sérvios em Sarajevo na Guerra da Bósnia
1998-99 - Otan bombardeia a Iugoslávia no conflito de Kosovo. Desde então, mantém tropas em Kosovo para garantir "estabilidade" regional
1999 - Entrada de Polônia, a República Tcheca e a Hungria
2001 - Ataque de 11 de Setembro contra as Torres Gêmeas, em Nova York (EUA);

Otan cria uma força especial (ISAF) para agir no Afeganistão
2002 - Assinado acordo entre Otan e Rússia
2004 - Entrada de Lituânia, Estônia, Letônia, Eslováquia, Eslovênia, Bulgária e Romênia
2009 - Entrada de Albânia e Croácia; Regresso pleno da França à aliança


Ativistas protestam contra a Otan vestidos de palhaços em Estrasburgo

O holandês Jaap de Hoop Scheffer é presidente-geral da Otan desde janeiro de 2004. Formado em Direito, ocupou cargos na diplomacia e na política. Foi acusado de submissão em relação ao ex-presidente dos EUA George W. Bush durante a ofensiva no Iraque. Deixa o cargo em julho

Um prédio grande e feio nos arredores de Bruxelas. A segurança é rigorosa, atenta ao constante medo de um ataque. O prédio no interior abriga uma pequena cidade, completa com mercados, cafés e bancos, como se dissesse que qualquer um que entre no quartel-general da aliança não precisa sair para satisfazer as necessidades banais da vida cotidiana


Estadão online

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