domingo, 26 de abril de 2009

Risco democrático




FOLHA DE S PAULO

Descobri que numa turma de gente que está bebendo não pode haver uma só pessoa tomando água e ouvindo


OUTRO DIA saí com uns amigos -éramos seis- e nos divertimos muito. Dos seis, cinco bebiam -moderadamente, é claro; falou-se bobagem, demos muita risada e foi uma noite inesquecível. Só que no dia seguinte a pessoa que não bebia telefonou para todas as outras, uma por uma (para mim, inclusive), para falar mal das outras.

Que elas disseram inconveniências, foram indiscretas, contaram coisas da vida delas mesmas que nunca deveriam ter sido contadas, e por aí vai. Aí fiquei pensando: ela tinha uma certa razão, mas alguma coisa estava errada. Pensei, pensei, e descobri que numa turma de gente que está bebendo -moderadamente- não pode haver uma só pessoa tomando água e ouvindo o que as outras estão falando. Tanto quanto não é possível numa turma de abstêmios estar uma só pessoa com um copo de bebida na mão. Não dá certo, nunca dá.

Grávidas, por exemplo, só deveriam se dar com grávidas, pois o único assunto (sobretudo quando é o primeiro filho) que lhes interessa é a ultrassonografia, o enxoval do bebê, a avó que vai dar o carrinho, a quantidade de fraldas que já têm estocada, se vão ou não amamentar, e durante quanto tempo, se o parto vai ser natural, dentro d'água ou cesariana, e por aí vai.

Isso para não falar das que acabaram de ter o bebê. Aí o assunto vai pela madrugada, e as mães ficam tão empolgadas que são capazes de nem ouvir se o bebê começar a chorar. E na sala ao lado os pais falam que filmaram o parto e contam que até cortaram o cordão umbilical. Tem sentido uma amiga chegar da malhação, feliz porque perdeu dois quilos e arranjou uma paquera nova, entrar nessa conversa? E para falar o quê? Não, é melhor suspenderem as relações até que a criança tenha seis ou sete anos, ou talvez para sempre.

Outra coisa difícil de juntar são casais com avulsos, digamos assim. Vamos fazer de conta que os homens -os casados e os avulsos- sejam amigos de anos; um dia um deles encontrou o amor de sua vida, casou-se, e a amizade continuou. Quando se encontram para jogar uma pelada ou almoçar num dia de semana, voltam ao passado: jogam conversa fora como duas crianças, e riem por qualquer bobagem.
Mas um dia o casado convida o solteiro para jantarem juntos, ele com a mulher, que vai levar uma amiga; quem sabe? Desastre total.


Em primeiro lugar o assunto entre os homens muda -e o clima também. Nada de risadas, referências ao passado nem pensar. As duas mulheres falam dos assuntos de sempre: dieta, ginástica e endereços onde se compram cópias de grife baratíssimas. É claro que o jantar rola sem nenhuma graça, o que leva à conclusão que solteiros devem sair com solteiros, casados com casados, apaixonados com apaixonados, e infelizes no amor com os seus iguais.

E se você entrar num restaurante e vir uma mesa só com políticos, sente bem longe ou vá para outro lugar: o camburão está demorando, mas um dia pode chegar, o povo se revoltar e acabar sobrando uma bala perdida no peito da democracia.

danuza.leao@uol.com.br

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