sábado, 11 de abril de 2009

Um silêncio ensurdecedor


TALENTOSO RIPLEY
Recebido na CPI por uma claque que se autointitulava frente contra a corrupção, Protógenes frustrou seus admiradores ao não apontar um único nome da organização criminosa que, segundo ele, dominou até o subsolo do Brasil.


O delegado Protógenes Queiroz surpreendeu mais uma vez:
depois de acusar até o presidente Lula de ter sido cooptado
pelo crime organizado, ele prometeu que daria "nome aos bois".
Na hora de falar, calou-se


Expedito Filho


É constrangedor para um suspeito quando, em vez de se defender, ele precisa se calar para não produzir provas que o incriminem. Foi isso que ocorreu na semana passada com o delegado Protógenes Queiroz, chefe da Operação Satiagraha, que apurou crimes e levou à condenação do ex-banqueiro Daniel Dantas a dez anos de cadeia. Afastado da investigação por causa de um festival de abusos, ilegalidades e trapalhadas, o delegado se recusou a responder a quase uma centena de perguntas no depoimento de seis horas que prestou à CPI dos Grampos. A sucessão de negativas frustrou até mesmo sua claque política, uma autoproclamada frente contra a corrupção integrada por ínclitos como o senador Wellington Salgado (réu por crime contra o patrimônio, apropriação indébita e sonegação) e os deputados federais Paulinho da Força (indiciado pela PF por corrupção) e Paulo Lima (réu por sonegação e falsidade ideológica). Essa turma, talvez por uma inclinação suicida, esperava que o delegado cumprisse a promessa de dar "nome aos bois e expor os meandros da corrupção no Brasil" em seu depoimento à CPI. "Foi uma decepção geral. O delegado perdeu a oportunidade de se defender das graves acusações que existem contra ele", diz o deputado federal Marcelo Itagiba, presidente da CPI.

O comportamento bipolar do delegado se revelou dias antes do depoimento. Em conversa reservada com os deputados Raul Jungmann (PPS-PE), Gustavo Fruet (PSDB-PR) e Vanderlei Macris (PSDB-SP), Protógenes disse estar disposto a contar detalhes sobre um alegado tráfico de influência patrocinado pela ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, durante as negociações para a compra da Brasil Telecom pela Oi (ex-Telemar). Disse também que um dos filhos do presidente Lula, Fábio Luís, o Lulinha, foi cooptado pela "organização criminosa" de Dantas. Sob os holofotes da CPI, porém, o delegado negou que o filho do presidente e a ministra Dilma Rousseff tenham sido alvo de investigação. Ele não respondeu às perguntas sobre a tal cooptação de Lulinha nem sobre o interesse de Lula na operação. Também se calou a respeito das suspeitas que lançou sobre a ministra, registradas em relatórios encontrados em seu computador pessoal. "Ele nos disse que detalharia tudo isso na CPI. Não dá para entender", lamentou o deputado Fruet.

DANTAS CONTRA A PAREDE A Polícia Federal está refazendo a investigação contra Daniel Dantas: expectativa de punição do ex-banqueiro

É fácil entender por que o delegado preferiu o silêncio diante das suspeitas que o cercam. Por que ele armazenava investigações clandestinas sobre Dilma Rousseff, o ex-ministro José Dirceu, o presidente do Supremo Tribunal Federal, entre outras autoridades? Por que ele guardava gravações ilegais de jornalistas? Sem respostas, amparado por um habeas corpus concedido pelo Supremo Tribunal Federal, o delegado preferiu se calar porque os arquivos, encontrados em seus computadores, são provas materiais de seus crimes. E elas não param de surgir. Em um arquivo protegido por senha, mas já desbloqueado pela PF, há um relatório de arapongas da Abin com os números telefônicos de Bernardo Figueiredo, então assessor de Dilma Rousseff no Palácio do Planalto. Outro arquivo prova que Protógenes investigou o advogado Eduardo Ferrão, ex-sócio do ministro da Defesa, Nelson Jobim. O delegado, que já foi indiciado pela PF por quebra de sigilo funcional e violação da lei de interceptações, em breve também terá de responder judicialmente pelas ilegalidades arquivadas em seus computadores.

Enquanto Protógenes se calava diante da CPI, em São Paulo e no Rio de Janeiro a Polícia Federal realizava diligências para reparar as trapalhadas do delegado na Operação Satiagraha. Os agentes vasculharam oito endereços do banco Opportunity, no Rio de Janeiro e em São Paulo, em busca de provas de crimes contra o sistema financeiro. Eles recolheram livros contábeis e contratos de empresas controladas por Dantas que fariam operações cruzadas de empréstimos. A existência ou a simulação dessa prática é proibida por lei, para evitar que o mecanismo seja utilizado para ocultar a origem de dinheiro ilícito. Transcorridos mais de dois anos desde que a Satiagraha teve início, Daniel Dantas nem sequer foi denunciado à Justiça pelos crimes financeiros que motivaram a desastrada operação de Protógenes. Sua condenação a dez anos de prisão ocorreu pela tentativa de corromper um dos delegados que o investigavam. Espera-se que a PF consiga dar à Satiagraha um mínimo de lógica e que ela produza provas reais contra malfeitores, e não apenas divagações lisérgicas de Protógenes e seus mentores. Será muito ruim para o Brasil se o preço do destrambelhamento e das ambições políticas do delegado Protógenes for a impunidade de criminosos como Daniel Dantas.

Revista Veja

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