domingo, 31 de maio de 2009

Cicatrizes de uma farsa

ZURIQUE - Três meses e meio depois de simular ter sido vítima de um ataque de neonazistas que mobilizou governos e opinião pública de diferentes países, as cicatrizes externas de Paula Oliveira desapareceram. Mas as psicológicas, aparentemente, permanecem à flor da pele. Essa semana, a brasileira foi internada em uma clínica psiquiátrica em Zurique, na Suíça. Não seria a primeira internação desde o simulado ataque. Entre idas e vindas, Paula teria passado 81 dias na clínica, uma instituição de saúde pública muito conceituada no país. Relatório médico feito pela Justiça suíça mostra um quadro de distúrbios mentais graves. Constatou-se que Paula imagina situações e tem dificuldade para separá-las da realidade. Uma das hipóteses levantadas é o transtorno bipolar. Paula também sofre de lúpus, doença que pode gerar alucinações.

A alegada agressão por parte de três skinheads, que a teriam espancado, deixado seminua e retalhado várias partes de seu corpo com um estilete, levando-a ao aborto de gêmeas, não seria, de fato, o primeiro discurso fantasioso dessa pernambucana. A seus colegas de trabalho da multinacional Maersk, da qual está licenciada, ela contou que já havia sido casada no Brasil, mas deu duas versões para sua viuvez. A primeira foi a de que o suposto marido estava em um avião da TAM que caiu. A segunda: enquanto nadavam no mar, uma lancha o atropelou.

Para provar a gravidez, fruto imaginário do relacionamento com Marco Trepp, noivo de carne e osso, Paula exibiu um ultrassom de gravidez gemelar. Diante do silêncio da filha quanto ao nome do médico, Paulo Oliveira, pai de Paula, disse que ela havia ido a uma médica portuguesa que trabalhava de forma ilegal na Suíça. Esse recurso extracurricular é prática comum entre os imigrantes ilegais do país, que não têm acesso aos hospitais. No entanto, por trabalhar para uma multinacional, Paula tinha direito ao serviço de saúde de Zurique. O ultrassom fora tirado da internet.

A Justiça hoje está convencida de que Marco Trepp acreditou que Paula estivesse grávida e prometeu, não se sabe se por esse motivo, casamento a ela. Mas, desde a eclosão da história, ele cortou contatos com a brasileira. Foi morar com a mãe na pequena cidade de Chur, no meio dos Alpes. O nome dos dois continua na caixa de correio do apartamento, de propriedade de Marco. Vizinhos e o zelador do prédio afirmam que Paula era discreta e, desde sua mudança para lá, pouco se esforçou para fazer amigos. No único e popular restaurante da região, Marina, a dona, conta que jamais vira Paula em seu estabelecimento: "Só ficamos sabendo que essa pessoa morava aqui quando os jornalistas desembarcaram em levas atrás da história".

O local não tem nenhuma intimidade com os cenários de cartão-postal da Suíça. Dubendorf é uma cidade-dormitório de subúrbio. Seus moradores, a imensa maioria de classe média, são principalmente estrangeiros - dominicanos, mexicanos, orientais, indianos. Uma família de brasileiros, que insistiu no anonimato, também mora no final da rua de Paula. A nacionalidade comum não os aproximou da moça. Ao deixar o hospital em fevereiro, para evitar a imprensa, Paula se trancou no apartamento com a família e cerrou as janelas. Na clínica, quem a acompanha é a mãe. O pai retornou ao Recife.

De sua parte, o Ministério Público suíço informa que a internação não foi uma recomendação da Justiça. Teria sido decidida pelos médicos que acompanham a brasileira e por sua família. Mas o porta-voz do ministério, Rainer Angst, garante que a situação atual de Paula não será o fiel da balança no processo. "O que vale é como ela estava no momento do incidente", afirmou Angst. Nesse sentido, um laudo psiquiátrico vem sendo feito, sem data fechada para a conclusão. Paula está sendo julgada por falso testemunho. Se ficar provado que estava consciente do que fazia e seus objetivos eram financeiros ou um meio de chantagear o namorado, poderá receber pena de até 3 anos de prisão.

Explique-se por que se cogitou de objetivos financeiros. Por uma lei suíça, se a polícia não encontra os culpados por um ataque xenófobo contra estrangeiros, as autoridades são obrigadas a pagar cerca de US$ 100 mil à pessoa que sofreu o atentado. Essa foi a parte mais verossímil do conto, pois cerca de 250 ataques xenófobos ocorrem por ano na Suíça e a questão da imigração é um problema crescente. Na terça-feira, câmeras de uma estação de trem filmaram uma agressão contra um mendigo, imigrante ilegal.

Para Roger Muller, o advogado da também advogada Paula, a conclusão do processo ainda pode levar meses. "A perícia em questões de saúde mental não é rápida", disse. Discreto, confirma apenas que o passaporte de sua cliente continua retido pela Justiça, mas espera convencer as autoridades a liberá-la para que volte ao Brasil. Políticos de extrema direita, por sua vez, questionaram a internação da brasileira, alertando para uma jogada dupla: ela fugiria tanto da acusação de falso testemunho quanto de pagar a conta do hospital e das investigações. "Uma vez internada na clínica psiquiátrica, a sentença da Justiça será provavelmente de que ela não estava em pleno gozo das suas faculdades mentais, o que significa que não será penalizada", declarou Alfred Herr, presidente da seção de Zurique do Partido do Povo Suíço, o SVP, que viu suas iniciais expostas na barriga e nas pernas da brasileira, por vezes com o "s" ao contrário, sinal de autoflagelação amadora. "Não entendo por que a Paula não foi expulsa há mais tempo, o que teria economizado bastante dinheiro dos contribuintes", disse Herr. Parlamentares mais moderados também fustigam o imbróglio, mas com mais ponderação. "O desenrolar do inquérito deve corresponder às leis vigentes. Afinal, não vivemos em uma república de bananas", afirmou Daniel Jositsch, deputado federal do Partido Social Democrata.

As cicatrizes diplomáticas também não estão apagadas. O envolvimento do pai, Paulo Oliveira, que é assessor parlamentar, influenciara para que o governo brasileiro se empenhasse em dar solução para o caso. A família de Paula, aliás, chegou a pedir emprestado o carro oficial do corpo consular para levá-la de um lado para outro, o que, em certo momento, passou a ser negado pelo Itamaraty. De qualquer forma, até o corpo diplomático suíço no Brasil foi convocado pelo próprio Itamaraty para dar explicações sobre o comportamento da polícia local. A missão do Brasil perante a ONU ainda se mobilizou para eventualmente levar o caso à entidade. Em Brasília, o Palácio do Planalto cobrou "rigor" da parte dos suíços. Delineava-se a intenção de usar o caso como bandeira em defesa dos direitos dos imigrantes no exterior, num momento de recrudescimento do controle das fronteiras.

Esta semana a polícia de Zurique informou que não vê mais motivos para continuar a investigação. "Está claro que ela nunca sofreu o ataque", afirmou a porta-voz da polícia, Brigitte Vogt. Evidenciada a farsa, os suíços entendem que falta um pedido de desculpas do Brasil quanto à forma como tratou o caso e as autoridades locais. "O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva agrediu a Suíça e tal comportamento gerou sérios desconfortos diplomáticos", disse Allan Huart, porta-voz do SVP. Lula estará na Suíça nos dias 15 e 16 de junho. Na outra ponta do cabo-de-guerra também há certo mal-estar, com o comportamento suíço. Nos dias de fevereiro em que Paula esteve no hospital, a casa da cônsul brasileira em Zurique, Vitória Cleaver, foi rodeada por policiais que temiam que o governo brasileiro ajudasse Paula a escapar da Suíça. Uma das suspeitas em Brasília é que os telefones do consulado passaram a ser grampeados.

Poucas semanas depois da polêmica, Paula completou 27 anos. Estava isolada, sem poder trabalhar, sem namorado. Vitória Cleaver não foi à casa dela. Enviou um presente pelo motorista do consulado. Quem chega a um novo país descobre que pode reinventar sua história. Pode esconder episódios vergonhosos, evitar falar de fraquezas, construir epopeias, intensificar a cor dos sucessos. Paula reinventou seu passado várias vezes enquanto esteve na Suíça - e passou a imaginar o próprio presente. Seu desafio agora será o de criar, de fato, um novo futuro.


Estadão

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