sexta-feira, 1 de maio de 2009

Doença e política

A revelação de que a ministra Dilma Rousseff tentou esconder até o ultimo momento sua doença, pretendendo se tratar em segredo, derruba a teoria engendrada pelos marqueteiros oficiais de que tudo foi feito com a máxima transparência, por orientação do presidente Lula e desejo da ministra. Já se tratando há um mês do câncer linfático, Dilma foi alertada de que jornalistas já tinham a informação da doença, e tentou negar sua existência, até que a notícia da "Folha" a obrigou a admitir em público o que queria esconder. Sua postura "corajosa" na entrevista coletiva, portanto, já fazia parte de um esquema midiático montado pelos marqueteiros oficiais para "fazer do limão uma limonada", conforme definição de um palaciano.

Ninguém tem dúvida na oposição de que o governo vai tentar capitalizar ao máximo a luta da ministra Dilma Rousseff contra o câncer nesses quatro meses de tratamento, e a postura de Lula, que diz uma coisa - "não sei como alguém pode explorar politicamente um problema de saúde" - e faz outra nos palanques - "rezem por ela" - seria a senha para que a campanha política de apoio à candidatura dela à sua sucessão ganhe novos tons, mais emotivos.

O que se especula é se a estratégia publicitária dará certo a ponto de viabilizar uma candidatura que há mais de um ano está sendo incensada pelo presidente Lula e até agora não se firmou na preferência do eleitorado.

O cientista político Antonio Lavareda, ligado aos DEM e ao PSDB, especialista em pesquisas de opinião, acha que os aliados, tanto ou mais quanto os oposicionistas, deveriam se manter discretos no trato do assunto, pois não há indicação de que o eleitorado brasileiro se leve por manipulações de doenças, ainda mais depois do trauma provocado pela morte de Tancredo Neves.

A doença da ministra Dilma trouxe outros tipos de preocupação à base aliada, que começam pela renovada importância que ganhou a escolha do candidato a vice-presidência na chapa oficial. Quem antes desdenhava do cargo agora já se coloca à disposição do partido, e uma escolha que parecia fácil tornou-se delicada.

Por enquanto, o assunto é tratado com sutilezas, mas, à medida que a doença ganhe o centro da campanha eleitoral, vão-se também os pudores dos que, já antes dela, não se contentavam com a indicação, diante dos números magros que ela apresentava até o momento.

Paradoxalmente, uma eventual subida nos índices de aprovação da ministra Dilma Rousseff nas próximas pesquisas eleitorais pode representar uma armadilha para o campo governista.

Qualquer subida da candidata oficial será atribuída à exploração da doença, e não a uma consolidação de seu nome junto ao eleitorado, o que obrigará a que esse tema permaneça no centro da campanha governista até o ano que vem.

Esse inchaço artificial pode, assim, prejudicar o projeto sucessório governista, esvaziando a candidatura oficial de qualquer conteúdo político, pendurando nela um aspecto humano e emocional decisivo.

Não foi à toa que o cientista político Candido Mendes defendeu a tese, no programa "Roda Viva", da TV Cultura, de que a candidatura da ministra Dilma Rousseff representaria a continuidade de um projeto de governo de cunho progressista, unindo a competência de gestão a uma visão social.
Em vez de um simples "poste", escolhido por Lula entre as hostes petistas, a candidatura de Dilma teria uma representatividade política mais densa.

Essa seria uma maneira, para uma corrente governista, de superar o impasse em que se encontram, pois não têm alternativas dentro do PT, e temem que apenas a popularidade de Lula não seja suficiente para eleger qualquer um.

A exploração da doença, dando a Dilma um toque de sensibilidade que não é seu principal traço de personalidade, pode, portanto, tornar mais artificial ainda sua candidatura.

Há mais do que nunca reações diversas dentro da base governista, especialmente dentro do PMDB, o maior partido da aliança.

O projeto de hegemonia política que estava em curso dentro do partido foi abalado pelas crises sucessivas da Câmara e do Senado, e a preocupação com a "voz rouca das ruas", como dizia o ex-presidente do partido Ulysses Guimarães, se traduziu na aprovação da nova regra restritiva sobre o uso de passagens aéreas sem colocar em votação no plenário, como exigiam os componentes do "baixo clero".

Mas a parcela do partido que não embarcou na canoa governista ganhou argumentos com a doença da ministra, e a decisão de aderir à candidatura oficial já começa a ser questionada.

Crescem a cada dia as pressões da comunidade judaica contra a visita do presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, ao Brasil no início de maio. O ex-chanceler Celso Lafer dá as bases legais para que a visita seja cancelada, depois que Ahmadinejad reafirmou, da tribuna da ONU, seu ódio a Israel, que quer ver varrido do mapa mundial.

Começa lembrando que a Constituição brasileira fala na prevalência dos direitos humanos nas relações internacionais. Por conta disto, no correr dos tempos, o governo brasileiro tem assinado diversos tratados sobre o assunto.

A Declaração Universal dos Direitos Humanos foi concebida como um caminho para se atingir uma relação amistosa entre os povos, e favorecer a paz, lembra Lafer, e em decorrência dela nasceu o Pacto de Direitos Civis e Políticos, que o Brasil assinou, além de um tratado regional, o Pacto de São José.

Os dois documentos afirmam basicamente a mesma coisa: caberá aos países signatários proibir a propaganda em favor da guerra e toda a apologia ao ódio nacional, racial ou religioso e o incitamento à violência e ao crime.

Merval Pereira
O GLOBO

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