sexta-feira, 1 de maio de 2009

Educação para a pobreza


Educação de pobre tem de ser mesmo uma porcaria? Ninguém diz isso em voz alta. Provavelmente ninguém aceita essa ideia, de forma consciente, mesmo numa conversa com seus botões. Qualquer um ficaria corado se ouvisse a própria voz pronunciando essas palavras. Mas essa é, na prática, a orientação dominante na política educacional brasileira. Há uma espécie de fatalismo nessa política. Esse fatalismo é desastroso e tende a perpetuar a desigualdade e a pobreza. A educação poderia ser o instrumento de ruptura do círculo vicioso, mas acaba contribuindo para perpetuá-lo. Quando os jornais publicam, como ontem, grandes coberturas sobre exames de avaliação de cursos - o Enem é só um exemplo -, os comentários dos especialistas são tão previsíveis quanto desanimadores.

Segundo o padrão "realista", não tem sentido a comparação de resultados de escolas públicas e privadas. O desempenho dos alunos da escola pública, segundo os especialistas, não reflete apenas a qualidade do ensino formal. Antes de mais nada, reflete o ambiente socioeconômico do aluno: pouca educação na família, pobreza material e cultural, pouca leitura, falta de orientação para o desenvolvimento pessoal. Além disso, os professores do ensino oficial são mal pagos, muitos são mal preparados e não têm estímulo para se aperfeiçoar. O sistema escolar é pobre, as instalações são precárias, os controles e as avaliações são falhos. Os alunos passam poucas horas na classe e suas possibilidades de aprendizado são escassas. Muitos mal sabem ler quando terminam a quarta série. E quem pode ficar surpreso, se os alunos diplomados no ensino médio têm dificuldades enormes para entrar numa faculdade?

Mas esse é apenas um meio realismo. A descrição das misérias do ensino público pode ser verdadeira, de modo geral, mas isso é só a constatação de um problema. Entre a constatação e a aceitação há um abismo. A comparação de resultados tem sentido, sim, e é indispensável. Se se comparam níveis de renda e condições de sucesso profissional de pessoas de classes diferentes, por que não comparar também seu desempenho escolar e suas notas em testes como o Enem, o Enade e a Prova Brasil? Realismo não é rejeitar a comparação, e sim levar em conta a diferença entre as oportunidades educacionais.

Não se elimina essa diferença apenas com a universalização do acesso à escola. Esse é um passo essencial, mas insuficiente. Enquanto se amplia a cobertura escolar, como nas últimas décadas, amplia-se também a distância entre o níveis de educação oferecidos a crianças e jovens de diferentes origens sociais. O abismo é cada vez maior. Uma criança de 7 anos criada num ambiente favorável e matriculada numa boa escola pode estar mais preparada para o treinamento científico do que um estudante de oitava série formado em cursos de baixa qualidade. Este é um fato observável no dia a dia.

É uma tolice falar sobre igualdade de oportunidades quando se menospreza esse dado. As chamadas políticas afirmativas nunca serão mais do que remendos de valor muito duvidoso. Podem produzir algum efeito, mas nunca bastarão para compensar a diferença efetiva entre a boa e a má educação, entre a boa e a má preparação para a vida profissional e até para o exercício da cidadania.

A escola estadual paulista com melhor desempenho no Enem de 2008 funciona fora dos padrões dominantes: tem o mesmo diretor há 20 anos, os alunos têm de fazer lições, há aulas de reforço, os pais são cobrados e a reprovação não é limitada aos estudantes da 4ª e da 8ª séries. Na vida real não há progressão continuada e a política de cotas, quando imposta ao mercado de trabalho, tem efeitos limitados. As tentativas de amaciar a realidade funcionam até certo ponto. Os bens e serviços necessários à sociedade só podem ser produzidos com a aplicação de competências específicas. Progressão continuada e cotas não substituem essas competências quando se trata de plantar feijão, construir automóveis, pilotar aviões ou remover apêndices.


A chamada justiça social começa com a distribuição equitativa da educação. Se uma criança vem de um ambiente socioeconômico desfavorável, a escola deve compensar essa deficiência. Por isso, a educação pública tem de ser muito boa e muito rigorosa, e não relaxada e leniente, como no Brasil. Políticas educacionais frouxas não nivelam oportunidades. Ao contrário: reproduzem as desigualdades e empurram os problemas para a frente, como se as cotas e outras soluções fáceis pudessem mudar a realidade.


O Estado de S. Paulo - 30/04/2009
Rolf Kuntz

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