terça-feira, 12 de maio de 2009

Em Israel, Bento XVI pede ''solução justa'' e ''terra'' para palestinos

No primeiro de cinco dias de sua histórica visita a Israel e territórios palestinos, e apesar de medir cuidadosamente as palavras para não ferir suscetibilidades, o papa Bento XVI não deixou a política de lado. Assim que chegou a Tel-Aviv, o pontífice defendeu a continuação das negociações de paz entre israelenses e palestinos e o direito aos dois povos de ter sua terra - ou, em outras palavras, a criação de um Estado palestino convivendo pacificamente com Israel, ainda que não tivesse mencionado a palavra "Estado".

"Apelo a todos para que explorem todas as possibilidade na busca de uma solução justa, apesar das consideráveis dificuldades, para que ambos os povos possam viver em paz em sua própria terra com segurança e fronteiras internacionalmente reconhecidas", disse Bento XVI em breve discurso diante da cúpula do governo israelense. "A esperança de inúmeros homens, mulheres e crianças de um futuro seguro e estável depende do resultado de negociações de paz entre israelenses e palestinos."

Entre os ouvintes estava o primeiro-ministro Binyamin Netanyahu, que já se declarou contrário à criação imediata de um Estado palestino. Netanyahu apenas ouviu. Em negociações com o Vaticano, ficara decidido que apenas o presidente Shimon Peres falaria na chegada do papa. Peres, por sua vez, decidiu evitar abertamente falar de política. "Vejo sua visita à Terra Santa como uma importante missão espiritual", afirmou o presidente. "Uma missão com o objetivo de plantar sementes de tolerância e extirpar as ervas daninhas do fanatismo."

A transformação da peregrinação do papa numa viagem política era o temor de Israel. Os organizadores têm tentado evitar que sua passagem pela região se transforme numa bandeira palestina contra a ocupação da Cisjordânia e o bloqueio econômico à Faixa de Gaza. Mas a política permeia a viagem.

No último compromisso da agenda de Bento XVI, ontem, uma conferência inter-religiosa na Igreja Notre Dame, em Jerusalém Oriental, houve mal-estar quando o alto clérigo muçulmano Taissir al-Tamimi acusou Israel de "matar mulheres, crianças e idosos". O xeque sugeriu que cristãos e muçulmanos se unam contra o que chamou de "crimes do Estado judeu". O papa acabou se retirando da conferência por causa do discurso.

A visita de Bento XVI a Belém, amanhã, deve causar nova polêmica. Os palestinos queriam que o papa fizesse um discurso ao lado do muro da Cisjordânia. Mas o Vaticano mudou o local a pedido de Israel. O papa, porém, deve visitar um campo de refugiados palestinos.

HOLOCAUSTO

A visita que fez à tarde ao Museu do Holocausto era considerada pelos israelenses a mais importante de sua estada no país. O papa nasceu na Alemanha e, quando estudante, chegou a integrar a Juventude Hitlerista (o que era mandatório, na época). Bento XVI participou de uma cerimônia solene na chamada "Sala da Recordação", onde um candelabro fica aceso dia e noite em lembrança dos 6 milhões de judeus vítimas dos crimes nazistas.

Em breve discurso, o papa afirmou que os mortos não podem ser esquecidos, numa clara referência a quem insiste em negar o Holocausto. "Que os nomes da vítimas nunca desapareçam e seu sofrimento nunca seja negado, diminuído ou esquecido", afirmou Bento XVI. "A Igreja Católica nutre profunda compaixão pelas vítimas lembradas aqui", continuou o papa. Ele também condenou todo tipo de perseguição por raça, cor, condição social ou religião.

O presidente do Conselho do Museu do Holocausto, o rabino Israel Meir Lau, no entanto, disse ter ficado decepcionado com o discurso. Segundo ele, faltou um pedido de desculpas.

"Não houve menção a alemães ou a nazistas, nenhuma palavra de arrependimento." A expectativa de muitos israelenses era a de que Bento XVI condenasse com mais veemência os negadores do Holocausto, já que, recentemente, irritou muitos judeus ao revogar a excomunhão do bispo britânico Richard Williamson - para quem "só" 300 mil judeus morreram durante a 2ª Guerra e não havia câmaras de gás nos campos de extermínio nazistas.

Estadão

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