sábado, 9 de maio de 2009

Entrevista com deputado Sérgio Moraes, do PTB gaúcho

O deputado Sérgio Moraes, do PTB gaúcho, disse hoje ao UOL Notícias que não pretende se afastar da relatoria do caso do deputado Edmar Moreira (sem partido/MG), julgado na Comissão de Ética da Câmara por usar indevidamente a verba indenizatória, benefício de R$ 15 mil mensais que os parlamentares recebem para ressarcir custos como aluguel, escritório e viagens.

Moraes está sendo pressionado desde a última quarta-feira (6), quando "inocentou" Edmar da acusação de construir um castelo com dinheiro público. Nesse dia, disse que estava "se lixando" para a opinião pública, fala que causou grande repercussão na mídia e entre os próprios colegas no Congresso.

Conhecido no Rio Grande do Sul pela forma polêmica como faz política, Moraes foi vereador e prefeito duas vezes de Santa Cruz do Sul - sua base eleitoral no Estado - e deputado estadual por dois mandatos - entre 1997 e 2003. Desde 2007, é deputado federal com uma das maiores votações do Rio Grande do Sul. A deputada estadual Kelly Moraes, mulher do relator, foi eleita prefeita de Santa Cruz do Sul em 2008. Entre os principais orgulhos da carreira de Sérgio Moraes está o título de segunda melhor administração do país - congratulação conferida a ele pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, em 2000.

UOL Notícias: O senhor pretende deixar a relatoria do processo envolvendo o deputado Edmar Moreira, como pediu o corregedor ACM Neto?
Sérgio Moraes: De jeito nenhum. É muito nojento isso que o ACM Neto está fazendo. Ele não pode fazer isso. Não funciona assim, não há possibilidade regimental. Vou continuar e apresentar o relatório que eu bem entender. Se gostar, ele que deixe como está. Se não gostar, que rejeite em plenário. O que não pode é ficar fazendo o jogo da imprensa, que gostaria que eu jogasse o Edmar na fogueira. Quer dizer que ele vai trocar de relator sempre que não gostar das opiniões de quem vai relatar? Comigo não.

UOL Notícias: O senhor falou com o corregedor sobre isso?
Sérgio Moraes: Não falei e nem vou falar. O diploma de deputado dele é igual ao meu. Aliás, o meu é melhor: ele foi eleito nos braços do avô. Eu fui solito, só eu e Deus.

UOL Notícias: O senhor não teme as pressões que possa receber para se afastar do caso?
Sérgio Moraes: Não temo. Até porque ninguém queria ser relator desse processo porque sabia que era uma questão de honra para a imprensa condenar o Edmar. Quando fui nomeado, pensei: se seguir a minha consciência, vou ter problemas. Então fiz uma escolha: ou eu mentia ou suportava a barra. Optei pela minha consciência.

UOL Notícias: O senhor pode ser "convencido" por ACM Neto a largar a relatoria?
Sérgio Moraes: Ele não vai me constranger não, porque aqui no Rio Grande do Sul faz muito tempo que não existe mais coronel. Não vou permitir isso. Não tem possibilidade de eu ser convencido a abandonar o caso. Posso ser pendurado em praça pública que não mudo de posição. Não há hipótese de eu negociar a minha consciência.

"Eu estou me lixando", diz Moraes





UOL Notícias: O senhor pensou em arquivar o caso?
Sérgio Moraes: Nunca, em hipótese nenhuma. Como posso arquivar o processo se solicitei ao presidente [Michel] Temer que intimasse nove testemunhas para embasar a minha opinião? Não faz sentido. O primeiro a depor será o próprio Edmar, no dia 13 (quarta-feira).

UOL Notícias: A quem o senhor atribui a pressão que está recebendo?
Sérgio Moraes: Ao mesmo pessoal que derrubou o deputado Edmar Moreira da 2ª secretaria da Câmara em 48 horas. Estamos contra os interesses dessa elite que manda na Câmara.

UOL Notícias: Quem é essa elite?
Sérgio Moraes: São os mesmos que estão descontentes com a minha posição. O ideal era atirar o deputado Edmar no fogo. Aí eu receberia tapinhas nas costas, congratulações. Mas eu não faço esse tipo de jogo, não.

UOL Notícias: O presidente Michel Temer faz parte dessa elite?
Sérgio Moraes: Não. O Temer é outra vítima, está acuado. Esse apanha bastante da imprensa também.

UOL Notícias: Mas então quem é essa elite?
Sérgio Moraes: Não vou falar em nomes. Leia os jornais.

UOL Notícias: Quem mais o senhor vai ouvir no caso?
Sérgio Moraes: Estou convocando os deputados Osmar Serraglio (PMDB/PR), Inocêncio de Oliveira (PR/PE) e Rafael Guerra (PSDB/MG). Eles foram os três últimos secretários da Câmara. Quero saber qual era a norma da Casa sobre a verba indenizatória. As notas fiscais de empresas das quais os deputados eram sócios estavam, de fato, proibidas? Se estavam e foram apresentadas, já teremos uma primeira infração. Mas, se estavam proibidas, por que não foram devolvidas? Por que o processo não foi barrado? Quero ouvir também o suposto chefe da segurança do deputado Edmar Moreira, para saber se o dinheiro que ele alega ter pago não foi para o seu bolso.

UOL Notícias: Quantos processos existem no STF contra o senhor?
Sérgio Moraes: Dois. Um se refere a um concurso público feito pela administração anterior à minha em Santa Cruz do Sul [base eleitoral de Sérgio Moraes]. O concurso foi anulado pelo Tribunal de Contas do Estado (TCE) e eu recebi a prefeitura sem médicos nem enfermeiros. Convoquei a Câmara de Vereadores, em 1997, e ela autorizou a contratação emergencial de 20 funcionários. Mas um promotor achou que não deveria e me processou. Já tenho parecer favorável do Ministério Público no caso.

UOL Notícias: E o outro?
Sérgio Moraes: O outro se refere a um telefone público que supostamente foi instalado na minha casa. Isso é uma mentira ridícula, pois o telefone era um serviço da prefeitura às comunidades rurais. Foi instalado no antigo armazém de meu pai, que morreu em 1999. O armazém não é da família há 18 anos. Quem instalou foi o prefeito Armando Winck, há mais de 20 anos. Deve estar lá até hoje. O meu pai controlava as ligações feitas pela comunidade e depois repassava o valor pago à prefeitura. Muitas vezes faltou dinheiro para cobrir os custos, que meu pai completou com dinheiro do próprio bolso. Deviam nos agradecer.

UOL Notícias: Desse telefone é que foram registradas ligações para centrais de pornografia?
Sérgio Moraes: Sim. Mas como é que o meu pai, um homem velho, ia ficar controlando para quem as pessoas ligavam? Ele nem sabia que esse tipo de coisa existia. É uma distorção violenta da imprensa. A tese é essa: ou tu vem ou nós te demolimos. Dizem que há seis, sete processos contra mim. Mentira. Nos dois casos, os pareceres são favoráveis a mim. O resto é invenção. É delírio da imprensa.

UOL Notícias: O senhor se sente um representante do baixo clero?
Sérgio Moraes: Claro. Tenho certeza de que represento. Sei que deixei a elite da Câmara um pouco preocupada. Decerto porque estão acostumados a tocar a música para os outros dançarem. Tenho 30 anos de mandato e não comungo com coisas nojentas e podres. Não vou dançar a música de ninguém.

UOL

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