domingo, 24 de maio de 2009

Entrevista com Hosmany Ramos


O cirurgião plástico Hosmany Ramos não gosta de ouvir, mas o enredo de sua vida é muito mais intrigante do que o de "O Goleador-Morte e Corrupção no Futebol", romance policial que chega às livrarias na semana que vem e no qual ele conta a história do assassinato de um cartola do futebol.

No livro, a principal suspeita do crime é uma alpinista social --linda e sedutora--, centro de um triângulo amoroso que envolve o cartola e uma estrela do futebol, Rony Lee. Este, a dada altura, é surpreendido com um garoto de programa, no carro.

"Qualquer semelhança é mera coincidência: o próprio craque [Ronaldo] foi parar em um motel com três travestis", afirma Hosmany, que, em óbvias alusões à vida real, batizou um dos figurões do futebol de Richard Peixeira e chamou um banqueiro de Henrique Salles.

Foragido desde janeiro, quando deixou a cadeia para passar o Natal com a família e não voltou, Hosmany, 61, foi condenado a 47 anos de prisão por homicídio, roubo de joias e carros, tráfico e contrabando.

Em entrevista por Skype, o médico diz que está "em Paris". A Folha apurou que, na verdade, ele passa temporada na casa do filho, Erik, na Noruega.

Diz que vive na Europa com o dinheiro dos direitos autorais de seus livros (o último, "Delitos Obsessivos", de 2005, vendeu 34 mil exemplares).

*

FOLHA - Perto do enredo da sua vida, a trama do livro é quase infantil. Acha mais fácil viver no crime do que escrever um romance policial?

HOSMANY RAMOS - Como você sabe, eu não vivo no crime, eu escrevo livros. O crime é coisa do passado. É preciso separar o joio do trigo, coisa que jornalista não faz. Fica misturando as estações, "Ah, é crime, é crime".

FOLHA - O crime é "coisa do passado" na sua cabeça: o sr. é foragido.
HOSMANY - Presta atenção: esse lance de foragido é algo discutível. A Justiça brasileira é tão irresponsável... Eu li na Folha que a advogada da [Suzane von] Richthofen ganhou não sei quantos anos de remissão de pena. Tô há mais de dez anos solicitando remissão, mas eles não consideram trabalho escrever livros. Já cumpri minha pena [está preso desde 1981, com intervalo de uma fuga, em 1996, quando se envolveu em um sequestro e voltou]; saí agora pois tinha problemas de saúde e o atendimento médico era precário: ou saía, ou ia morrer.

FOLHA - O sr. e muitos outros?
HOSMANY - [Como se não tivesse ouvido] Então, eu vou te diz...

FOLHA -...A solução, então, é todo mundo abandonar a prisão...
HOSMANY - Você leva pra esse lado, mas a prisão não te dá condições. Eu, graças a Deus, fui aceito pelos meus livros e pude reconstruir minha vida.

FOLHA - No livro o sr. aborda temas como bissexualismo, pedofilia e adultério. Tem experiência em alguma dessas práticas?
HOSMANY - É um livro...mas, se você for ver o próprio craque [Ronaldo], foi parar em um motel com três travestis.

FOLHA - Atualmente o sr. namora, transa com quem?
HOSMANY - Tô refazendo minha vida sem pressa. Vai acontecer na hora certa. Não estou aposentado nesse sentido.

FOLHA - O sr. viveu bem o desbunde dos anos 70 no Rio. Usou aquelas referências no livro?
HOSMANY - Quando você escreve procura conduzir o leitor da primeira à última página, senão, fica chato. Você pega o livro do Paulo Coelho, "As Valquírias", não consegue passar da oitava página.

FOLHA - O sr. pensa em ficar rico com livros?
HOSMANY - Todos nós escrevemos para dar vazão a essa parte intelectual interior. Mas, se dá pra atingir uma boa vendagem, isso é bem vindo.

FOLHA - Quanto tempo o sr. levou pra concluir o livro?
HOSMANY - Ele está na minha cabeça desde a Copa de 98. Tínhamos o melhor time, o Ronaldo estava na melhor fase, excelente forma física, e aconteceu aquilo. Não foi por acaso. A França era a dona do estádio, precisava ganhar pra deslanchar o crescimento do esporte lá. Isso tudo leva uma mente fértil a imaginar que aconteceu uma maracutaia.

FOLHA - Pretende continuar a exercer a medicina. Ainda pode exercer?
HOSMANY - Claro que posso. Tanto que eu exerci dentro do sistema penal. Na rebelião de Araraquara, quando havia 1.600 presos, tratei de muitos deles. Continuo médico, não perdi meu diploma [o CRM diz que Hosmany não foi cassado, mas seu registro foi cancelado, o que significa que ele pode voltar a exercer a profissão desde que atualize os papéis]. Mas agora eu tô acreditando muito nessa possibilidade literária.

FOLHA - Isso vai ser suficiente para o seu sustento em Paris?
HOSMANY - Escuta, você sabe quantos livros eu tenho? Dois de grande vendagem na Gallimard e quatro na Geração.

FOLHA - Vendeu quanto?
HOSMANY - É investigação policial ou matéria? [A editora diz que "O Goleador" recebeu encomendas de 6.000 exemplares]. Você faz perguntas que não têm a ver com o livro. As pessoas querem saber do livro.

FOLHA - Sua história provoca mais curiosidade.
HOSMANY - Não quero mais dar entrevistas para pessoas despreparadas que me espremem na parede e descambam para o sensacionalismo barato.

FOLHA - O sr. saiu do Brasil em um indulto de Natal e não voltou. Isso estava planejado?
HOSMANY - Vivia sem segurança [na cadeia]. Agora, estou perto do fim da minha caminhada, não vou morrer de graça.

FOLHA - Como saiu do país?
HOSMANY - Peguei um veleiro até a Ilha do Diabo, depois, outro até Portugal [a Folha apurou que ele saiu direto para a França, de avião, com um passaporte falso]. Fiquei quase dois meses nessa viagem.

FOLHA - Sabe velejar?
HOSMANY - Não [impaciente]. As pessoas [a tripulação] precisam de médicos em uma empreitada assim.

FOLHA - E o passaporte?
HOSMANY - Não tenho. Cheguei em Portugal, desci lá, fui até a Espanha de carona, depois até a França sem nenhum papel.

FOLHA - Como o sr. passou de um país para outro?
HOSMANY - Ahá, você passa hôhô. Pela estrada é fácil.

FOLHA - Mas tem a imigração...
HOSMANY - Determinadas horas dá pra passar....Bem, mas agora vou terminar essa temporadinha na França e vou prum outro país, tentar ver se consigo reabertura do meu caso num tribunal internacional e mandar uma carta pro Lula, explicando minha situação para ele ver que estou trabalhando honestamente, que não quero voltar pra cadeia em São Paulo, a cadeia do José Serra [governador de São Paulo], para amanhã morrer de graça.

FOLHA - O sr. mantém contato com a alta sociedade carioca?
HOSMANY - Não estou nem interessado nisso. Olha, acabou, não tenho mais nada a dizer...

FOLHA - Há um tempo o sr. disse que iria fazer um curso de explosivos no IRA?
HOSMANY - Pelo amor de Deus, se põe numa posição decente, você tá fazendo uma entrevista intelectual. O IRA nem existe mais, você deveria saber...

FOLHA - Foi o sr. quem disse. De repente conseguiu outro organismo...
HOSMANY - Olha, você me desculpe, mas o que eu poderia falar com você já acabou...


FOLHA de São Paulo

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