quarta-feira, 20 de maio de 2009

Entrevista: Eduardo Paes

"Eu faço parte de uma geração de cariocas que não conheceu o Rio como Cidade Maravilhosa"


"Chega de demagogia"

O prefeito do Rio de Janeiro, que decretou um "choque
de ordem" na cidade, diz que o romantismo social e o jeito
de ser do carioca resultaram em bagunça e deterioração


Ronaldo Soares




Desde janeiro, quando tomou posse, o prefeito do Rio, Eduardo Paes, de 39 anos, vem comprando brigas pesadas. Mandou derrubar construções irregulares em favelas e na Zona Sul da cidade, tirou camelôs das ruas, declarou guerra sem trégua aos motoristas que estacionam o carro sobre a calçada. Em relação às favelas, teve a coragem de devolver ao rol das soluções possíveis a palavra "remoção", banida do vocabulário dos governantes cariocas desde os anos 1960. A esse conjunto de iniciativas, deu o nome de "choque de ordem", com clara inspiração na política que fez reviver Nova York nos 90. "Para recuperar o Rio Cidade Maravilhosa, é preciso quebrar paradigmas", diz Paes. O prefeito recebeu VEJA em seu gabinete no Palácio da Cidade para a seguinte entrevista.

Como o Rio de Janeiro chegou a esse estado em que a principal palavra de ordem do prefeito é "choque de ordem"? Por um longo período, vivemos uma espécie de romantismo social. Em nome de resolver determinadas questões, a política fluminense foi aceitando a convivência com a irregularidade, com a ilegalidade. Mas o que era apresentado como alternativa para os mais pobres foi descambando para a marginalidade. A desordem no Rio de Janeiro passou a ser endêmica, e hoje se manifesta das mais variadas formas. Os ricos jogam lixo pela janela e param o carro no lugar errado; e o boteco faz sua varanda avançar sobre a calçada. Nas camadas mais pobres da população, a desordem se manifesta ainda mais intensamente, até porque é justificada pela demagogia geral. A favela tornou-se, assim, um símbolo desse jogo de conivência, do "tudo pode" no Rio.

Esse "tudo pode" é determinado também pelo jeito de ser do carioca? Sem dúvida. Essa coisa da espontaneidade do carioca, do seu jeito de ser, da malandragem cantada em prosa e verso, também acaba servindo ao "tudo pode". Em nome de um certo carioquismo, cometeram-se equívocos e abusos. A cidade está maltratada tanto pelo romantismo social das autoridades como pelo que se convencionou chamar de "jeitão do carioca". O resultado é a desordem, o caos urbano. Adoro samba, toco na bateria da Portela, gosto de chope, de boteco, de praia. Mas dá para a gente ter preocupação social e ser carioca sem mergulhar na desordem e sem perder a alegria típica da nossa cidade.

Os cariocas apoiam o choque de ordem? É claro que existem aquelas pessoas que resistem, alegando que o problema não é delas, e sim dos outros. O sujeito aplaude a demolição da varanda do bar que invadiu a calçada e, no entanto, fica revoltado se for multado por ter estacionado o carro em cima da mesma calçada. Mas, no geral, a população está entendendo bem o recado. Acho que todos começam a entender que a cidade já perdeu tempo demais com demagogia. O choque de ordem não demoliu nenhuma casa de pobre até agora. O que tiramos foi casa de malandro que se utiliza do pobre para ganhar dinheiro. Aquele episódio do Minhocão, um prédio com mais de vinte apartamentos na Rocinha, mostrou isso. O alvo não era uma favelada coitadinha. Era um empresário dono de restaurante no asfalto, que se utilizava da favelada para ganhar dinheiro, não pagar imposto e desrespeitar a cidade. Estamos indo em cima desses agiotas da miséria – entre eles, os donos de depósitos que controlam o comércio ambulante. Esses sujeitos são, na verdade, atacadistas que não querem pagar impostos. O que explica aparecer de repente, nos cruzamentos da cidade, um monte de gente vendendo a mesma marca de chocolate? Será que todos resolveram comprar juntos? Não. Na melhor das hipóteses, tem um sujeito que compra, distribui e explora aqueles vendedores. Na pior, esse cara distribui carga roubada. Então, não dá para entender por que se tornou um tabu cadastrar esses comerciantes e reprimir quem não tiver licença.

A remoção de favelas é outro tabu que o senhor diz estar disposto a enfrentar. Estigmatizar a remoção é uma irresponsabilidade. Em 1996, quando eu era subprefeito (da Barra da Tijuca), havia uma favela no Itanhangá em área de altíssimo risco. A prefeitura tinha construído casas em outro lugar para as pessoas saírem de lá, mas, quando tudo estava certo para a remoção, entraram em cena Ministério Público, Defensoria Pública etc., que obtiveram uma liminar para manter os moradores no local. Pois bem, em seguida, ocorreu uma chuva forte e quarenta pessoas morreram. Evidentemente, não apareceu ninguém – nem MP, nem Defensoria, nem político, nem demagogo algum de plantão – para falar sobre a tragédia. Não existe um plano de sair removendo favelas. Aquelas que já estão consolidadas precisam de ações para melhorar a qualidade de vida de quem mora ali, e elas serão feitas. Mas há situações em que a alternativa da remoção pode e deve ser discutida.

Quais são elas? Existem hoje 1 000 favelas na cidade. A grande maioria delas é muito pequena e, nesse universo, há, sim, casos em que a remoção é uma solução. Sempre que ela for possível, as pessoas sairão ganhando em matéria de moradia. E também a cidade, porque se impedirá que aquela favela cresça até chegar a uma dimensão impossível de administrar.

Para onde os moradores dessas favelas seriam removidos? O ideal é formar pequenos núcleos habitacionais distribuídos pela cidade, em vez de levar as pessoas para áreas enormes, muito distantes e sem infraestrutura. No passado, remoção significou a criação de Vila Kennedy e Cidade de Deus, dois péssimos exemplos de conjuntos habitacionais gigantescos surgidos a partir de remoções – e que acabaram por se tornar áreas favelizadas e com altas taxas de criminalidade. Não vou jogar ninguém em lugares assim. Há regiões dentro da cidade que oferecem boas alternativas.

Quais? O subúrbio, por exemplo, que tem linha de trem, metrô, hospital, escola, rua asfaltada, água, esgoto e luz. Os moradores dessas regiões reclamam que ali só há intervenções para melhorar as favelas e que o bairro em si está completamente abandonado. É verdade. O subúrbio, que já foi o símbolo de um Rio pujante, se deteriorou. Ali, a lógica do processo está invertida: áreas degradadas, como as favelas, vão ocupando e destruindo o tecido urbano consolidado. Meu sonho como prefeito é inverter esse fluxo, investir nos bairros e fazer com que a lógica da cidade formal passe a influenciar as áreas onde a favela avançou, possibilitando que haja um adensamento populacional civilizado.

A favelização também está ligada à decadência econômica da cidade. De que o Rio depende para voltar a ser atraente para investidores? Depende de providências como a redução da carga tributária e da burocracia, por exemplo, que em qualquer lugar do mundo são importantes para a construção de um bom ambiente de negócios. Mas também depende de investir no ambiente físico. O economista José Márcio Camargo tem uma tese que ilustra bem isso. O ambiente, no Rio, é um ativo econômico. As empresas e as famílias decidem investir ou morar na cidade também por causa de sua beleza. A vocação econômica carioca tem relação direta com o fato de a cidade ser agradável, e isso inclui a preservação do seu patrimônio ecológico e a restauração da ordem.

E que vocação econômica o senhor enxerga no Rio? Nossa meta é que o Rio tenha um papel de cidade global do Cone Sul. Ou seja, que se torne um centro de tomada de decisões, como sede de grandes empresas. Para que atinjamos esse objetivo, o Rio precisa aprimorar sua rede de comunicações e de transporte e firmar-se como um centro difusor de conhecimento no Brasil e na América do Sul. Aqui estão o Cenpes (Centro de Pesquisas e Desenvolvimento da Petrobras), o Impa (Instituto Nacional de Matemática Pura e Aplicada), a Fundação Getulio Vargas, algumas das melhores universidades brasileiras, a Academia Brasileira de Letras... Quero que o Rio seja a cidade dos pós-graduados, dos doutores. Outro aspecto é investir em atividades econômicas que respondem hoje por uma parcela importante do PIB mundial: entretenimento, turismo, lazer, cultura, moda, design e esporte.



Como atingir essa meta? O que estamos fazendo neste momento está um grau acima do choque de gestão feito pelo Aécio Neves em Minas Gerais. Estamos trabalhando no choque de resultados. Temos a exata noção do que queremos para o Rio, dos setores que vamos priorizar para recuperar a cidade. Partimos do seguinte pressuposto: aqui ninguém olha para o passado. Deixamos de ser capital federal, não nos deram nada? Que pena. A fusão foi ruim para o Rio, ruim para a Guanabara? Que pena. Mas não vamos mais perder tempo com essas discussões. O importante é saber o que se pode fazer daqui por diante para melhorar. Eu faço parte de uma geração de cariocas que não conheceu o Rio como Cidade Maravilhosa. Sou de uma geração que, quando começou a sair à noite, deixava os pais apavorados em casa. Quando me formei em direito na PUC, meus amigos já estavam indo trabalhar em São Paulo. Meu irmão, que é meu melhor amigo, mora em São Paulo. Por isso sei que, para recuperar o Rio Cidade Maravilhosa, é preciso quebrar paradigmas.

Em que cidades o senhor se inspira em seus planos de revitalização do Rio? Há um conjunto de práticas que podem ser usadas como exemplos: Nova York, o caso de maior sucesso no mundo no restabelecimento da ordem urbana; Bogotá, que superou o problema da criminalidade extrema; e Barcelona, que aproveitou de maneira extraordinária a oportunidade dos Jogos Olímpicos de 1992.

Caso o Rio sedie a Olimpíada de 2016, o senhor acredita que a cidade será tão beneficiada quanto Barcelona? A Olimpíada seria uma redenção para o Rio. Garantiria um total de investimentos capaz de redesenhar a cidade. Além disso, eu diria que os Jogos seriam uma chance de mudar a relação do Brasil com o Rio de Janeiro. Como já disse, não quero ficar reclamando do passado. Mas é inegável que o Brasil abandonou o Rio quando a capital foi transferida para Brasília. Bem diferente do que aconteceu na Alemanha quando Berlim voltou a ser a capital do país. A lei da transferência implicou a criação de alternativas para Bonn. Os primeiros artigos trataram de garantir que a ex-capital não viraria um deserto. Só no artigo quinto se fala na mudança da capital para Berlim. Aqui, não. O Rio era capital da República, centro do poder, a cidade gravitava em torno disso – e, de uma hora para outra, tudo isso foi para Brasília, sem nenhuma preocupação com o destino do Rio.

De que forma os problemas de segurança pública atrapalham esse esforço de revitalizar a cidade? Chegamos a um ponto em que até aquele vidro ali (apontando para uma janela em seu gabinete) precisou ser blindado. Foi o Luiz Paulo Conde quem o blindou quando era prefeito (de 1997 a 2000), para não levar um tiro na nuca, já que o Morro Dona Marta fica aqui atrás. O governador Sérgio Cabral está sendo rigoroso no combate ao tráfico de drogas. E a prefeitura é parceira do governador nesse combate, o que não ocorria antes. Cenas como as que se viram recentemente em Copacabana, com tiroteios à luz do dia, são um horror. Mas fazem parte do esforço de acabar com o poder paralelo que o tráfico instalou aqui. Quando era subprefeito, fui ao Complexo da Maré com dois secretários municipais. Apareceu um sujeito vestido de Rambo e disse que queria uma casa. A gente teve de ficar quarenta minutos negociando com o Rambo nossa saída da favela. Em campanhas, ao entrar em favelas, várias vezes tive de lidar com a "normalidade" de encontrar homens armados até os dentes. Isso não é normal, não. E eu tenho hoje a chance de contribuir para que meus filhos não vivam uma situação semelhante.


Revista Veja , ed 2113

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