terça-feira, 5 de maio de 2009

Irã viu hostilidade em reação do Brasil a discurso na ONU - Somos tão ardidos assim?


Jamil Chade


O mal-estar diplomático entre Brasil e Irã ficou claro durante a cúpula contra o racismo mantida no mês passado, em Genebra, depois de a delegação brasileira ter emitido uma nota na qual repudiava o discurso do presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, feito na abertura do evento - no qual ele acusou Israel de ser uma "entidade racista", questionou o Holocausto, o Ocidente e os EUA.

POTÊNCIAS OCIDENTAIS

Depois da nota em que o Itamaraty afirmou discordar das posições de Ahmadinejad, a diplomacia iraniana acusou o Brasil de "ceder à pressão das potências ocidentais". "Não promovemos o ódio, não citamos nenhum país nem acusamos ninguém", afirmou Hussein Rezvani, um dos principais negociadores da chancelaria iraniana. "Os comentários (da missão brasileira) não são um bom sinal diante da visita (de Ahmadinejad)", disse.

A cúpula deixou clara a dificuldade dos diplomatas estrangeiros em moderar a retórica de Ahmadinejad. Há duas semanas, o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon o qualificou de "imprevisível". Ban se surpreendeu com o discurso de abertura da conferência de Genebra. Naquele mesmo dia, o sul-coreano havia se reunido com Ahmadinejad por 75 minutos, para pedir a ele que mantivesse a moderação. O iraniano prometeu que seguiria a orientação.

Uma hora depois, ao subir no pódio, Ahmadinejad tomou um caminho totalmente contrário. O discurso, em uma conferência que deveria promover a tolerância, foi duramente criticado por governos em todo o mundo. Ban ainda abandonou sua diplomacia habitual e emitiu um comunicado criticando o iraniano por estar promovendo o ódio. Mais tarde, afirmou a jornalistas que ficou muito surpreso com o comportamento de Ahmadinejad.

Mas a América Latina ainda está dividida em relação ao episódio. Cuba reuniu-se com a cúpula da ONU para criticar a entidade pela forma como Ahmadinejad foi tratado. República Dominicana, Venezuela, Bolívia e outros países também aderiram à queixa.

CRÍTICAS

Teerã ainda enviou uma resposta a Ban, criticando seus comentários. "É lamentável que o direito à liberdade de expressão seja definido de forma tão errada por alguns, no interesse de mascarar as realidades amargas dos muçulmanos", disse. Na carta, o governo aponta que Ban violou o principio da imparcialidade que os secretários-gerais devem assumir.

VAIVÉM DIPLOMÁTICO

1.º de novembro - Presidente Lula convida Ahmadinejad para visitar o Brasil

20 de abril - Em discurso na Conferência sobre Racismo da ONU, presidente iraniano questiona o Holocausto, critica o Ocidente e ataca Israel

21 de abril - Itamaraty divulga nota desaprovando o discurso de Ahmadinejad, mas evita citar nominalmente o Irã. As críticas mais duras vêm de funcionários do governo brasileiro. O ministro da Igualdade Racial, Edson Santos, diz que "condena veementemente a posição do Irã", enquanto a embaixadora do Brasil na ONU, Maria Nazareth Farani Azevedo, diz que a ONU não deve ser "palco para a intolerância"

22 de abril - O embaixador do Irã nas Nações Unidas, Ali Reza Moaiyeri, qualifica de "lamentável" a posição do Brasil. Para ele, a reação brasileira "é produto da pressão das potências ocidentais"

30 de abril - O chanceler brasileiro, Celso Amorim, diz que a visita do presidente iraniano ao Brasil é uma oportunidade para um diálogo franco sobre pontos de vista divergentes a respeito da questão racial e do conflito no Oriente Médio

Estadão online

Nenhum comentário: