domingo, 10 de maio de 2009

Kirchner volta para salvar Cristina


Ex-presidente argentino lança candidatura a deputado para puxar votos e tentar garantir maioria governista no Congresso

Ariel Palacios


O ex-presidente argentino Néstor Kirchner confirmou ontem que concorrerá a deputado nas eleições parlamentares de 28 de junho, nas quais serão renovadas metade das cadeiras da Câmara dos Deputados e um terço do Senado, informou a agência de notícias Reuters. De acordo com a imprensa local, Kirchner teria entre seus companheiros de chapa o popular governador de Buenos Aires, Daniel Scioli, entre outros. Com a popularidade em queda livre e um governo marcado por confrontos com o setor agropecuário e a influente classe média, a presidente argentina Cristina Kirchner convocou o marido para evitar o que parece inevitável: o naufrágio do Partido Justicialista (peronista, do governo) nas votações.

Kirchner, considerado a eminência parda do governo de Cristina (embora não ocupe cargo na atual administração), incendiou a campanha ao deixar vazar que será candidato a deputado. Para atrair votos para o governo, ele convocou artistas para integrar sua lista de candidatos e tratou de transformar as eleições num plebiscito sobre o casal Kirchner.

"Os argentinos devem escolher: ou aprofundamos as mudanças realizadas pela presidente Cristina ou voltamos ao inferno da crise de 2001", afirmou Kirchner na semana passada, em tom apocalíptico.

Há muito mais em jogo nessas eleições para o casal Kirchner, além do risco de perder a frágil maioria governista na Câmara de Deputados e no Senado. "Se perder, Cristina terá de governar com um Congresso opositor, ou seja, será obrigada a negociar e a dialogar, algo que ela e o marido nunca fizeram", disse ao Estado a socióloga Graciela Römer. Essa possibilidade explica o discurso agressivo de Kirchner. Há alguns dias, ele advertiu que "o país vai explodir se Cristina não contar com maioria parlamentar". "Vai explodir, sim, mas de alegria", rebateu Maurício Macri, prefeito de Buenos Aires e um dos líderes da oposição.

Um levantamento da consultoria Management & Fit indica que 55% dos entrevistados pretendem votar nos partidos da oposição e apenas 25% se dizem dispostos a apoiar candidatos do governo. Os 20% restantes estão indecisos.

A ironia é que o casal Kirchner mobilizou a base aliada no Congresso para antecipar as eleições, inicialmente previstas para outubro, porque temia o desgaste do governo por causa da crise econômica (leia na página seguinte).

Diante desse quadro sombrio, não causa surpresa a candidatura de Kirchner. Embora tenha feito toda sua carreira política na Província de Santa Cruz, na Patagônia, o ex-presidente deveria sair candidato pela Província de Buenos Aires. "Para os Kirchner é crucial colocar suas principais forças na Província de Buenos Aires, que concentra 38% do eleitorado nacional", afirmou o analista político Silvio Santamarina, do jornal Crítica. Em entrevista na quinta-feira à emissora de TV Telefé, Kirchner fez mistério sobre sua candidatura. O objetivo era manter o suspense até o prazo final de apresentação das listas, que venceu à meia-noite de ontem, para evitar eventuais pedidos de impugnação.

A oposição afirma que Kirchner não poderia concorrer fora de seu domicílio eleitoral, Santa Cruz. O ex-presidente, porém, alega que mora em Buenos Aires, mais precisamente na residência oficial de Olivos, há seis anos.

CANDIDATO VIRTUAL

A estratégia da Casa Rosada para abocanhar votos inclui ainda duas novidades: o lançamento de artistas como candidatos (entre eles a atriz e cantora Nacha Guevara, estrela do musical Evita) e de políticos famosos para as chamadas "candidaturas virtuais" - se vencer, o candidato a deputado ou senador simplesmente abre mão da cadeira. É o caso de Scioli.

A oposição também está lançando seus principais líderes para enfrentar o governo. Elisa Carrió, da Coalizão Cívica, será candidata a deputada na cidade de Buenos Aires. Ela fez aliança com a União Cívica Radical (UCR), que terá Ricardo Alfonsín - filho do ex-presidente Raúl Alfonsín, morto há um mês - como principal candidato na Província de Buenos Aires.

A centro-direita também conseguiu, a duras penas, formar uma aliança entre o Proposta Republicana (PRO), de Macri, e forças do peronismo dissidente, lideradas pelo ex-presidente Eduardo Duhalde.

PRESIDENTE EM APUROS

80% de rejeição é essa a porcentagem dos argentinos que avaliam negativamente a presidente nas maiores cidades do país

55% dos argentinos entrevistados pela Management & Fit dizem que votarão na oposição

Estadão

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