sexta-feira, 22 de maio de 2009

O Diagnóstico precoce da Crise Mundial: Dr. Apocalypse.

Nouriel Roubini, o Dr. Apocalipse, que previu a crise financeira mundial
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O economista Nouriel Roubini criticou nesta sexta-feira, em seminário em São Paulo com a presença do ministro Guido Mantega (Fazenda), o excesso de otimismo no Brasil sobre a crise. "Notei que parte do otimismo no Brasil tem relação com a China, e isso parece ser injustificado, porque a China está exportando menos e tem excesso de investimento em produção, que já está saturada", afirmou.

"As coisas melhoram para os que concentram dois terços do PIB global [os países ricos], mas onde alguns veem um sinal verde, eu vejo um sinal amarelo. Afinal esses dois terços estão em recessão, e os emergentes estão em pouso forçado."

As declarações foram feitas durante o seminário "O Brasil e a Crise Econômica Mundial", promovido pela revista "Carta Capital".

Participam também do encontro os economistas Luiz Gonzaga Belluzzo e Delfim Netto, além do senador Aloizio Mercadante (PT-SP). A proposta é ver se as previsões catastróficas de Roubini se aplicam também ao futuro da economia brasileira.

A participação de Mantega não estava prevista originalmente, mas ele mudou sua agenda.

O ministro disse que a crise ainda não acabou, mas há mais confiança. "Percebemos uma melhora, uma recomposição do crédito. Porém isso não significa que a crise acabou, e sim que a confiança está voltando antes que todos os problemas tenham sido resolvidos."

Mantega discordou de uma das teses de Roubini, sem citar diretamente o economista. O ministro da Fazenda disse que a recuperação no Brasil será em forma de "V", não de "U".

Em "V", significa que a forte queda é seguida de uma rápida recuperação. Em "U", ocorre uma queda, e a recessão é prolongada, antes da volta ao crescimento.

Para Mantega, a economia brasileira deve crescer de 4% a 5% já em 2010 por conta dessa recuperação ligeira, em "V".

O ministro também criticou a desvalorização do dólar verificada nos últimos dias. "Isso atrapalha os setores produtivos, os exportadores e a agricultura."

As previsões de Roubini
Guru da crise, Dr. Apocalipse ou Cassandra (referência à profetisa desacreditada da mitologia grega). Todos esses apelidos servem para descrever o professor Nouriel Roubini, um dos raros economistas a antecipar a atual crise mundial.

Há cerca de quatro anos, quando os mercados se empolgavam com negociações em cifras inimagináveis até então, Roubini afirmou que os preços das moradias nos Estados Unidos estavam em uma espiral especulativa que acabaria afundando a economia global.

Ridicularizado na época por suas opiniões sobre o setor imobiliário, também porque os críticos se lembravam de seus prognósticos errados, ele foi ainda mais veemente nos comentários, o que acabou fazendo desse professor de 50 anos uma espécie de dono do monopólio dos alertas pré-crise.

Professor da Universidade de Nova York e economista-chefe do site de serviços financeiros RGE Monitor, um dos poucos na Internet que ganhou muito dinheiro com a turbulência financeira, Roubini já declarou que o crescimento do PIB do Brasil neste ano deve ficar em torno de zero, acompanhando em grande parte as expectativas do mercado.
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"Poderemos ter uma depressão global"

Economista que previu crise diz que sistema financeiro precisa mudar para evitar "derretimento total"

SÉRGIO DÁVILA
DE WASHINGTON

Na segunda-feira, Nouriel Roubini escreveu que o governo norte-americano deveria organizar um corte coordenado de juros nas principais economias mundiais e o Federal Reserve, o banco central do país, tinha de fazer empréstimos de curto prazo diretamente para as empresas. Na terça e na quarta, as duas medidas foram anunciadas. Você sabe que a crise é realmente grave quando um economista conhecido pelo apelido de "Sr. Apocalipse" começa a ser ouvido pela Casa Branca.
Profissional do meio que mais acertos fez em relação à crise atual, Roubini falou à Folha por telefone na tarde de anteontem. Sotaque de mafioso de filme B de Hollywood -filho de judeus iranianos, nasceu na Turquia, morou na Itália e vive em Nova York-, disse que toureava 300 pedidos de entrevista que chegaram apenas naquele dia. Ele acha que o mundo corre o risco de uma depressão, e o Brasil, de crescer menos de 3% (leia texto nesta página). Leia trechos da entrevista.

FOLHA - Depois de os 12 passos que o sr. previu em fevereiro para a crise atual se cumprirem, o que podemos esperar para o 13º?
NOURIEL ROUBINI - Bem, há duas opções. Ou promovemos uma mudança radical no sistema financeiro para evitar o derretimento completo, que é a coisa certa a fazer, ou esse sistema sofrerá colapso nos Estados Unidos, na Europa e em outros países. E poderemos ter uma depressão global.

FOLHA - O sr. vê contágio no setor corporativo?
ROUBINI - Já começa a acontecer aqui nos EUA. Em geral, com algumas exceções, as companhias americanas não estavam tão expostas ao papéis tóxicos hipotecários. Ainda assim, nas últimas semanas, diminuiu drasticamente o acesso a crédito das empresas aqui no país, mesmo companhias avaliadas pelas agências de risco como AAA.
Com o mercado de papéis comerciais [letras de câmbio não-garantidas] praticamente interrompido e os empréstimos bancários caríssimos, não há dinheiro para que elas cumpram as obrigações do dia-a-dia. Se nem essas estão tendo acesso, imagine as que têm avaliação pior. Se isso se agravar no setor corporativo, todo o sistema pára, começaremos a ver quebras de empresas incapazes de honrar seus compromissos de curto prazo. Na minha opinião, já estamos no ponto de crise grave também aqui.

FOLHA - Isso leva à minha próxima pergunta. O sr. escreveu na última segunda um artigo em que pedia um corte coordenado de juros nas principais economias mundiais e que o Federal Reserve emprestasse diretamente para as empresas. Nos dias seguintes, as duas medidas foram anunciadas. Coincidência, é claro, mas o sr. acha que alguém no governo finalmente começou a ler suas colunas?
ROUBINI - Eu sei que eles ouvem de fato, porque muitos deles me ligam e dizem isso. As decisões foram corretas e vão na direção certa, mas não são suficientes, muito mais tem de ser feito. Se você ler o meu artigo, eu pedia duas outras ações, que o Fed garanta que vai prover liquidez no caso de uma corrida generalizada aos bancos e que aumente sua ação para prover liquidez de curto prazo a atores não-bancários que emprestam a corporações. A primeira eu não sei quando vai acontecer, a segunda já estamos vendo aos poucos.
Outro aspecto que eu não escrevi mas que acho necessário é um programa de expansão fiscal do governo nos moldes dos da Grande Depressão, porque a demanda privada e o consumo estão sofrendo colapso, então serão necessários gastos governamentais em infra-estrutura nos níveis municipal, estadual e federal. Precisamos revisar o Plano Paulson também para que aja efetivamente nos setores imobiliário e no sistema bancário. Resumindo, ainda falta fazer muito.

FOLHA - O sr. pinta um quadro excessivamente grave. A situação é tão ruim assim?
ROUBINI - Sim, na última semana ou dez dias, o sistema financeiro inteiro parou de funcionar, não há mais empréstimos interbancários, não há mais transmissão de liquidez entre os bancos e do sistema bancário para o sistema financeiro paralelo, que está em extinção, e começa a chegar ao setor corporativo. As Bolsas se enfraquecem a cada dia, o mercado seca e os gastos começam a diminuir. Estamos a um passo do derretimento total.

FOLHA - O sr. mencionou a possibilidade de depressão global. Quão perto estaria?
ROUBINI - Já estamos em recessão nos Estados Unidos, na Europa, no Reino Unido, no Canadá, na Austrália, na Nova Zelândia, no Japão. Ou seja, cerca de 50% das economias globais já estão em recessão. Depois que essa se estabelecer, começaremos a ver desaceleração maciça de crescimento nas economias emergentes. O que quer dizer isso? Que teremos algum crescimento nos mercados emergentes, entre 2% e 3%, o que será uma aterrissagem dura para esses países, que necessitam de muito mais do que isso. Essa diminuição contribuirá para a queda do crescimento do PIB (Produto Interno Bruto) global, que pode ficar negativo.

FOLHA - E quanto durará?
ROUBINI - Se fizermos tudo certo, o que não está garantido, deve durar entre 12 e 24 meses. Há também o risco de os EUA entrarem numa estagnação como a que atingiu o Japão.

FOLHA - E quem é o culpado , em sua opinião?
ROUBINI - São muitos e diferentes fatores. É uma tempestade perfeita composta de dinheiro fácil, crédito fácil, baixas taxas de juros, instituições financeiras se expondo a risco excessivo, instrumentos financeiros novos e modernos, mas também exóticos e sem liquidez, cumplicidade das agências classificadora de riscos, falta de regulação e supervisão adequada por parte dos governos. Não há um só culpado, mas vários: agentes financeiros, reguladores, governantes, bancos centrais...

FOLHA - O sr. foi um dos primeiros a preverem essa crise, já em 2006. Foi chamado de catastrófico, apocalíptico e alarmista então. O sr. se sente vingado, de alguma maneira?
ROUBINI - Vingado não é a palavra, pela quantidade de desastres que essa crise trouxe, mas eu estava seguro de que minhas análises eram plausíveis e que meus dados eram corretos, que eu tive a honestidade intelectual de manter meus pontos de vista porque sabia que estava certo. E, infelizmente, eu estava certo.

FOLHA - Por que o sr. foi quase uma exceção?
ROUBINI - Os que fazem a política econômica tinham receio de dizer que temiam pelo futuro da economia, muitos analistas econômicos fazem previsões que procuram agradar a seus clientes, havia ainda um clima de euforia, muita gente dizendo que era um novo mundo, que seria diferente dessa vez. Muita gente dizendo que não se tratava de uma bolha imobiliária, mas de uma série de pequenos avanços...

FOLHA - O que o sr. não previu? O que o surpreendeu?
ROUBINI - A velocidade com que os 12 passos que eu previ aconteceram. Na minha análise, o que aconteceu desde a quebra do Lehman Brothers levaria talvez dois anos.

FOLHA - O sr. trabalha numa nova série de passos?
ROUBINI - Não, em vez de ficar prevendo desgraças novas, estou me dedicando a sugerir soluções para a catástrofe.

FOLHA - O Plano Paulson vai funcionar?
ROUBINI - Não, falta muita coisa. Recapitalizar o sistema bancário, lidar diretamente com os mutuários inadimplentes, fazer uma triagem entre os bancos que merecem ser salvos e os que devem quebrar, muito mais tem de ser feito para que o plano funcione, e eu não vejo isso acontecendo.

FOLHA - O secretário do Tesouro, Henry Paulson, e o presidente do Fed, Ben Bernanke, parecem estar sempre um passo atrás dos acontecimentos.
ROUBINI - Sim, atrás da curva, e isso prejudica até as ações positivas que eles tomam. Muitas vezes os mercados têm reagido mal a boas iniciativas, porque chegam tarde.

FOLHA - O próximo presidente vai encarar o pior da crise. Qual a diferença fundamental entre a política econômica do democrata Barack Obama e a do republicano John McCain?
ROUBINI - A principal diferença é que Obama, a quem apóio, tomará ações mais decisivas para lidar com a crise, não deixará o mercado cuidar de si mesmo. Precisaremos de uma intervenção mais formal, e isso estava faltando na última gestão e continuará faltando na de McCain. Essa será a principal diferença entre os dois.

FOLHA - O sr. se incomoda de ter sido apelidado "Sr. Apocalipse"?
ROUBINI - Não ligo. Não é que eu seja uma pessoa permanentemente pessimista em relação ao mercado, eu serei o primeiro a gritar "a crise acabou!" quando ela acabar e me tornarei um otimista. Creio, na verdade, que ainda há muitas oportunidades na economia global para que mercados emergentes cresçam num ritmo sustentável, mesmo agora. Não é uma questão de otimismo versus pessimismo. É que os eventos das últimas semanas surpreenderam até mesmo o meu pessimismo.
FOLHA - Quando o sr. se sentirá otimista?
ROUBINI - Quando eu sentir que chegamos ao fundo do poço, o que não aconteceu. Eu vejo uma luz no fim do túnel, mas é uma locomotiva vindo em nossa direção...

Folha
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A doce vida no apocalipse

Depois de anos sendo alvo de chacota por prever o caos financeiro em plena bonança, o economista Nouriel Roubini desfruta o status de celebridade global. Sua maior ambição agora é prever o exato momento da retomada

Revista EXAME -

A noite está agradável em Nova York, um calor de verão em plena primavera, e o economista Nouriel Roubini, de 50 anos, decide que pelo menos no momento não fará nenhuma previsão alarmista sobre o estado da economia mundial. Em vez disso, sobe ao palco de uma conhecida casa de eventos onde é o homenageado em um jantar de gala e conta uma de suas piadas preferidas. "Encontrei certa vez, num evento internacional, uma senhora russa que me disse que economistas são como terapeutas sexuais: conhecem mil posições, mas nunca as praticaram. Eu respondi a ela: ´Minha senhora, eu faço economia aplicada`." A gargalhada é geral entre as 2 000 pessoas que o ouvem. Nessa noite, o homem que ganhou o apelido de "Dr. Apocalipse" graças a suas previsões certeiras sobre a crise mundial não parece nada sombrio. Muito pelo contrário. Sorridente, Roubini tira inúmeras fotos com os participantes do jantar, que pagaram no mínimo 500 dólares pelo ingresso para vê-lo falar.

E responde a qualquer pergunta, mesmo as mais atrevidas, com imbatível bom humor. "O senhor está preocupado com a crise?", pergunta um repórter da New York Magazine. "Por que estaria? A crise tem sido boa para mim", dispara ele. "Qual a proporção ideal entre mulheres e homens em suas festas?", segue o repórter. "Dez mulheres para cada homem é o ideal", responde ele. "Então sua vida amorosa deve estar movimentada", diz o jornalista. "Não, na verdade não tenho um encontro amoroso há dez meses", revela o Dr. Apocalipse.


Na manhã seguinte, de volta ao escritório e já vestindo os indefectíveis terno preto e camisa branca, o economista recém-chegado ao mundo das celebridades globais retoma o discurso sério numa entrevista exclusiva a EXAME. "Quando eu fiz minhas previsões, muitos disseram que eu era catastrofista. Ora, deem um tempo! Eu deveria ser considerado otimista, porque em muitos aspectos a crise foi bem pior do que eu previa", diz ele. "Essas pessoas que continuaram pregando que nada aconteceria deveriam ser presas pelo mal que causaram." O tom um tanto rancoroso de Roubini tem uma explicação. Desde que inaugurou seu site de informações financeiras, o RGE (sigla para Roubini Global Economics) Monitor, no final da década de 90, esse judeu turco, formado em economia na Itália e com Ph.D. em Harvard, buscava - em vão - se tornar uma voz relevante entre os grandes economistas dos Estados Unidos. Apesar de ter conseguido algum reconhecimento na época da crise asiática, era apenas um coadjuvante entre os grandes nomes da economia mundial. E antes de a tormenta eclodir, quando a economia ainda não dava sinais de deterioração, chegou a ser alvo de chacota de seus pares. Em setembro de 2006, foi ridicularizado em público em um debate do FMI pelo economista indiano Anirvan Banerji. Na ocasião, Roubini disse que uma crise sem precedentes estava prestes a desabar, como resultado do colapso do sistema financeiro americano. Virou piada. Poucos meses depois, veio ao Brasil para prospectar clientes e dar algumas entrevistas. Sua ladainha premonitória passou meio despercebida (ele esteve no Banco Central e com os diretores do BNP Paribas e da gestora de recursos Hedging-Griffo). "A viagem foi produtiva, mas dava para ver o ceticismo do pessoal", diz a brasileira Vitoria Saddi, que foi analista do RGE e acompanhou Roubini na ocasião.

Apesar de se policiar para não continuar batendo na tecla do "eu avisei", que adotou logo que a crise estourou, Roubini hoje se sente "vingado", e suas previsões são ouvidas com atenção tanto pelo mercado financeiro como pelo governo dos mais diversos países (recentemente, almoçou com o ministro da Fazenda, Guido Mantega, em Nova York). Sua rotina hoje é comparável à de uma grande estrela do rock, com assédio constante da imprensa, muitas viagens e dinheiro. Em média, costuma dar dez entrevistas por dia. Desde o ano passado, passa 25 dias por mês viajando pelo mundo a convite de empresas, bancos e instituições que pagam pelo menos 75 000 dólares para ouvi-lo falar. Não chega a ser uma fortuna, mas trata-se de um cachê semelhante ao de um figurão como Lawrence Summers, ex-secretário do Tesouro americano, ex-reitor da Universidade Harvard e uma das cabeças econômicas mais importantes do governo Barack Obama. No caso do banco BTG, de André Esteves e Pérsio Arida, que promoveu um evento com ele em São Paulo no início de março, o pacote incluiu ainda um avião particular para buscá-lo em Cartagena, na Colômbia, e o aluguel de um helicóptero para levá-lo ao Aeroporto de Guarulhos a tempo de pegar um voo para Nova York. "Ele adquiriu uma extraordinária notoriedade por ter previsto a crise", diz Arida. O BTG é um dos 1 000 clientes corporativos do RGE Monitor e está entre os que pagam 100 000 dólares por ano para ter direito ao conteúdo completo do site de Roubini e a conversas privadas com ele e seus analistas.

Nada como uma previsão certeira para transformar a carreira de um economista obscuro e empreendedor iniciante. Quando foi fundado, em 1997, o site era feito na Universidade de Nova York (NYU), onde Roubini ainda era professor associado (atualmente, ele é titular). Hoje, o RGE tem 45 funcionários e escritórios em Londres e Hong Kong. A sede da empresa ainda não acompanhou os tempos de estrelato. É composta de oito salas alugadas, sem divisórias e paredes nuas, num prédio no Soho, em Nova York. Mas essa estrutura está prestes a ser trocada por um local mais moderno na mesma vizinhança. Embora os executivos não revelem o faturamento, estima-se que as receitas do RGE, que não chegavam a seis dígitos até 2005, devam alcançar no mínimo 15 milhões de dólares neste ano. Um bom negócio para os poucos investidores que, em 2004, acreditaram no Dr. Apocalipse. Entre eles o ex-presidente do Banco Central e dono do Gávea Investimentos, Armínio Fraga, interlocutor frequente de Roubini. "O site faz o que o Google não consegue com os textos de economia: filtra o conteúdo. E é um ótimo negócio", diz Armínio Fraga, que conheceu Roubini ainda nos anos 90, enquanto morou nos Estados Unidos. Para Fraga, foi a veemência dos alertas de Roubini sobre a crise que atraiu a atenção para ele. "Ele entendeu bem a dinâmica das bolhas. Foi um dos poucos que previram o tamanho do estrago", diz o ex-presidente do Banco Central brasileiro.

Alçado à condição de único analista econômico que viu a crise chegar, Roubini agora se impôs um novo desafio: anunciar quando a economia vai iniciar um ciclo sustentável de recuperação. Embora ele não pareça - ou não queira parecer - muito empenhado em fazer a previsão mais exata sobre o tema, acertar esse momento se tornou a grande obsessão dos executivos de sua empresa. "Todos sabem que o RGE só cresceu graças a ele, e acertar na mosca o momento da retomada pode garantir o futuro", diz uma pessoa a par das discussões na empresa de Roubini. Mesmo repetindo à exaustão que não será um pessimista para sempre (ele agora está tentando emplacar um novo apelido para si próprio, o de "Dr. Realista", no lugar de Dr. Apocalipse), Roubini continua a ser menos otimista que a média. Durante a conversa com EXAME, ele disse que os recentes movimentos de alta nas bolsas de todo o mundo são mais um surto de volatilidade comum a momentos de crise aguda. "A história mostra que há pelo menos seis ou sete surtos de alta em meio a grandes crises. Esse é um deles." Defensor da tese de que o movimento dos indicadores da economia nesta crise será semelhante ao desenho de um "U", Roubini explica, com gestos, olhando por sobre os óculos pendurados na ponta do nariz, que estamos na primeira curva do "U", aquela que leva ao fundo do poço. "A contração da economia começou a ficar mais lenta e menos acentuada. Vejo o fundo do poço por volta de meados do ano que vem. No segundo semestre começa a recuperação. Mas será uma recuperação relativamente fraca", diz Roubini enquanto toma um copo grande de café no balcão de um Starbucks a poucos passos de seu escritório.

Embora considere que o governo do presidente Barack Obama mereça crédito, o economista está entre aqueles que acham que o teste de estresse realizado pelo governo nos bancos americanos, cujos resultados se tornaram públicos dias atrás, não foi sério o suficiente. "Os testes não foram bem-feitos, e logo as pessoas vão perceber que ainda restam problemas nos bancos. Somado aos dados de consumo e aos novos números da economia, isso vai levar a novas quedas nas bolsas", diz. Para Roubini, a chave da recuperação está no aumento do consumo, não só nos Estados Unidos como em todo o mundo. Em sua opinião, os cortes de impostos e subsídios realizados pelo governo Obama ainda não foram suficientes para impulsionar o consumo dos americanos. E ele acha que é justamente pela dificuldade de impulsionar o consumo interno que a China terá dificuldades em voltar ao ritmo de crescimento anterior à crise. Sobre o Brasil, as opiniões de Roubini não vão além do que tem dito a maioria dos economistas locais. "Por ter adotado uma regulação bem mais sofisticada, o país, assim como outras economias latino-americanas, está em melhores condições", diz ele, que aposta numa redução de até 2 pontos na taxa Selic em 2009.

Fazer previsões, por sinal, não é nenhum problema para o Dr. Apocalipse. Ele constrói cenários futuros em profusão e descreve a maneira como chega a seus vaticínios como um "processo holístico", que se alimenta até de conversas com taxistas e funcionários dos aeroportos dos locais que visita. "Eu comparo os dados, converso com as pessoas, ligo os pontos e chego a uma conclusão", diz ele. Por nunca ter sido fã dos modelos econométricos nem dos artigos repletos de equações, Roubini foi por muito tempo discriminado no ambiente acadêmico. Suas previsões equivocadas também não ajudavam muito (veja quadro na pág. 114). A situação começou a mudar depois que um de seus artigos, intitulado Twelve Steps for Financial Disaster ("Doze passos para o desastre financeiro", numa tradução livre), publicado em fevereiro de 2008, foi se mostrando terrivelmente preciso. Ele previa a derrocada das agências governamentais Fannie Mae e Freddie Mac, dizia que pelo menos um grande banco estava prestes a quebrar como consequência do excesso de endividamento e que a crise viria a se alastrar no mundo todo. No mês seguinte, o Bear Stearns faliu. "O Bear Stearns mal havia quebrado e ele disse, num evento da universidade, que foi uma pequena amostra do que estava por vir. A sequência de fatos que descreveu era sinistra. Mas ele estava certo", diz o professor Matthew Richardson, um dos maiores colaboradores de Roubini na Universidade de Nova York. Onde, claro, o Dr. Apocalipse passou de outsider a estrela de primeira grandeza. "Ele tem sido generoso, ajudando a promover a universidade com seu sucesso", diz outro colega, o indiano Viral Acharya, que coordenou, com Richardson, a edição de um livro com artigos de professores da NYU sobre a crise. Roubini assinou o prefácio.

No discurso, Roubini está preocupadíssimo com a fama de playboy que angariou por causa de sua intensa agenda social. Solteirão e galanteador, ele diz que ficou especialmente irritado com a grande publicidade que ganharam os relatos das festas que ele dá em seu loft, em Tribeca, bairro moderninho de Nova York vizinho a Wall Street. E com as inúmeras reproduções, na mídia do mundo todo, das fotos em meio a mulheres bonitas que ele colocou em sua página no site de relacionamentos Facebook. Na ocasião, Roubini chegou a acusar de antissemita um blogueiro que reproduziu suas fotos do Facebook. Há poucas semanas, pediu a outra blogueira que retirasse da rede fotos de pequenas vaginas esculpidas na parede de sua casa por uma artista plástica, alegando invasão de privacidade. Após esses episódios, Roubini vetou o acesso de desconhecidos à sua página no Facebook e mudou o tom das mensagens que coloca em seu Twitter. Numa mensagem de janeiro, perguntava se alguém queria ir com ele ao Buddha Bar de Dubai, onde estava para uma conferência. Os últimos posts já são mais lacônicos - todos remetem a artigos que publicou ou a eventos de que participa. Na prática, o Dr. Apocalipse tem aproveitado a valer seu novo status. Seus amigos de Facebook, por exemplo, ainda podem ver fotos suas com outras celebridades globais, como o escritor Paulo Coelho e o ex-vice-presidente americano Al Gore, nos bastidores da conferência do Fórum Econômico Mundial, em Davos. E permanecem na página as fotos com as beldades que frequentam seu loft. Elas mostram que, para o Dr. Apocalipse, a vida continua uma festa. Pelo menos enquanto a economia estiver em baixa.

Portal Exame

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