terça-feira, 26 de maio de 2009

O duelo de Guantánamo

DETALHE QUE FALTOU
Obama prometeu fechar a prisão, mas esqueceu de explicar o que faria com os terroristas que estão por lá


Depois de ter seu projeto de fechar a prisão militar
derrotado no Senado, Obama colide com Dick Cheney
num debate de ideias raro nos Estados Unidos


Thomas Favaro


Uma das primeiras medidas de Barack Obama depois da posse, em janeiro, foi ordenar o fechamento da prisão militar de Guantánamo. Na base dos Estados Unidos em Cuba estão os derradeiros 240 prisioneiros feitos na guerra contra o terrorismo. Faltou ao presidente esclarecer alguns detalhes. O que ele pretendia fazer com os detentos, por exemplo. A falta de clareza custou a Obama sua primeira grande derrota no Congresso, na semana passada. Democratas e republicanos uniram-se no Senado para barrar o financiamento do projeto que daria um fim à prisão. "Com todo o respeito ao presidente, nós precisamos de um plano, e não de um discurso", disse o líder republicano Mitch McConnell. "Fomos chamados para defender um plano que ainda não foi anunciado", admitiu Dick Durbin, um cacique do Partido Democrata, mostrando que a preocupação com o terrorismo está acima das linhas partidárias.

NUMA PRAIA EM CUBA
Detento é escoltado na prisão militar da base de Guantánamo: ninguém o quer como vizinho

A prisão de Guantánamo foi criada para manter os suspeitos de terrorismo numa espécie de limbo judiciário, fora do território americano. A situação esdrúxula e a péssima imagem do governo de George W. Bush converteram o local em foco de constrangimentos para o país. A derrota no Congresso foi o prenúncio de um "duelo de titãs" entre Obama e Dick Cheney, vice-presidente de Bush. No dia seguinte, o presidente saiu em defesa de seu projeto com um discurso pronunciado no Arquivo Nacional, onde estão guardados a Declaração de Independência e o original da Constituição. Obama afirmou que o país "saiu do curso" no governo Bush e que é preciso uma nova abordagem, que rejeite a tortura e reconheça a necessidade de fechar Guantánamo como um símbolo desse período.

Cheney, um dos mentores da guerra ao terror, esperou pacientemente o fim do discurso de Obama antes de iniciar o próprio. Disse que o governo Bush tomou medidas de emergência em momento de crise e que o fato de não terem ocorrido novos ataques terroristas em território americano é a prova de seu sucesso. O embate foi excepcional por muitas razões. O antigo vice-presidente ressurgiu como um novo vigor ideológico para a oposição, que andava sem rumo depois da débâcle do governo Bush. De certa forma, pode-se dizer que no duelo de ideias sobre Guantánamo os republicanos estão na frente. Apesar do alarde feito nos palanques, boa parte da política antiterrorista de Bush continua em vigor. Obama autorizou a volta dos julgamentos militares em Guantánamo e recuou na decisão de divulgar fotos de tortura infligida aos prisioneiros. A maior contribuição do presidente talvez tenha sido reconhecer que as relações públicas devem ser levadas em conta mesmo quando o inimigo é um terrorista. Exatamente por isso, ele não pode passar a impressão de que seu governo está retrocedendo em questões de segurança.

FALCÃO REPUBLICANO
Dick Cheney defende a guerra ao terror de Bush: "Salvamos milhares de vidas"

O presidente pretende enviar alguns presos de Guantánamo para julgamentos em cortes civis americanas e devolver outros ao país de origem. O tanzaniano Ahmed Ghailani, acusado de participar dos atentados contra embaixadas americanas na África, em 1998, será o primeiro a ser julgado nos Estados Unidos. Caso sejam condenados, terroristas como Ghailani podem ir parar nas prisões de segurança máxima – de onde nenhum detento jamais escapou. Mas as pesquisas revelam que a maioria dos americanos não quer ter um terrorista perto de sua casa, nem mesmo na prisão. O principal problema são os terroristas notórios que foram sabidamente torturados, como Abu Zubaydah, um dos líderes da Al Qaeda. A Justiça americana não aceita provas obtidas sob tortura, o que dificultaria a condenação. "É difícil pedir que outros países aceitem esses detentos se nem os americanos os querem por perto", disse a VEJA Carl Tobias, professor de direito da Universidade de Richmond, na Virgínia.


Atrás das grades

Desde 2002, Guantánamo serviu de prisão para

779 suspeitos de terrorismo, de 49 nacionalidades

534 deles foram transferidos para outros países

1 em cada 7 libertados voltou para o terrorismo

240 permanecem presos

5 morreram na prisão


Revista Veja, ed 2114

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