sexta-feira, 22 de maio de 2009

O Plano "B"! Ou plano "Lula o perpétuo".


Como, em política, ninguém prega prego sem estopa, a série de movimentos aparentemente desconexos dos últimos dias mostra que a doença da ministra Dilma Rousseff está colocando a classe política em polvorosa, em busca de uma porta de saída para o impasse da sucessão presidencial. A solução mais óbvia, nem por isso mais fácil, é a possibilidade de Lula vir a disputar um terceiro mandato consecutivo.

Mesmo sem a certeza de sucesso, essa é a única solução que contaria com o apoio maciço da base governista e dos chamados "movimentos sociais", o que daria ao nosso país um ar, digamos assim, "bolivariano", que pode atender aos interesses imediatos desse grupelho político que vive à custa do poder, mas certamente fará muito mal à biografia do líder operário que tem ânsias de se transformar em líder internacional.

Lula já revelou a mais de um interlocutor que pretende criar uma ONG quando deixar a Presidência para levar pelo mundo sua luta contra a miséria, com foco especial na África.

Aceitando a manobra de mudar a Constituição para disputar um terceiro mandato consecutivo, estará abrindo mão dessa atuação nos centros decisórios do mundo para se transformar em mais um dos muitos políticos bananeiros que dominam a cena latino-americana.

Há movimentos mais sofisticados, como a tentativa de reduzir para seis meses o prazo de filiação partidária, o que daria mais tempo para que a real situação física da ministra Dilma fosse avaliada.

E, evidentemente, mais tempo também para que políticos rearranjem o tabuleiro eleitoral. O objetivo mais evidente dessa manobra, capitaneada pelo PMDB, é dar ao governador de Minas, Aécio Neves, mais prazo para pensar na possibilidade de trocar de legenda e disputar a Presidência da República fora do PSDB.

Um corolário dessa medida seria outra, que já foi tentada uma vez sem sucesso: reduzir também para seis meses antes da eleição o prazo para alterações no sistema eleitoral. Os "neoqueremistas" ganhariam mais tempo para suas manobras continuístas.

Da mesma maneira que Lula já não descarta tão peremptoriamente a possibilidade de vir a disputar um terceiro mandato consecutivo, também o governador de Minas Gerais já não nega de bate-pronto a possibilidade de mudar de partido.

Dias atrás, foi convidado pelo PR para se filiar à legenda para disputar a Presidência e não negou essa possibilidade. O PR, aliás, é um bom exemplo de como se encontram perdidos os partidos da base aliada.

Ao mesmo tempo em que oferecem a legenda para Aécio disputar a Presidência, propõem, através do líder mensaleiro Sandro Mabel, a prorrogação de todos os mandatos eletivos, permitindo que Lula permaneça no cargo por mais dois anos.

Ontem, Aécio propôs ao DEM comemorar os 25 anos da Aliança Democrática, criada em 7 de agosto de 1984, que reuniu os dissidentes do PDS ao PMDB para eleger seu avô, Tancredo Neves, presidente da República.

O DEM, como herdeiro da Frente Liberal que deu José Sarney como vice de Tancredo, já aceitou. E é natural que o PMDB também participe dessa que seria uma celebração à arte da conciliação política, que Aécio quer encarnar na sua campanha para disputar a Presidência da República.

É quase nula a chance de o governador de Minas mudar de partido e partir para uma aventura, mas ele está convencido de que tem mais condições do que Serra de unir em torno de seu nome a maior parte dos partidos hoje sob a aliança governista.

Também é bastante reduzida a chance de Lula querer disputar um terceiro mandato consecutivo, mas as pressões de seu grupo político, amplíssimo em múltiplos interesses, pode mudar esse quadro.

Com o julgamento do caso do ex-ministro Antonio Palocci pelo Supremo marcado para o dia 4 de junho, a base governista pode ganhar um alento se ele for absolvido.

Não lavará de sua biografia a suspeita, quase convicção, generalizada, de que ele foi o responsável pela quebra do sigilo bancário do caseiro Francenildo Costa na Caixa Econômica Federal, mas terá uma decisão do Supremo a seu favor para rebater as acusações de campanha.

O que seria um plano B para o caso de a candidatura de Dilma Rousseff não decolar pode perfeitamente se transformar na solução para o impasse em que a base partidária do governo se encontra.

A mais recente pesquisa do Vox Populi que a direção do PT está divulgando em Brasília, que mostra Dilma chegando à casa dos 20% das intenções de voto, é uma tentativa de frear as especulações sobre o plano B.

Seria uma boa notícia, se não houvesse dúvidas não mais sobre a viabilidade eleitoral da ministra, mas sobre sua capacidade física de aguentar uma campanha tão desgastante quanto a de presidente da República, ainda mais por uma não política, que não tem introjetadas no corpo e na mente as vicissitudes desse tipo de campanha.

E é uma péssima sinalização para um plano B. Se a "mãe do PAC", depois de mais de dois anos sendo incensada pelo presidente Lula, não consegue nem mesmo atingir os 30% do eleitorado petista tradicional, é sinal que talvez não haja mais tempo para um novo candidato surgir do bolso do colete.

A não ser que o plano B seja Lula.


Merval Pereira
O GLOBO

3 comentários:

Laguardia disse...

Já ouvi de alguns petistas a idéia de lançar Dilma para presidente e Lula para vice (acho que é ilegal, mas como para o PT lei não existe). Assim Dilma eleita, renuncia e Lula tem seu terceiro mandato.

PoPa disse...

Acho que este artigo de Merval Pereira, não está sendo suficientemente claro. Não concordo que da Silva esteja querendo ser um ongista em 2010. Ele está babando pelo terceiro mandato e exatamente por isso, colocou Dilma no páreo. Qualquer criança saberia que ela não reune as mínimas qualidades para ser presidente do Brasil. E isso antes da doença! Portanto, o plano A sempre foi o terceiro mandato. Dilma serviria de boi de piranha para o pt não emplacar ninguém e ele conseguir voltar em 2014. O cara não gosta de sombra! Liquidou com todos os próceres de seu próprio partido, lavando as mãos das maracutaias e deixando-os fritar. Sobrou Dilma que ele sabia, não iria emplacar este posto. Ele precisa de um Serra da vida para voltar!

A sorte dele é tanta que a crise vai mostrar sua face somente ao final de seu mandato. O próximo vai herdar um passivo enorme, com dificuldades de toda ordem. E com um pac que não tem orçamento. Vai ser fácil para seu partido (ele não vai sujar as mãos) bater no infeliz que ganhar esta eleição e preparar a volta triunfal de Da Silva.

Duvidam?

Clausewitz disse...

Olá, amigo. Tem um merecido prêmio para você lá no Blog do Clausewitz. Passe lá para recebê-lo. Abração