segunda-feira, 4 de maio de 2009

Porque não a Venezuela no Mercosul?


O Itamaraty teria aconselhado o presidente Hugo Chávez a fazer nos próximos dias uma declaração simpática ao Senado brasileiro. Não se sabe que efeito poderia ter essa declaração sobre a opinião dos senadores, que decidirão sobre a entrada da Venezuela no Mercosul, já aprovada pela Câmara dos Deputados. O ideal é que os senadores recebam com simpatia a declaração, se ela de fato acontecer, mas não se baseiem nela para votar. Porque a Venezuela é conduzida por Chávez (mantidas as regras atuais, por tanto tempo quanto ele for reeleito) numa direção totalmente contrária ao espírito de integração sul-americana que norteia o Mercosul. E com um projeto próprio de poder.

Que país ou bloco gostaria de negociar com um Mercosul que passasse a incluir uma nação cujo dirigente é o líder de uma corrente contrária aos EUA no continente? Talvez a este Mercosul, após o ingresso da Venezuela, só reste estabelecer acordos comerciais com países como Irã e Coréia do Norte. E não é a Venezuela a líder de um bloco que se afirma como alternativa "bolivariana" na América do Sul, que inclui Cuba, Bolívia, Equador, Nicarágua, Honduras, Dominica e São Vicente e Granadinas? Qual a característica comum entre os "bolivarianos" de Venezuela, Bolívia e Equador? A eleição para presidente de políticos autoritários que têm mostrado enorme disposição para fortalecer o Executivo, em detrimento do Legislativo e do Judiciário. O que mais longe levou essa corrosão do regime democrático é Hugo Chávez, rei de um sistema no qual chefes do Executivo podem se reeleger tantas vezes quanto conseguirem, a oposição é pisoteada, a liberdade de expressão e de imprensa, perseguidas e a iniciativa privada, esmagada, sob estatização galopante.

O ministro Celso Amorim defendeu, na Comissão de Relações Exteriores do Senado, a adesão da Venezuela ao Mercosul, por seu "valor econômico, estratégico e simbólico". Ninguém discute esse valor. O entrave não se chama Venezuela, mas Chávez.

EDITORIAL
O GLOBO
4/5/2009

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