quarta-feira, 10 de junho de 2009

Eleições no Irã


A disputa eleitoral bloqueou ontem à noite as congestionadas ruas de Teerã. Partidários dos dois candidatos com mais possibilidades nas eleições presidenciais da próxima sexta-feira - o atual presidente, Mahmud Ahmadinejad, e o reformista Mir Hossein Mousavi - decidiram medir suas forças na capital. Dezenas de milhares de jovens simpatizantes de Musavi inundaram as principais artérias aos gritos de "morte ao ditador", enquanto os seguidores de Ahmadinejad tentavam repelir a maré verde com sua presença. A intensidade dos debates na televisão polarizou como nunca a opinião pública iraniana.

"Sou abstencionista. Nunca votei, mas na segunda-feira vi o debate e depois de ouvir o programa que Musavi anunciou pensei em votar desta vez", declara Mohamed, um funcionário de banco de 30 anos, no estádio Badr, onde o candidato que ergue a bandeira reformista realizava um comício. O lugar, a sudoeste de Teerã, está nas antípodas dos bairros ricos do norte, onde os laços verdes revelam o apoio às reformas. Yaft Abad é um distrito operário e, segundo os cartazes nas lojas vizinhas ao estádio, território de Ahmadinejad. Mas cerca de 4 mil pessoas aplaudem o reformista.

"O presidente não cumpriu suas promessas eleitorais", justifica Ashar, um estudante de engenharia industrial de 19 anos. "Ele nos disse muitas mentiras." Vários entrevistados afirmam que Musavi não é seu candidato ideal, mas indicam que o objetivo é "conter Ahmadinejad para que não repita o mandato".

A tarefa não será fácil. Quase na mesma hora, milhares de pessoas se reuniram no recinto da Mosalla, no centro-norte de Teerã, para demonstrar seu apoio ao presidente, que no último momento cancelou sua presença por temer uma avalanche humana. "Os expedientes estão sobre a mesa e ele responde 'essa coisa, essa coisa'", entoa um grupo de garotas que se dirige para lá de ônibus. A frase, que rima em persa, zomba do abuso que Musavi faz da palavra "coisa". Com igual entusiasmo, os simpatizantes do reformista contestam: "Não responda, não responda, e ataque a mulher de seu rival". E assim por toda a cidade.

As acusações se referem ao inusitado debate entre os dois candidatos na última quarta-feira. Foi a primeira vez na história da república islâmica que os aspirantes à presidência se enfrentaram na televisão. Para surpresa de uns e outros, à falta de sucessos políticos para defender, o presidente Ahmadinejad acusou os altos responsáveis do regime de ter enriquecido ilicitamente e inclusive - coisa muito chocante nessa cultura - atacou a mulher de seu adversário, da qual disse que havia obtido seus títulos de forma irregular. Musavi o chamou de mentiroso e criticou sua tendência ditatorial.

Desde então a disputa só fez aumentar. Vários dos mencionados pelo presidente anunciaram litígios caso ele não peça desculpas públicas. Além de ofensas pessoais, o atrevimento de Ahmadinejad abalou os princípios do sistema. A corrupção da classe dirigente iraniana é um segredo aberto, mas nunca um mandatário a havia denunciado com nomes e sobrenomes. Sua esperteza talvez lhe consiga apoios entre os menos favorecidos. Mas põe em dúvida sua lealdade a um regime cujo principal objetivo é manter o poder.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves
El País

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