sábado, 20 de junho de 2009

Fidel Castro foi o carrasco da minha família


Médica dissidente que conseguiu permissão para sair do país diz que troca de líder não mudou o regime

Janaína Figueiredo - Correspondente

BUENOS AIRES. Seu pouco mais de 1,50m de altura e o tom de voz suave não refletem a fortaleza humana que lhe permitiu suportar 15 anos longe do filho e dos dois netos. Menos de uma semana após ter se reencontrado com a família em Buenos Aires, a médica cubana Hilda Molina, de 66 anos, não se cansa de agradecer a mediação da presidente Cristina Kirchner e de denunciar a violação dos direitos humanos em seu país. “Me disseram que eu nunca sairia de Cuba porque meu cérebro era patrimônio do país”, contou ao GLOBO a neurocirurgiã, que nos anos 90 renunciou à direção do Centro Internacional de Restauração Neurológica de Havana e foi alvo de uma perseguição política que a impediu de sair da ilha.

GLOBO: A senhora obteve autorização para viajar duas semanas antes de uma eleição legislativa decisiva para o governo Kirchner...
HILDA MOLINA: Não sabia de nada e ainda não estou muito informada sobre isso. Fui liberada pelo governo cubano e não pelo governo argentino, mas devo dizer que o ex-presidente (Néstor) Kirchner me ajudou muito, desde o início de seu governo.

GLOBO: Por que a senhora se distanciou do governo cubano, em 1994?
MOLINA: Basicamente, porque não estava de acordo com a política de tratar estrangeiros no centro onde trabalhava. Para mim a prioridade eram os doentes cubanos. Desde então fui perseguida e, quando meu primeiro neto nasceu, aqui na Argentina, impediram minha saída do país. Funcionários do governo cubano me disseram que eu nunca sairia de Cuba porque meu cérebro era patrimônio do país.

GLOBO: A senhora pensa em voltar?
MOLINA: O que eu gostaria seria voltar com minha mãe, mas ela tem 92 anos e problemas de coração. Gostaria de realizar esse sonho, mas se não puder o governo cubano sabe que posso pedir uma prorrogação da permissão para ficar aqui.

GLOBO: Como a senhora definiria o regime cubano?
MOLINA: Como uma ditadura totalitária, de perfil stalinista.

GLOBO: A maioria dos presidentes estrangeiros que visitam a ilha não se reúne com os dissidentes...
MOLINA: Como uma pessoa que teve seus direitos violados, respeito os direitos e as decisões de cada pessoa. Mas acho que, nos casos dos países que viveram ditaduras, os opositores dessas ditaduras ficavam muito felizes quando recebiam o respaldo de pessoas de outros países. Se recebêssemos pelo menos um respaldo moral, nos sentiríamos mais acompanhados.

GLOBO: A senhora se sente decepcionada com os governos da região?
MOLINA: Os dissidentes cubanos precisam do mesmo apoio que eles (os governos) receberam quando eram opositores de suas ditaduras: o presidente Lula e todos os que enfrentaram uma ditadura.

GLOBO: Por que Cuba recebe tanto apoio internacional?
MOLINA: Muitos presidentes se sentem pressionados psicologicamente, sentem que qualquer crítica poderia alterar a estabilidade de Cuba. E outros acham que esta atitude positiva em relação ao governo cubano é a melhor maneira de promover a abertura do país, estratégia que considero totalmente equivocada. Por outro lado, os governos populistas eleitos nos últimos anos querem perpetuar-se no poder como fez o governo cubano.

GLOBO: A senhora se refere ao presidente da Venezuela, Hugo Chávez?
MOLINA: Não vou dar nomes, não quero brigar com mais ninguém (risos).

GLOBO: Qual é a sua opinião sobre a aliança do presidente Chávez com Fidel?
MOLINA: Chávez é aluno de Fidel Castro, ele mesmo diz isso. Depois de ter saído da prisão, Chávez visitou Cuba e foi recebido com honras de chefe de Estado — isso muito antes de assumir o poder. Isso sempre chamou minha atenção, nunca entendi por que tanto protocolo para uma pessoa que não era ninguém. Hoje entendo que havia um plano. Fidel foi seu mentor e Chávez está transformando a Venezuela numa nova Cuba.

GLOBO: Como a senhora explica a resistência de Cuba a retornar à Organização dos Estados Americanos?
MOLINA: O problema é que Cuba deveria aceitar uma série de condições — por exemplo, em relação aos direitos humanos — que não quer aceitar.

GLOBO: O que representa Fidel Castro para a senhora?
MOLINA: Ele foi o carrasco da minha família.

GLOBO: A posse de Raúl Castro despertou grande expectativa...
MOLINA : A abertura não ocorreu porque Fidel não a permitiu. Os discursos iniciais foram promissores, chegamos a pensar que seria anulado o sistema de concessão de autorizações para viajar. Mas nada disso. Foi permitido apenas comprar computadores, celulares e ter acesso a hotéis de luxo.

GLOBO: Mas com que dinheiro?
MOLINA: São duas pessoas diferentes, mas o governo é o mesmo. Raúl Castro tem os pés sobre a terra, mas Fidel continua lá, mandando.

O Globo

Nenhum comentário: