sábado, 27 de junho de 2009

Kirchners acionam máquina oficial para tentar evitar derrota amanhã


Néstor Kirchner, ex-presidente argentino e cabeça da chapa governista para as eleições parlamentares de amanhã, testará nas urnas a estratégia de campanha assentada no flagrante uso da máquina pública. Marido da presidente Cristina Kirchner, ele se deslocou pela Província de Buenos Aires em helicópteros da Casa Rosada. Também se valeu da estrutura do governo - das assessorias de imprensa aos programas oficiais de assistência social - para cultivar um eleitorado que ainda pende para seu rival, o dissidente peronista Francisco De Narváez.

A um dia das eleições, as pesquisas apontam uma diferença de apenas 2,5 pontos porcentuais entre as chapas de Kirchner e de De Narváez. O resultado da eleição, mesmo com a vitória dos Kirchners, deixa claro um cenário nada fácil para o governo na sucessão presidencial.

A redução dos eleitores cativos do casal Kirchner, em apenas dois anos, ocorre a despeito dos programas assistencialistas. A pobreza alcança 36,8% da população da Grande Buenos Aires, excluída a capital, segundo recente pesquisa da Sociedade de Estudos Trabalhistas (SEL, na sigla em espanhol). Um dos dez programas do Plano Famílias, por exemplo, prevê a doação de 300 pesos (cerca de US$ 90) mensais a mães de baixa renda. O Plano de Segurança Alimentar envolve a distribuição de cestas-básicas e tíquetes-refeição.

Nenhum dos programas traz contrapartidas, como a preservação de crianças nas escolas. Por meio desses instrumentos, o casal Kirchner despeja dinheiro público há seis anos ao eleitorado mais carente. Não há dados confiáveis sobre os dispêndios do Ministério de Segurança Social, que coordena essas ações sociais e é comandado pela única irmã do ex-presidente, Alicia Kirchner.

Esses mesmos programas permitiram a distribuição pelo governo, desde fevereiro, de geladeiras e outros eletrodomésticos para moradores mais pobres da Grande Buenos Aires. Nesta semana, a Administração Nacional de Previdência Social (Anses, o equivalente ao INSS no Brasil) também foi mobilizada para a campanha de Kirchner. O diretor executivo do órgão, Amado Boudou, enviou uma carta a 5,5 milhões de aposentados e pensionistas, na qual defendeu as bandeiras de Kirchner em sua campanha e, nas entrelinhas, pediu voto ao candidato. O custo postal alcançou 22 milhões de pesos (cerca de R$ 11,3 milhões).

"Nunca vi um uso tão abusivo da máquina pública em uma eleição", afirmou ao Estado o historiador Felix Luna, conhecido intelectual da Argentina. "Isso se faz sem que ninguém reaja, a não ser a imprensa e a oposição. A situação é de impunidade total." Em boa medida, a tolerância decorre da dependência direta da Câmara Nacional Eleitoral, órgão que comanda os tribunais dos pleitos, ao Ministério do Interior (no Brasil, similar ao da Justiça). Na Argentina, não há para quem reclamar.

Estadão

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