segunda-feira, 8 de junho de 2009

LIVROS. LIVROS. LIVROS. LIVROS. LIVROS?



Manual do Canalha (Simão Pessoa. Topbooks, 220 págs.). Livro sincero, a começar pelo título. Perfeito manual de canalhice. Um prêmio a quem achar uma linha politicamente correta. Obra-prima no gênero. Dei uma gargalhada por página. Pela maneira como o autor trata o antigo sexo oposto, não recomendo sua leitura às fêmeas da espécie. Recomendação irresistível.

O Tigre Branco (Aravind Adiga. Nova Fronteira, 263 págs.) No momento em que vivemos a era Índia TV Globo, Índia Bollywood, é bom lembrar que a parte Primeiro Mundo da Índia envolve uns poucos milhões de pessoas. Há pelo menos 1 bilhão de indianos que as "agências" internacionais não classificam como pobres, mas como miseráveis. O livro – romance – é aterrorizante. Aquilo tem salvação?

Gomorra (Roberto Saviano. Bertrand, 349 págs.) A máfia napolitana, que no passado remoto tinha ares românticos, é, agora, uma organização mundial assustadora. Na trigésima página do livro você está em pânico. Se você juntar a organização napolitana com a miséria indiana, você se convence de que o mundo não tem salvação. Exceto pra mim. Mais um míssil lançado por Taepodong, o maluco beleza da Coreia do Norte, e eu me mando pra Petrópolis.

Paraíso. Não é bem um livro. É uma telenovela. Coisa que em geral não aprecio, porque tem muito beijão lambuzado, isso que, por falta de motivação psicológica ou sentimental, fica sendo apenas uma babação, pura falta de higiene. Perigo até de febre suína.


Mas em Paraíso Benedito Ruy Barbosa acertou no tom. Rogério Gomes e patota seguraram com mão firme a fantasia adoidada e carinhosa, que se desenrola em paisagens estupendas, aqui e ali ajudadas por tecnologia, que ninguém é de ferro.

A história se afasta dos padrões cansativos, de simples fofocas. Tem boiadeiros bonitões oriundos do Pantanal, uma estação de rádio com instalações improváveis naquele desterro. Aliás tudo é improvável, as ricas acomodações internas de todas as fazendas, os excessos das mesas de alimentação (isso só tem lá em casa), a gostosura do mulherio naquele interior, tudo, claro, saído diretamente dos figurinistas e cabeleireiros da Globo.

Mas é assim que é – há décadas Hollywood nos ensinou essa fantasia e nós (a TV Globo) a adotamos e modernizamos.

Porém o mais improvável de tudo é, sem dúvida, o sequestrador apaixonado dormir colado com a bela sequestrada (esta mal e mal escondendo sua paixão/tesão), não se chegando, como sói, às vias de fato. Incrível, não sói nada. Porque, senão, a novela acabava, né, Benedito?

Mas o grande barato pra mim são as interpretações. Num gênero com cada vez mais técnicos e mais recursos, no qual os atores acabaram aprendendo, mas em geral não passando de naturalismo básico ("Olha como eu sou natural comendo", "Vê só como eu sei ficar com raiva", "Repara como é autêntico o meu pavor!"), os atores aqui dão um show.

Sem falar dos mais novos, o Filho do Demo, a Santinha – entra até o Daniel cantor, numa boa interpretação –, o melhor está com os "mais velhos". O esplêndido Reginaldo Faria, o impecável Mauro Mendonça, a minha cantora cult, Soraya Ravenle, Walderez de Barros, a dona da pensão, irrepreensível. E o padre, Vereza!, não pisca um olho errado.

Mas a bola fica imperdível e surpreendente é na fanática interpretada por Cássia Kiss. Chuta com as duas, cabeceia, dá de ombros, dribla os outros, sempre nos ameaçando com um ridículo a que nunca chega. Ou chega sempre. Mas isso é mesmo coisa de bruxa. Uma bruxa aterradora.

Porém acho que a bruxa só viceja pelo marido que tem. Eu gostaria de ser casado com ela. Ela ia ver. Nunca mais ia querer saber de Santa Rita.

Eu vendo novela?, estranham. Não estranhem. Aprendi a ler lendo os folhetins que a casa Vecchi botava em fascículos, por baixo da porta das empregadinhas lá em Terra Nova: Nunzio Romanetti, A Córsega em Chamas, Fausta Vencida, Pardaillan. E ouvindo no rádio novela já com Paulo Gracindo. Aliás foi no rádio também, dominado por Ademar Casé, pai do arquiteto, que aprendi a gostar de Manezinho Araújo ("Cumaé u nome deli? É Mané Floriano!") e 100 outros nodestinos, todos com as suas emboladas. O rádio todo era um pouco Nordeste. Eu, nascido no Meyer, também sou um pouco nordestino. Não me vem de xaxado, que eu danço.


Millor Fernandes

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