sábado, 27 de junho de 2009

A morte de Michael Jackson



A música popular americana deu origem a três ídolos incontestáveis no século passado. Frank Sinatra foi... Frank Sinatra. Elvis Presley foi a cintura e o topete do rock. Michael Jackson, o terceiro, inventou a música pop – e não há exagero nessa afirmação. Ele derrubou uma das últimas barreiras que restavam entre brancos e negros nos Estados Unidos, desde o movimento dos direitos civis nos anos 60. Em vez de música para brancos e música para negros, agora havia sua fusão revolucionária de duas tradições. Jackson elevou formas de dança das ruas à categoria de arte. Assombrou com seu estilo extravagante de se vestir, que definia, afinal, o que é um ícone pop: alguém que vive em um mundo em que as únicas regras a seguir são as próprias regras. Vendeu 750 milhões de discos, 100 milhões deles de Thriller, o álbum de maior sucesso da história da discografia mundial. Na quinta-feira passada, Michael Jackson morreu, aos 50 anos, depois que seu médico e os paramédicos de Los Angeles falharam em ressuscitá-lo de uma parada cardíaca. Estava longe dos palcos havia anos. Era visto como a personificação das deformações que a fama é capaz de imprimir, até mesmo fisicamente, em quem vive dela. Numa paráfrase da frase célebre de Winston Churchill, Jackson continuará sendo uma lenda envolta em mistério, dentro de um enigma. No momento de sua morte, contudo, voltou a ser o que foi na maior parte da vida: um ícone.


Sérgio Martins


Fotos Jan Nienheysen/AFP;Charley Gallay/AFP
LUTO NO POP
Michael num show dos anos 90 e a homenagem dos fãs na calçada da fama: artista virtuoso e ser humano perturbado

O cantor foi socorrido na mansão alugada onde vivia em Los Angeles por volta das 12h20 da quinta-feira. Jackson havia recebido os primeiros cuidados de seu médico particular, Conrad Murray (figura que logo se tornou uma incógnita: ele teve seu carro apreendido pela polícia, que queria interrogá-lo mas não o encontrava; em seguida, veio à tona que onze dias atrás o médico havia anunciado seu desligamento da profissão). Paramédicos o encontraram sem respiração e sem pulso. Levaram-no, em estado de coma, para o hospital da Universidade da Califórnia, a poucas quadras. Mal haviam chegado e a notícia de sua morte iminente – finalmente declarada às 14h26 – já causava comoção global. O tráfego do serviço de microblogs Twitter dobrou. O Google entrou em pane, tantas as buscas. O serviço de mensagens instantâneas da AOL também sofreu um colapso nos Estados Unidos. O iTunes e a Amazon, as maiores lojas virtuais de música do mundo, registraram um aumento extraordinário nas vendas de discos e canções de Jackson. No caso da Amazon, o volume de vendas cresceu incríveis 700 vezes.

A causa exata da morte só deverá ser conhecida em quatro a seis semanas, quando serão divulgados os resultados de sua autópsia. Mas informações vindas de parentes e amigos do cantor sugerem que Jackson vinha abusando de analgésicos potentes. Segundo aventou na sexta-feira o canal de fofocas TMZ, entre eles estaria o demerol, um opiáceo sintético de ação similar à da morfina. Jackson teria tomado uma injeção poucas horas antes da parada cardíaca. Na classe dos opiáceos, só a heroína causa mais dependência que a meperidina, como é chamado o princípio ativo do demerol. Nas primeiras doses, o efeito dura de seis a oito horas. "Se ele for consumido todos os dias, bastam duas semanas para o efeito do medicamento durar a metade disso", diz Irimar de Paula Posso, anestesiologista do Hospital das Clínicas de São Paulo. A parada respiratória ocorre porque o medicamento diminui a sensibilidade das células do sistema nervoso central que regulam a respiração – a qual vai diminuindo, até causar sonolência. A falta de oxigênio, então, pode culminar em colapso do coração. O cantor começou a usar remédios para a dor em meados dos anos 80. Desde então, teria se tornado dependente deles. Nos últimos tempos, Jackson os estaria tomando em razão de uma lesão numa vértebra e de dores nas pernas produzidas pelo excesso de ensaios: depois de vários anos sem fazer shows e da longa reclusão que se impôs desde que foi absolvido da acusação de abuso sexual de um garoto, em 2005, o cantor estava prestes a retornar ao palco. No próximo dia 13, daria início a uma temporada de cinquenta apresentações em Londres.


HOLLYWOOD.TV, KNBC4/Reuters, The Grosby Group e Southern.Press
MORTE SÚBITA
Em sentido horário, Michael Jackson entubado, o embarque do corpo no helicóptero rumo ao departamento de medicina legal de Los Angeles, a chegada da mãe ao hospital e a irmã La Toya em prantos: ele sai de cena dias antes do início de uma temporada de cinquenta shows

No início da década de 80, momento de explosão de Jackson, nem nos confins do planeta se encontraria um adolescente que não tivesse se arriscado a imitar o quase impossível moonwalk, a dança que ele inventou ao fundir a suavidade dos passos de Fred Astaire à agressividade dos dançarinos de break, ou suas coreografias sensacionais, profundamente estilizadas – como aquela mão na virilha que era, ao mesmo tempo, erótica e uma paródia do erotismo. Hoje, não se encontra em lugar nenhum artista pop que não dance no palco à maneira de Jackson: como uma declaração criativa que avança por territórios e sentidos aos quais a letra e a melodia não chegam. Mas essa foi apenas uma das revoluções de Jackson.

As imagens de Thriller, catorze minutos que sempre pareciam curtos demais, cravaram o videoclipe como a forma essencial de veicular uma música e ajudaram a tornar a MTV uma força decisiva entre o público jovem. E o público jovem (com a ajuda decisiva de Walter Yetnikoff, então presidente da CBS, que ameaçou tirar todos os artistas da companhia da MTV caso ela não exibisse Thriller) obrigou a emissora, que antes torcia o nariz para artistas de música negra, a abrir sua programação para eles. Hoje, o rap e o rhythm'n'blues (R&B) são os estilos hegemônicos na emissora.

John Olson/Time & Life Pictures/Getty Images
TALENTO PRECOCE
O cantor (em primeiro plano), com os pais e os irmãos nos tempos do Jackson Five: sucesso e traumas em família

Ele de fato criou o pop. Até a década de 70, a música jovem se dividia em dois nichos distintos.

Havia o rock e suas variações, consumidos principalmente por adolescentes brancos e de classe média. E havia a música negra – soul, funk, disco, rhythm'n'blues –, que era ouvida por negros. Jackson quebrou essa barreira em discos como Off the Wall, de 1979, e Thriller, de 1982, e borrou para sempre a linha que separava os dois universos. Nesses discos, o cantor talhou as linhas de baixo e bateria na medida para as pistas de dança; mas associou-as à vibração característica do rock'n'roll. Até mesmo as origens de um fenômeno social notável entre os jovens americanos, o dos adolescentes brancos que querem falar, dançar e agir como negros, podem ser traçadas diretamente à sua influência.

Descontado Stevie Wonder, que lançou o primeiro disco aos 12 anos, mas cujo apelo nunca residiu no magnetismo ou na dança, Michael Jackson foi o primeiro grande ídolo mirim da música. Nascido em 29 de agosto de 1958 em Gary, no estado de Indiana, desde cedo ele mostrou talento para o canto e a dança. Seu pai, Joseph, que havia tentado a carreira num grupo de rhythm'n'blues, percebeu logo o talento de Michael, bem como de seus outros filhos. Transformou-os no Jackson Five, que ensaiava exaustivamente. Em 1968, o grupo foi contratado pela gravadora Motown, a referência mítica da música negra. A audição do Jackson Five para Berry Gordy Jr., fundador e presidente da Motown, deixa claro que a estrela ali era Michael. No vídeo remanescente do teste, ele canta I Got the Feelin', de James Brown, e encarna todos os trejeitos do astro do funk – mas com graça própria.

Katia Lombardi/Folha Imagem, Ron Galella/Wireimages/Getty Images e Reuters
ONIPRESENÇA
Michael Jackson gravando videoclipe no Pelourinho, em Salvador (à esq.), num jantar com Madonna (no centro) e recebendo homenagem de Britney Spears no Madison Square Garden, em Nova York: ele fazia questão de ostentar o epíteto de "rei do pop"

Ao se lançar como artista-solo, em 1971, Jackson já havia aprendido muito sobre composição e produção musical. Teve a sagacidade de, pouco depois, aliar-se ao produtor Quincy Jones, que havia feito carreira no mundo do jazz. Eles colaboraram nos álbuns Off the Wall,Thriller e Bad. Jackson não era ainda o recluso das últimas décadas, mas um artista curioso e vivo. Muitos dos ritmos presentes nesses trabalhos nasceram de suas idas às discotecas, e suas letras vinham repletas das angústias de um rapaz da sua idade. Até 1996, ano em que foi ao Morro Dona Marta, no Rio de Janeiro, e ao Pelourinho, em Salvador, para gravar o clipe de They Don't Care about Us, Jackson ainda vivia no mundo real. Cada vez mais, porém, ia sendo dominado pelo lado obscuramente infantilizado de sua personalidade, que o levaria, a certa altura, a se isolar em sua bizarra propriedade de Neverland – ou Terra do Nunca, em referência ao lugar em que vivia Peter Pan, o garoto que não queria crescer. Esse Jackson aberrante e patético encobriu o totem da revolução pop. Mas, com a sua morte, ele renasceu.

Jack Kightlinger/Time &Life Pictures/Getty Images, Queen International, Peter Turnley/Corbis/Latinstock e Harrison Funk/Zuma Press
SOFT POWER
O cantor recebido na Casa Branca por Ronald e Nancy Reagan (no alto), com Bill Clinton e a filha Chelsea, ao lado de Nelson Mandela (à esq.) e com a princesa Diana(à dir.): símbolo do exercício do poder pelos Estados Unidos por meio da cultura

POR QUE ELE FOI GRANDE


Beth A. Keiser/Pool
MÚSICA
Com ele, a música negra tornou-se a força dominante no pop. O artista mais bem-sucedido de hoje - Justin Timberlake, um branco - ainda bebe de sua fonte


MODA E ESTILO
Seu visual foi moda nos anos 80. Depois disso, o que sobressaiu foi sua excentricidade. Mas os brilhantes e o ouro de suas luvas e casacos tornaram-se parte do vocabulário da alta-costura – até mesmo em desfiles deste ano, de grifes como Louis Vuitton
Reuters


DANÇA
Depois de Michael Jackson, ser um bom dançarino tornou-se imperativo para qualquer astro masculino da música pop. Inspirando-se no break, uma dança de rua, ele inventou seu próprio estilo no começo dos anos 80 – o moonwalk. O uso que Jackson fez de mocassins pretos com meias brancas – em tese, um pecado fashion – era uma homenagem ao uniforme dos bailarinos




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Um comentário:

james disse...

Estou até agora inconformado com a morte dele... era fã de carteirinha...