terça-feira, 16 de junho de 2009

Multidão desafia regime de aiatolás



Moussavi reaparece e desafia aiatolás ao arrastar multidão por Teerã. Comissão investigará eleição

TEERÃ

Teerã foi tomada ontem pela maior manifestação já enfrentada pelo regime dos aiatolás, que chegou ao poder com a Revolução Islâmica de 1979. Uma passeata com um milhão de pessoas atravessou a capital do Irã, depois de o líder supremo do país, o aiatolá Ali Khamenei, ter anunciado publicamente que o resultado das eleições de sextafeira que reelegeram o presidente Mahmoud Ahmadinejad — cuja contagem foi considerada fraudada pelos opositores — deverá ser investigado por uma comissão de clérigos, o Conselho dos Guardiães. No mesmo dia, no entanto, houve os primeiros relatos de pessoas assassinadas por paramilitares ligados ao regime.

O principal candidato da oposição, Mir Houssein Moussavi, que não era visto desde o dia da eleição, esteve na Praça Azadi — Liberdade, em farsi —, onde a multidão se concentrou. Sobre um carro, ele tentou se dirigir aos manifestantes portando apenas um megafone.

Sem conseguir ouvi-lo, mas felizes ao rever o candidato, a multidão pediu, em coro: “Moussavi, nós o apoiamos. Nós morreremos, mas recupere nossos votos”.

— O voto do povo é mais importante do que Moussavi ou qualquer outra pessoa — disse ele. — Vou pagar qualquer preço para materializar os ideais do nosso povo. As pessoas sentem que sua sabedoria foi insultada. A solução é cancelar o resultado desta duvidosa eleição.

Obama: mundo está vendo a violência

Outro personagem importante na política iraniana, o ex-presidente Mohammad Khatami participou do protesto. Oficialmente, os protestos estavam proibidos, mas, ontem, os policiais da tropa de choque que vigiaram a demonstração não fizeram menção de tentar dispersar a multidão.

— Nós queremos nosso presidente, não um que foi imposto à força — disse a manifestante Sara, de 28 anos, que, por medida de segurança só deu o seu primeiro nome.

As esperanças de um dia tranquilo, no entanto, acabaram no fim da manifestação, com um ataque de integrantes da milícia Basij, grupo paramilitar que tem forte ligação com a Guarda Revolucionária, a força militar de elite do regime.

Milicianos abriram fogo do teto de um prédio contra um grupo de manifestantes.

Outros jovens tentaram, por sua vez, invadir o prédio, uma base dos basijs perto da Praça Azadi. Jornalistas viram pelo menos um manifestante ser morto.

Houve relatos de outra morte na cidade de Shiraz, e estudantes chegaram a falar que houve uma chacina na Universidade de Teerã.

Mortes nas mãos de forças do Estado durante protestos contrários ao governo foram o estopim da Revolução Islâmica. A revolta popular contra o regime do xá Reza Pahlevi cresceu muito após jovens opositores serem mortos por policiais, tornando-se “mártires” na luta contra a ditadura.

O anúncio do aiatolá Khamenei de que o resultado da eleição será avaliado surpreendeu o país. No sábado, ele declarara que Ahmadinejad vencera a votação, e que tal resultado era uma “avaliação divina”. Ontem, porém, ele decidiu solicitar ao Conselho dos Guardiães que investigue o pleito — a rádio e a TV estatais repetiram sua decisão a cada 15 minutos ontem.

O pedido para que o conselho estudasse as denúncias de fraude fora feito pelo próprio Moussavi, numa reunião com Khamenei domingo. Outro candidato, o linha-dura Mohsen Rezai, também fez pedido semelhante. Moussavi, no entanto, disse não ter grandes esperanças de uma reviravolta: — Apelei ao Conselho dos Guardiães, mas não estou muito otimista.

Muitos de seus membros durante a eleição não foram imparciais, e apoiaram o candidato do governo.

O conselho é formado por 12 clérigos, indicados por Khamenei.

Manifestações contra a eleição se espalharam ontem por outras grandes cidades de todos os cantos do país, como Mashhad, Isfahan, Tabriz, Shiraz, Ahvaz e Yazd.

Em Washington, o presidente dos EUA, Barack Obama, disse que o mundo se inspira com a juventude iraniana: — Estou profundamente perturbado com a violência que vi na TV. O processo democrático, a liberdade de expressão, a possibilidade de as pessoas discordarem pacificamente são valores universais que precisam ser respeitados.

Seria errado para mim ficar em silêncio. O mundo está vendo e se inspira com as ações dos iranianos, particularmente a juventude.

O Globo - 16/06/2009

Nenhum comentário: