sábado, 20 de junho de 2009

Polícia do Irã entra em choque com ativistas; bomba mata dois

TEERÃ - A polícia iraniana dispersou milhares de manifestantes que protestavam neste sábado, 20, em frente à Universidade de Teerã contra o resultado das eleições presidenciais, disseram testemunhas. Algumas pessoas estavam sendo atacadas pelos policiais, segundo a agência France Presse. Paralelamente, a explosão de uma bomba próxima ao santuário do fundador da Revolução Iraniana, aiatolá Ruhollah Khomeini, matou pelo menos duas pessoas e deixou outros oito feridos, informou a agência semioficial iraniana Fars.

Os manifestantes planejavam um grande ato para este sábado, desafiando as recomendações do líder supremo, aiatolá Ali Khamenei, que afirmou na sexta-feira que os organizadores seriam responsáveis por um "banho de sangue". Mais cedo, a mídia estatal iraniana informou que dois grandes protestos foram cancelados pelos opositores, mas, por causa das restrições à imprensa, as informações não puderam ser confirmadas de forma independente.

Outra testemunha contou à agência Associated Press que os agentes antidistúrbio usavam gás lacrimogêneo e canhões de água para dispersá-los. Fumaça podia ser vista próxima à Praça Enghelab (Revolução), onde estavam manifestantes do candidato derrotado Mir Hossein Mousavi, que alega ter sido vítima de fraude a favor do presidente Mahmoud Ahmadinejad na votação do último dia 12. Fontes disseram que cerca de 3 mil manifestantes reunidos no centro de Teerã gritavam "Morte ao Ditador!" e "Morte à Ditadura!"

Desde a divulgação da surpreendente vitória de Ahmadinejad em primeiro turno, a oposição realiza grandes protestos diários, e alguns deles terminaram com enfrentamentos entre as forças da ordem - apoiadas por milicianos islâmicos Basij - e grupos de manifestantes. Os três candidatos foram convocados neste sábado para uma reunião extraordinária do Conselho de Guardiães, para analisar as 646 queixas formais por irregularidades no pleito.




Vídeo mostra cenas de Teerã neste sábado. Imagens foram divulgadas por manifestantes no YouTube

O Conselho, órgão legislativo iraniano, explicou que os candidatos foram chamados para que "expressem sua opinião e digam suas queixas aos 12 membros do Conselho antes da decisão final". O organismo se mostrou disposto a recontar de forma parcial as urnas em locais onde houve denúncias, embora pareça muito pouco provável que atenda à principal reivindicação da oposição, que é uma nova eleição. Em seus 30 anos de existência, o Conselho de Guardiães nunca anulou um processo eleitoral.

'BANHO DE SANGUE'

Falando a milhares de pessoas na Universidade de Teerã durante a tradicional prece de sexta-feira, Khamenei, maior autoridade do Irã, afirmou que "o povo escolheu quem queria" e responsabilizou o "extremismo" da oposição por qualquer ato de violência. "As demonstrações de rua são inaceitáveis. Elas são uma afronta à democracia após as eleições", disse Khamenei. "O resultado da eleição vem das urnas, não das ruas. Hoje, a nação iraniana precisa de calma."

O líder supremo aproveitou também para atacar o que chamou de "interferência das potências estrangeiras", que questionaram o resultado da eleição. O aiatolá disse que os "inimigos do Irã tentam minar a legitimidade do establishment islâmico". Fazendo referência à invasão dos EUA ao Iraque e ao Afeganistão, ele criticou os americanos. "Não precisamos de conselhos deles sobre direitos humanos."

Mousavi não deu declarações após o discurso de Khamenei. Segundo analistas, o líder opositor tem agora uma escolha difícil: suspender os protestos ou desafiar o aiatolá e aprofundar a crise. Na sexta-feira, a Anistia Internacional estimou que dez pessoas morreram desde o início dos protestos no Irã, há uma semana - segundo dados oficiais, o número de mortos nao passa de oito.


Estadão

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