quinta-feira, 18 de junho de 2009

Rolando lero teórico

Quem reclama dos excessos populistas e das excentricidades nada acadêmicas dos políticos brasileiros deveria prestar mais atenção no presidente Hugo Chávez e se contentar que tudo seria muito pior se estivesse na Venezuela. O bolivariano tem um programa televisivo semanal chamado Aló Presidente onde enfara o povo do seu país com discursos intermináveis.

Ao vivo, demite e nomeia ministros, privatiza empresas, às vezes canta, em outras censura veículos de comunicação. Ou seja, administra o seu país por intermédio de um programa de TV criado para proteger os venezuelanos da contrainformação produzida pelos veículos de informação de direita. Leia-se a imprensa que tenta ser livre em uma ditadura socialista.

Na semana passada Chávez se superou ao estrear o que seria um novo formato do programa que faz dez anos em 2009. Trata-se do imperdível Aló Presidente Teórico. Teórico? Perfeitamente! Conferi a estreia e nunca me diverti tanto com tamanha asneira televisiva. De início, Chávez fez instrutiva explanação do que se tratava o Aló Presidente Teórico e passou a se dedicar à primeira lição: "O poder popular, os conselhos comunais, a comuna". Imediatamente, a plateia irrompeu em aplausos.

O curiboca do Orinoco instou todos os políticos aliados a preparar a formação das comunas, por meio das quais será "parido" o verdadeiro socialismo. Aparentemente, a ideia comporta a transferência do poder ao povo por meio de representação direta. O que equivale dizer que Chávez prepara as bases para acabar definitivamente com o Parlamento venezuelano.

No Aló Presidente Teórico há reflexões filosóficas interessantes e algumas lições práticas de historiografia. "Fiquei sabendo" por intermédio de Chávez que cartesiano vem de Descartes e que Simon Bolívar, 50 anos antes de Karl Marx, havia descoberto que a natureza nos faz desiguais.

Enquanto teoriza, a platéia registra rigorosamente cada palavra de Chávez como se estivesse a participar de aula magna. Só interrompe as anotações para honrar com simpático entusiasmo o grande líder em retumbantes aplausos. Entre a oferta de um conhecimento especulativo e outro, o mais engraçado no Aló Presidente Teórico são as carraspanas que Chávez passa em uma assessora meio atabalhoada e cheia de temor reverencial.

O expediente dá dinamismo ao programa. Aliás, conforme escreveu em editorial o jornal venezuelano El Nacional, a falta de massa cinzenta em Chávez não lhe permite, por mais esforço que faça, ir além do marxismo principiante, fato que o obriga a não se dedicar muito aos fundamentos filosóficos.

Então, intercala o teorismo pueril com elogios a Mahmoud Ahmadinejad, manda um positivo para o regime nortecoreano, recomenda a medicina cubana e distribui recursos para líderes das comunas. Em gesto de gratidão e obediência, eles erguem o braço direito com o punho cerrado em forma de saudação fascista de dar inveja ao fascista MST.

Chávez prega no Aló Presidente Teórico que a comuna, como ente revolucionário, como base territorial, social, política e moral deve ser construída. Não compreendi muito bem, mas gostei bastante do programa, um misto de Cassino do Chacrinha com Escolinha do Professor Raimundo. Pobres venezuelanos.


Demóstenes Torres
Blog do Noblat

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