sábado, 13 de junho de 2009

Sucessão; Lula quer "eleição plebiscitária"

OS DOIS ATORES

Lula e Serra em reunião em Brasília: o presidente sonha ver o tucano como o único adversário de Dilma Rousseff



A estratégia de Lula para 2010 é levar os eleitores a dizer
com o voto se aprovam ou desaprovam seu governo, naquilo
que está sendo chamado de "eleição plebiscitária"


Otávio Cabral

Nos Estados Unidos, as campanhas presidenciais são historicamente plebiscitárias – ou seja, os eleitores acabam sendo levados durante os infindáveis quase dois anos de debates a decidir se aprovam o governo que sai ou se o rejeitam. Quando aprovam, ganha o presidente que busca um segundo mandato ou o candidato indicado por ele. Quando reprovam e querem mudança de rumo, os eleitores escolhem o oposicionista. Nesses casos, o carisma, a oratória, as promessas, a história de vida dos candidatos contam menos que um SIM ou um NÃO ao governo, como se estivessem votando uma questão qualquer em um plebiscito. Com os índices de aprovação de Lula e seu governo beirando os 70%, tentar fazer das próximas eleições presidenciais um plebiscito sobre a administração que sai é uma boa aposta para o PT.

Essa será a estratégia a ser seguida. Ela embute alguns pré-requisitos. O principal é ter apenas um candidato inteiramente identificado com o governo. É ideal também que do lado da oposição surja apenas um nome forte que renegue "tudo isso que está aí". No cenário dos sonhos de Lula, os eleitores serão levados a escolher Dilma Rousseff, caso aprovem o governo, ou o candidato da oposição, provavelmente o tucano José Serra, se acharem que está tudo errado. Mas, para que a estratégia plebiscitária funcione, é preciso combinar com os russos, como dizia Garrincha. No quadro atual, já existem pelo menos mais dois políticos da chamada base aliada que sonham em ser candidatos na corrida presidencial reivindicando para si parte do sucesso do governo petista.

O presidente Lula está negociando pessoalmente com os partidos a retirada de candidaturas que possam atrapalhar seu projeto de "eleição plebiscitária" – leia-se a do deputado Ciro Gomes (PSB) e a do senador Cristovam Buarque (PDT). "Lula não quer que a eleição tenha candidatos que defendem o governo no geral, mas que pregam mudanças na economia, como o Ciro, ou na educação, como o Cristovam. Isso dificulta a tática do plebiscito", afirma um ministro próximo ao presidente. A operação para tirar Cristovam é considerada a mais simples e já está praticamente concretizada. Ele dá sinais disso. "Não abandonei a disposição de ser candidato a presidente, mas dependo do PDT. E sinto hoje que o PDT quer ficar ao lado do candidato de Lula", afirma Cristovam Buarque.

A operação para anular as pretensões de Ciro Gomes é bem mais complexa. Além de apoio do PT a candidatos do PSB, Lula ofereceu a Ciro a candidatura ao governo de São Paulo em uma ampla aliança com os partidos da base aliada. Lula e o presidente do PSB, o governador Eduardo Campos (PE), andam tentando mostrar a Ciro que essa engenharia bizarra pode ter alguma chance. Na terça-feira passada, Ciro esteve no Recife para uma conversa com Campos, que lhe exibiu uma pesquisa do Ibope. Nela Ciro aparece com 18% das intenções de voto ao governo paulista. Eduardo Campos insistiu que esse é o melhor caminho e pressionou deixando evidente que o PSB dificilmente dará legenda a Ciro Gomes. Diz Ciro: "Por mim, mantenho a candidatura à Presidência. Mas a seriedade do projeto e o nível das pessoas que me pediram para aceitá-lo fazem com que eu pense em concorrer ao governo de São Paulo".

COM A FORÇA DO POVO: Campanha de Lula à reeleição em 2006: o governo nas urnas




Jaques Wagner, governador petista da Bahia, é um dos entusiastas da estratégia de Lula. "Com a antecipação da campanha, o natural é que o jogo fique cada vez mais polarizado entre Dilma e Serra. Aí serão dois modelos em jogo. O eleitor vai escolher entre continuar com o modelo que está dando certo e voltar ao que era antes", diz Wagner. Lula lembrará que gerou mais empregos, que o crescimento econômico foi maior em sua gestão, que ampliou o acesso à universidade, reduziu a miséria graças ao Bolsa Família e transformou o Brasil de devedor em credor internacional. Há fatos que serão obviamente esquecidos. Entre eles, o de que Lula herdou do tucano Fernando Henrique Cardoso um país pronto para a modernidade, com uma política econômica, mantida intacta, baseada no tripé de câmbio flutuante, controle da inflação e responsabilidade fiscal.

Uma pesquisa do Ibope divulgada na semana passada fortaleceu os defensores no governo da estratégia de forçar a campanha rumo ao voto plebiscitário. A pesquisa mostrou que Dilma Rousseff tem 18% das intenções de voto. Há um ano, ela tinha 5%. Ainda está longe de Serra, que tem 38%. Mas Dilma já ultrapassou os demais rivais. Como é da natureza da política desconsiderar os fatores humanos, o cálculo das vantagens da estratégia plebiscitária leva em conta até a possibilidade de Dilma Rousseff ter de abandonar a campanha em razão do tratamento contra o câncer a que se submete. Uma campanha disputada sobre o legado do governo Lula seria teoricamente menos dependente de um candidato específico do que outra modalidade de disputa em que o carisma, a história e as promessas estejam umbilicalmente ligados a um nome e a um rosto. Alguns analistas enxergam nesse modelo de comparação entre gestões um sinal de fortalecimento institucional que dificulta o surgimento de aventureiros. "Se o PT e o PSDB continuarem dominando a política brasileira, a tendência é a consolidação desse modelo plebiscitário", diz Octaciano Nogueira, cientista político da Universidade de Brasília. Na teoria o modelo parece azeitado. Mas é sempre bom lembrar que o eleitor brasileiro adora experimentar a sensação vertiginosa de contrariar as teorias nas urnas.

O que é uma "eleição plebiscitária"

É aquela em que o julgamento do desempenho do governo que sai é o centro dos debates – e não as qualidades, o carisma ou a história dos candidatos. Quando o governo que sai é muito bem avaliado, como o de Lula (70%), o candidato da situação, seja quem for, busca se apresentar como o continuador da obra tão apreciada pelo eleitorado.Abaixo, eleições plebiscitárias e não plebiscitárias no Brasil de 1989 até 2010

1989 – não plebiscitária
A primeira eleição direta após o governo militar teve 22 candidatos, mas nenhum deles defendeu o legado do regime militar ou de José Sarney, o primeiro presidente civil pós-ditadura

1994 – não plebiscitária
Fernando Henrique Cardoso, ministro da Fazenda de Itamar Franco, foi eleito em uma campanha com oito candidatos que também não girou em torno da herança do governo anterior

1998 – plebiscitária
FHC foi reeleito no primeiro turno em uma campanha que teve como principal ponto de discussão a manutenção do Plano Real, que conseguiu domar a inflação

2002 – não plebiscitária
Lula foi eleito presidente em uma campanha na qual nenhum dos seis candidatos defendeu o legado dos oito anos de FHC

2006 – não plebiscitária
Lula foi reeleito defendendo a manutenção de alguns pontos de sucesso do governo, mas com a promessa de modificar áreas que não deram resultado


Revista Veja, ed 2117

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