domingo, 21 de junho de 2009

Tudo normal no Irã


Protestos continuam após Khamenei alertar para ?banho de sangue?; 19 pessoas morreram, segundo a TV CNN

AFP, REUTERS E AP

Opositores iranianos desafiaram ontem as advertências feitas na véspera pelo líder supremo do país, aiatolá Ali Khamenei, e saíram às ruas novamente para protestar contra a reeleição do presidente Mahmoud Ahmadinejad numa votação que eles dizem ter sido fraudada. Segundo a TV CNN, um hospital local confirmou a morte de 19 pessoas durante o confronto com a políca, mas esse número pode chegar a 150. Enquanto isso, o líder opositor, Mir Hossein Mousavi, voltou a pedir a anulação da eleição presidencial e, segundo aliados citados pela agência Reuters, disse estar "pronto para o martírio".


Desde o início da manhã de ontem, helicópteros sobrevoaram Teerã e forças de segurança tomaram posição em locais estratégicos, numa tentativa de evitar protestos. Segundo testemunhas, pelo menos 3 mil pessoas tentaram chegar à Praça Enqelab, no centro da capital, mas foram impedidas pela polícia com canhões de água e bombas de gás lacrimogêneo. Manifestantes reagiram queimando veículos.

Dezenas de opositores foram golpeados por policiais ou milícias pró-governo e ao menos um civil foi ferido a bala. A Universidade de Teerã foi cercada e esvaziada pela polícia enquanto estudantes gritavam "Morte à ditadura". Outros manifestantes, em pequenos grupos, fizeram protestos em vários pontos de Teerã e nas cidades de Isfahan, perto da capital, e Shiraz, no sul do país. O presidente dos EUA, Barack Obama, criticou ontem a repressão a civis.

No fim da tarde, um suicida detonou os explosivos que levava atados ao corpo perto do mausoléu do líder da Revolução Islâmica de 1979, aiatolá Ruhollah Khomeini, segundo o chefe adjunto da polícia iraniana, Hossein Sadjedinia, citado pela TV estatal. A explosão teria matado apenas o homem-bomba e deixado oito feridos, mas não pôde ser confirmada pela imprensa independente. Analistas dizem que o ataque ao mausoléu pode gerar uma reação violenta de conservadores.

A oposição iraniana está protestando há uma semana para denunciar fraude nas eleições do dia 12 e exigir a recontagem de votos - possibilidade afastada ontem pelo Conselho de Guardiães. "Mesmo que não estejamos obrigados legalmente, estamos dispostos a recontar 10% das urnas na presença de representantes dos três candidatos derrotados", disse o porta-voz do Conselho, Abas Ali Kadkhodaei.

Na sexta-feira, Khamenei fez um duro discurso na Universidade de Teerã exigindo o fim dos protestos e responsabilizando a oposição por qualquer "derramamento de sangue".

O líder opositor Mousavi - que obteve 34% dos votos nas eleições (contra 63% do radical Ahmadinejad) - rejeitou a decisão de ontem do Conselho dos Guardiães, exigindo a anulação da eleição. Ele apareceu num protesto no sul de Teerã e pediu a aliados que convoquem uma greve geral caso seja detido. "Estou pronto para o martírio", disse. Depois, postou em seu site um comunicado no qual deixou claro que seu objetivo não é desafiar o Estado islâmico.

Estadão

OPNIÃO:

A crise que abala os alicerces do regime iraniano era prevista. A começar por um número: mais de 70% da população tem até 30 anos. Nascidos após a Revolução Islâmica, em 1979, esses jovens não se identificam com seus ideais. Eles não viram o nacionalista Mohammed Mossadegh, líder do governo mais democrático que o Irã já conheceu, ser deposto por um golpe apoiado pela CIA, em 1953, episódio emblemático, que levou a uma crescente insatisfação do povo iraniano e mais tarde deu espaço ao surgimento de um novo líder, aiatolá Khomeini, culminando com a sua vitória, em 1979.

O movimento atual segue a mesma lógica do passado. Com a vantagem da revolução tecnológica que permite ao povo organizar-se mais facilmente hoje, via Internet - o governo até tenta, mas é impossível bloquear todos os sites, blogs, chats e a comunicação por celular, e o farsi, idioma oficial do Irã, já é o segundo da blogosfera ao lado do francês.

O nacionalismo enraizado na cultura de um povo altamente politizado e mobilizado, heranças da antiga Pérsia, não devem ser desprezados. Não é a primeira vez que os iranianos vão às ruas e nem será a última. Quando estive em Teerã, em junho e julho de 2007, o governo anunciara um programa de racionamento da gasolina - embora seja o terceiro maior produtor mundial de petróleo, o Irã não tem tecnologia para o refino e importa quase a metade do combustível consumido internamente - gerando violentos protestos. Também presenciei mulheres em passeata por igualdade de direitos e estudantes que pediam liberdade de imprensa. Todos eles foram seguidos de violenta resposta da polícia.

Mas, os persas não são um povo de se dobrar facilmente.

Que o regime atual, como é, terá de se reinventar de alguma forma ou estará fadado ao fracasso é certo. Na história recente do Irã, no entanto, falta ainda um importante personagem para que o movimento reformista culmine com uma nova revolução e a queda da ditadura islâmica: um líder com a mesma força e carisma do então jovem religioso e idealista Ruhollah Khomeini. Resta saber se Mir Hossein Mousavi terá fôlego para tanto.


Estadão

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