segunda-feira, 1 de junho de 2009

Vôo AF 447 da Air France Capítulo 3


SÃO PAULO - Os motivos para o desaparecimento do Airbus A330 da Air France, que saiu do Rio de Janeiro com destino a Paris, seguem desconhecidos. De acordo com a Aeronáutica, o voo 447, que deveria ter chegado a Paris às 6h10 (horário de Brasília), pode ter tido problemas técnicos. Durante o voo, a 1.228 quilômetros de Natal, a aeronave informou perda de pressurização e falha no sistema elétrico. O diretor de comunicação da companhia, François Brousse, declarou que também é possível que o avião tenha sido atingido por um raio.

Outra possível causa é a condição climática da região onde o avião teria desaparecido. Trata-se da chamada zona de convergência intertropical, onde há a formação de muitas áreas de instabilidade, com raios e tempestades. De acordo com a meteorologista da Climatempo, Fabiana Weykamp, esta hipótese não pode ser descartada, mas ela destaca que esta zona de convergência intertropical é muito conhecida de pilotos e companhias aéreas. Portanto, esta instabilidade da região seria levada em conta no plano de voo da aeronave da Air France.

O comandante Carlos Camacho, diretor de Segurança de Voo do Sindicato Nacional dos Aeronautas, acredita que de fato a aeronave passou por uma região de turbulência e que isso teria levado a uma falha estrutural seríssima, causando até uma explosão.

"Nós não podemos especular, mas as informações fornecidas pela companhia aérea são fatos. Foi divulgada a informação que a aeronave passou por turbulências e foi atingida por raios. Sabemos que um raio muito forte pode causar falhas estruturais sérias, como a perda de uma asa ou de um parte frontal. Nesse último caso, o raio pode entrar pelo radar e provocar um buraco na aeronave, que se desmancha em pleno voo", explica o comandante.

Segundo ele, essa é a explicação que se pode ter, no momento, diante das informações e considerando que se trata de uma aeronave de grande porte, com 60 metros de envergadura de cada asa. Ele lembra ainda que a aeronave tinha bastante combustível, pois apesar de ter voado oito horas, ainda tinha três horas de combustível para voar.

O chefe da Divisão de Operações do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), Marcelo Seluchi, também aponta as condições meteorológicas como uma das principais causas para o acidente. "Jatos de vento horizontais muito intensos, a proximidade de uma incomum frente fria e mudanças súbitas de temperatura são fatores meteorológicos que podem ter colaborado para que a aeronave tivesse registrado problemas sérios", comentou.

Segundo ele, correntes de ar verticais ascendentes e descendentes podem ter ocorrido na região, mas é difícil avaliar se alguma delas atingiu o avião a ponto de provocar a desestabilização e desaparecimento. Ele apontou que é pouco provável que na altitude que o avião da Air France estava quando desapareceu tenha enfrentado dificuldades de flutuação por causa da formação de gelo nas asas, pois esse é um fenômeno que não ocorre de forma súbita e os pilotos conseguem detectar quando isto começa a se formar.

Especialistas e pilotos experientes duvidam que um raio, hipótese mencionada pela Air France, seja a única causa para o desaparecimento do avião. Thierry Oriol, do sindicato dos pilotos de linha aérea, ressaltou à BFM TV que vários aviões são atingidos por raios todas as semanas sem consequências notáveis. "O raio não faz cair aviões, nem uma pane elétrica. Mas pode acontecer uma conjunção de fatores agravantes", acrescentou.

Bomba de Hiroshima

O professor de Engenharia Aeronáutica da USP em São Carlos, James Waterhouse, faz parte dos especialistas que acreditam que o mau tempo deve ter sido o responsável pelo desaparecimento do avião. Segundo ele, os problemas meteorológicos podem ter provocado falhas estruturais na aeronave, a ponto de desestabilizá-la.

"A região onde o avião fez sua última comunicação apresentava uma área de turbulências violentas e até eventualmente formação de granizo. Nessa região por onde o avião passou haviam diversas nuvens e em cada uma delas o potencial de energia era tão grande quanto uma pequena bomba atômica, um pouco menor do que a destruiu Hiroshima", afirmou o acadêmico.

Para Waterhouse, é muito improvável que um raio isolado tenha provocado problemas sérios no avião a ponto de ter causado seu desaparecimento. Segundo ele, aviões modernos, como o Airbus A330-200 são preparados para passar por tempestades intensas, inclusive com a incidência de diversos raios.

"Este tipo de avião tem sofisticados sistemas eletrônicos que são repetidos, pois se um deles falhar devido a um fenômeno externo a aeronave pode manter um bom nível de segurança de voo", comentou. "São ínfimas as probabilidades de que apenas um raio cause a queda de um Airbus."

Na avaliação do acadêmico, contudo, algumas hipóteses podem ser levantadas sobre os fatores que provocaram o desaparecimento do avião da Air France. Segundo ele, um conjunto de elementos como o mau tempo, ventos de alta velocidade e turbulências muito expressivas podem ter causado a falha de uma turbina ou abalos significativos na estrutura do avião.

"Eventualmente, uma fissura no tanque pode ter causado vazamento de combustível. Como a aeronave pode ter passado por uma região com raios, uma descarga elétrica pode ter até causado uma explosão", disse.

O professor ponderou que o piloto do avião da Air France era experiente, pois possuía mais de 11 mil horas de voo, e sabia como lidar quando passava por regiões com dificuldades meteorológicas.

"Mas como a área que apresentava mau tempo e turbulências era gigantesca, o comandante pode ter tentado encontrar uma alternativa para estabilizar o avião. Porém, sem querer, a saída buscada pelo piloto pode ter levado o avião para uma região com maior nível de problemas", comentou. Waterhouse estima que o avião estava a uma altitude próxima a 38 mil pés quando desapareceu, altura que é perfeitamente viável a incidência de turbulências e ventos fortes.

Voo

O voo 447 levava 126 homens, 82 mulheres, 7 crianças e um bebê, além dos 12 tripulantes - 3 tripulantes técnicos e 9 comissários. O nome dos passageiros ainda não foram divulgados pela companhia. Segundo a companhia, a aeronave entrou em funcionamento em 2005 e recebeu manutenção pela última vez em 16 de abril deste ano.

Em seu terceiro comunicado sobre o desaparecimento do voo AF 447, a Air France informou que já transmitiu ao bureau de investigação e análises para segurança de aviação civil, o organismo responsável na França pelas investigações técnicas de acidentes e incidentes aéreos, e para a Airbus, fabricante do avião, as informações que tem em seu poder sobre o caso.

Desaparecimento

A fabricante de aeronaves Airbus informou que ofereceu assistência técnica na investigação sobre o desaparecimento do avião. A companhia apontou, porém, que a investigação segue a cargo das autoridades responsáveis e seria "inapropriado" que a empresa levantasse qualquer hipótese sobre as causas do acidente neste momento.

O desaparecimento de aviões de telas de radar durante o voo é "raríssimo", segundo disse à BBC Brasil o presidente da Federação Internacional das Associações de controladores de Tráfego Aéreo, IFACTA, na sigla em inglês. De acordo com Mark Baumgartner, ainda é muito cedo para tentar dizer o que pode ter ocorrido com o voo da 447 da Air France.

Segundo Baumgartner, já houve desaparecimentos do tipo no passado - como no caso do voo 881 da TWA, que explodiu perto da costa de Long Island segundos depois de desaparecer dos radares - mas são situações raras. Em alguns casos, o avião teve que realizar pouso de emergência no meio do caminho. Para Baumgartner, no caso de uma falha técnica, o avião provavelmente teria tentado pousar em algum lugar no meio do caminho.

Veja os contatos feitos pela aeronave:

- 19h30 (horário de Brasília) - a aeronave decolou do Aeroporto do Galeão

- 22h33 (horário de Brasília) - a aeronave realizou o último contato via rádio com o Centro de Controle de Área Atlântico (Cindacta III), na posição INTOL que está localizada a 565 quilômetros de Natal (RN). Neste ponto, a aeronave informou que ingressaria no espaço aéreo de Dakar, a 1.228 quilômetros de Natal, às 23h20 (horário de Brasília).

- 22h48 (horário de Brasília) - a aeronave saiu da cobertura radar do Cindacta III, de Fernando de Noronha. As informações indicavam que a aeronave voava normalmente a 35.000 pés (11 quilômetros) de altitude e a uma velocidade de 453 KT (840 quilômetros por hora).

- 23h20 (horário de Brasília) - este era o horário estimado para o novo contado da aeronave, o que não aconteceu. O Cindacta III informou a falta de contato ao Controle Dakar.

- 02h30 (horário de Brasília), desta segunda-feira (dia 1º), o Salvero Recife acionou os meios de busca da Força Aérea Brasileira (FAB), com uma aeronave C-130 Hércules e uma P-95 Bandeirante de patrulha marítima, além do Esquadrão aeroterrestre de Salvamento (PARASAR).

- 8h30 (horário de Brasília), desta segunda-feira (dia 1º) - a Air France informou ao Cindacta III que a aproximadamente 100 quilômetros da posição Tasil, a 1.228 quilômetros de Natal, o voo 447 enviou uma mensagem para a companhia informando problemas técnicos na aeronave (perda de pressurização e falha no sistema elétrico).

Estadão


Nenhum comentário: