segunda-feira, 20 de julho de 2009

A 1ª Guerra Mundial: Capítulo 8 - Protesto de um pacifista

A febre da guerra: pupilos da prestigiosa Eton College britânica se exercitam com cartolas - e rifles nos ombros


Filósofo britânico condena a entrada de seu país na
guerra – Para Bertrand Russell, multidões dos países beligerantes parecem
sedentas de sangue – Governo do país é alvo de duras críticas


o contrário da vasta maioria dos meus compatriotas, mesmo neste momento, em nome da humanidade e da civilização, eu protesto contra nossa parcela na destruição da Alemanha. Há um mês, a Europa era uma comunidade pacífica de nações; se um inglês matasse um alemão, ele era enforcado. Agora, se um inglês mata um alemão, ou se um alemão mata um inglês, ele é um patriota, que honrou seu país.

Nós vasculhamos os jornais com olhos famintos por notícias de massacres, e nos saciamos quando lemos que jovens obedientes, cegamente obedientes à palavra de comando, são eliminados aos milhares pelas metralhadoras em Liège. Aqueles que viram as multidões de Londres durante as noites que antecederam a declaração de guerra viram uma população inteira, antes pacata e humana, empurradas em questão de dias na ladeira íngreme do barbarismo primitivo, extravasando, de súbito, os instintos de ódio e sede por sangue contra os quais toda a trama da sociedade foi tecida.


"Patriotas" em todos os países celebram esta orgia brutal como a nobre determinação de vingar seus direitos; a razão e a piedade são varridas por uma grande avalanche de ódio; abstrações da maldade – dos alemães sobre nós e os franceses; dos russos sobre os alemães – escondem o simples fato de que os inimigos são homens, homens como nós, nem melhores nem piores – homens que amam suas casas e a luz do sol, e todos os simples prazeres da vida comum; homens agora enlouquecidos pelo terror da imagem de suas mulheres, irmãs e filhas expostas, com nossa ajuda, à piedade dos conquistadores cossacos. E toda essa loucura e fúria e morte flamejante de nossa civilização e nossas esperanças foi provocada porque os políticos, quase todos estúpidos e todos sem imaginação ou coração, escolheram que ela ocorresse ao invés de sofrerem um mínimo arranhão ao orgulho do país.

É impossível não concluir que o governo da Grã-Bretanha fracassou em seu compromisso com a nação ao não revelar seus antigos acordos com a França e, de última hora, revelar esses acordos e usá-los como base para um apelo à honra. Impossível não concluir que o governo fracassou em seu compromisso com a Europa, ao não declarar a posição logo no começo da crise, e que fracassou em seu compromisso com a humanidade ao não informar a Alemanha das condições que garantiriam sua não-participação numa guerra que, qualquer que seja seu desfecho, provocará indizível sofrimento e a perda de muitos milhares de nossos mais nobres e corajosos cidadãos.

Bertrand Russell, de 42 anos, é filósofo, historiador e matemático. Professor da Trinity College, integrante da Royal Society, é autor de oito livros, incluindo Princípios da Matemática.


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