segunda-feira, 20 de julho de 2009

Afeganistão teme onda de violência com eleições

CABUL - Em meio à maior ofensiva militar americana desde o início da guerra, em 2001, o Afeganistão se prepara para as eleições de 20 de agosto. Diante de acusações de fraude eleitoral e da expectativa de intimidação de eleitores pelo Taleban e outros grupos rebeldes, observadores temem que a eleição afegã repita o tumulto eleitoral iraniano, uma vez que o Afeganistão é muito mais instável que o Irã e os protestos poderiam aprofundar a violência no país.

Há 41 candidatos presidenciais, mas apenas três são considerados viáveis - o presidente Hamid Karzai, o ex-ministro das Finanças Ashraf Ghani e o ex-chanceler Abdullah Abdullah. Karzai lidera com 30% das intenções de voto nas poucas pesquisas disponíveis, enquanto Abdullah vem em segundo, com 10%, e Ghani tem 7%.


A vitória de Karzai é esperada, mas analistas começam a apostar em um segundo turno, que poderia agravar a situação. "Não podemos nos dar ao luxo de uma eleição como a do Irã. Se 20 mil afegãos forem para as ruas protestar, teremos uma guerra civil. O ambiente é muito volátil", disse ao Estado Ajmal Abidy, porta-voz de Ghani.

A oposição acusa Karzai de usar a máquina estatal, ocupando salas do palácio presidencial para promover eventos de campanha. "Em uma das províncias, o conselho distrital está buscando pessoas em casa e oferecendo-lhes almoço em troca de trabalho para a campanha", disse Abidy. Segundo um assessor político da União Europeia em Cabul, vários cartazes educacionais, usados para ensinar as pessoas a votar, estampam o símbolo da campanha de Karzai - uma balança. "Ele usa a máquina para tudo nesta eleição" , disse outro assessor, que pediu para não ser identificado.

Karzai nega irregularidades. O porta-voz da campanha do atual presidente, Wahid Omar, tentou justificar o fato de Karzai usar salões no palácio presidencial para encontros de campanha. "É o lugar mais seguro do país", disse.

Voluntários de todos os candidatos têm sofrido intimidação. Na semana passada, um voluntário que fazia campanha para Abdullah Abdullah foi assassinado na Província de Kapisa. O escritório de campanha de Karzai em Panjshir foi alvo de um atentado à bomba. Uma carreata de Ghani foi atingida por uma granada. "Os insurgentes farão de tudo para atrapalhar o processo eleitoral", afirmou Omar.

Para a oposição, o governo das províncias também está envolvido nos ataques. "Recebemos ligações todos os dias de dezenas de pessoas dizendo que os governos provinciais, alguns dos quais apoiam Karzai, estão impedindo nossos voluntários de distribuir cartazes", disse Abidy. "Um dos voluntários, deficiente físico, levou uma surra com suas próprias muletas."

Haroun Mir, vice-diretor do Centro de Políticas e Pesquisas do Afeganistão, disse que há 34 distritos no sul do país que estão fora do controle do governo. Nesses locais, o Taleban permitiu o registro dos eleitores, mas ainda não se pronunciou sobre a eleição. "Esperamos alguns ataques", disse Mir, que considera que os candidatos bastante ativos na campanha, apesar da insegurança.

Segundo ele, os eleitores é que andam desmotivados por causa da corrupção e do continuísmo no governo. A decepção dos afegãos pode provocar tumultos se o presidente vencer logo no primeiro turno. Cerca de 17 milhões de afegãos podem votar no dia 20 de agosto. Pelo menos 250 mil observadores internacionais acompanharão a votação.

Estadão

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