domingo, 19 de julho de 2009

DE FERNANDO HENRIQUE A WITTGENSTEIN

Estava eu aqui, tranquilamente, elevando meu conhecimento sobre o desenvolvimento, lendo aqui e ali as sábias palavras de Fernando Henrique Cardoso, o Lula barroco - Perspectivas para uma Análise Integrada do Desenvolvimento -, quando descobri ao lado (meus livros são tão bem arrumados como os da Biblioteca de Alexandria. Depois do incêndio) o Tractatus Logico-Philosophicus. Logisch-philosophische Abhandlung, de Wittgenstein. Como todos sabem, Wittgenstein revolucionou a Filosofia no século XX, que Fernando Henrique chama de século vindouro. Outros dizem que Wittgenstein acabou com a filosofia.

Para que os leitores de Paulo Coelho tenham noção da complexidade de Wittgenstein, Bertrand Russell, o último filósofo com que ele ainda mantinha contato, leu as últimas dez linhas que ele escreveu e declarou: "Não entendi nada. Mas é genial!".

Bondoso que sou, não resisto a separar um trecho, apanhado ao acaso, de qualquer parte da estupefaciente dissertação de Fernando Henrique sobre o desenvolvimento, em 323 páginas, e compará-lo com um trecho das 83 páginas do Tractatus do austríaco. Leiam e vejam como se simplifica a complexidade e se complica a simplicidade.

FERNANDO HENRIQUE CARDOSO

Perspectivas para uma Análise Integrada do Desenvolvimento

Em síntese, reconhecendo a especificidade das distintas formas de comportamento, a análise sociológica trata de explicar os aparentes "desvios", através da determinação das características estruturais das sociedades subdesenvolvidas e mediante um trabalho de interpretação. Não é exagerado afirmar que é necessário todo um esforço novo de análise a fim de redefinir o sentido e as funções que as classes sociais têm no contexto estrutural da situação de subdesenvolvimento e as alianças que elas estabelecem para sustentar uma estrutura de poder e gerar a dinâmica social e econômica.

As duas dimensões do sistema econômico, nos países em processo de desenvolvimento, a interna e a externa, expressam-se no plano social, onde adotam uma estrutura que se organiza e funciona em termos de uma dupla conexão: segundo as pressões e vinculações externas e segundo o condicionamento dos fatores internos que incidem sobre a estratificação social.

A complexidade da situação de subdesenvolvimento dá lugar a orientações valorativas que, apesar de contraditórias, coexistem. Pareceria que se produzem, por seu turno, certas situações nas quais a atividade dos grupos sociais corresponde às pautas das "sociedades industrializadas de massas", (e outras) em que têm preponderância as normas sociais típicas das "situações de classe" e até das "situações estamentais".

LUDWIG WITTGENSTEIN

Tractatus Logico-Philosophicus.
Logisch-philosophische Abhandlung

PREFÁCIO

Talvez este livro só seja entendido por alguém que, ele próprio, já pense como o que está expresso aqui. Ou tenha pensamentos semelhantes. Este não é um textbook. Seu objetivo terá sido atingido se der prazer à pessoa que o leu e entendeu.

Este livro lida com os problemas da filosofia, e mostra, acredito, a razão por que esses problemas são aqui colocados: é porque a lógica da nossa linguagem não é compreendida. O sentido total do livro pode ser sintetizado nas seguintes palavras: o que pode ser dito pode ser dito claramente e aquilo sobre o que não podemos falar devemos passar por cima, silenciar.

Nota do editor desta página

Depois de lerem os dois textos acima, os leitores me digam qual preferem.

E se Fernando Henrique pode ser acusado de falta de decoro intelectual.

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