segunda-feira, 13 de julho de 2009

Irã ignora lições históricas

Autor: Carlos Fuentes
O Estado de S. Paulo - 12/07/2009

Não é a primeira vez que um governo autoritário ignora a vontade dos eleitores e confirma sua permanência no poder. Não é a primeira vez que um governo autoritário sai às ruas para reprimir a oposição e a acusa de ser manipulada do exterior. Não é a primeira vez.

Em diferentes graus, os acontecimentos de 40 anos atrás ilustraram esses antecedentes. O governo da França não calculou o alcance do movimento de Maio de 1968. O Maio de Paris revelou a dinâmica de uma nova classe média liberta de filiações partidárias e mais associada ao consumo e à liberdade dos costumes do que à militância nos partidos. O comunista, partido alternativo do poder, perdeu o que tinha, fechando as portas ao movimento "pequeno-burguês" dos estudantes. No final, estes ganharam; o Partido Comunista perdeu e com ele perderam todas as tradicionais filiações da França, que hoje é um país sem partidos, e depende da capacidade de cooptação do presidente, mas com uma amplíssima margem de liberdades individuais.

Um caso muito mais grave foi a repressão soviética, em agosto de 68, do movimento que aspirava a um socialismo democrático na Checoslováquia. Os tanques do Pacto de Varsóvia arrasaram a aposta num socialismo com liberdades. Os líderes checos foram humilhados pelo Kremlin.

Hoje, a República Checa é um país de democracia pluripartidária, e Moscou um poder distante, refém de suas contradições desencadeadas entre a tradição autoritária e o impulso democrático.

Por fim, o México foi o caso mais grave de perpetuação autoritária. Nem ontem nem hoje é imaginável a cegueira do poder diante das transformações auspiciadas pelo próprio poder durante seu longo período (1920-1964) de legitimação revolucionária. Gustavo Díaz Ordaz representa a cegueira do sistema diante do próprio sistema, necessitado de uma reforma que desta vez foi encabeçada pela juventude massacrada em Tlatelolco, em outubro de 68. Na tentativa de salvar o poder, Díaz Ordaz o sacrificou para sempre.

É óbvio que o governo iraniano desconhece (ou quer desconhecer) essas lições históricas. Com absoluta falta de proporção, concedeu ao governo no poder, o de Mahmoud Ahmadinejad, sem tempo para contar os votos, uma vitória incrível (63% da votação) contra uma oposição criada pelo próprio poder.

À primeira vista, esta seria uma guerra de facções internas ao próprio regime. Não é assim porque das manifestações em Teerã participaram 100 mil cidadãos, em sua maioria gente jovem que cresceu sob o regime que sucedeu ao xá em 1979, gente que é partidária do regime e pede apenas ? apenas! ? maiores liberdades. Uma das características que define o movimento é a grande quantidade de mulheres que fazem sentir sua presença na sociedade iraniana.

Pode esta complexidade social e suas evidentes ambições, pode um número tão espantoso de cidadãos ser manipulado do exterior? Não desdenho o passado. A Grã-Bretanha agiu como potência imperial no Irã até 1919 e o próprio Barack Obama reconheceu que os EUA manipularam a derrubada do líder reformista Mahoma Mosadeg, em 1953. Mas, hoje, o movimento iniciado pela sociedade é tão amplo que não pode ser manejado por nenhuma potência estrangeira. É tão grande a ponto de o próprio poder oficial iraniano não o conseguir refrear.

As forças de segurança pública, os grupos de repressão do regime, o gás, as bazucas, os jovens mortos, dissiparam o movimento. E as pessoas refugiaram-se nos telhados, gritando simultaneamente "Alá é grande", esquivando-se da censura absoluta com os novos instrumentos da internet. Entrincheirado, o poder conjunto do líder supremo, Ali Khamenei, e de Ahmadinejad será, no final, derrotado pela disputa interna contra o regime, pelo abuso da força e, principalmente, pela permanência, vitalidade e desejo de uma população em que 70% são jovens e querem um país mais livre.

A questão pendente envolve o programa nuclear do Irã e a flexibilidade de negociação tanto de Teerã quanto de Washington. Obama condenou a repressão iraniana, mas não fechou a porta para a negociação (até agora). O presidente americano, como de hábito, não fecha nunca uma porta e sempre lembra a seus críticos: "Só existe um presidente nos EUA e sou eu." Deixando de lado os comentários, Obama reafirma sua capacidade oficial para julgar e proceder. Uma coisa seria condenar a brutalidade do regime e outra negociar com o regime a questão nuclear.

O governo iraniano vai se legitimar se Washington negociar com ele a questão nuclear? Ou Obama consegue censurar e também negociar? E Teerã seria capaz de separar uma censura, que lhe pode tirar legitimidade, de uma negociação condicionada a um único tema de transcendência internacional? Parece que esse é o dilema. Circundado pelo despertar de toda a sociedade.

*Carlos Fuentes, escritor, é um dos maiores nomes da literatura do México

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