quinta-feira, 2 de julho de 2009

Líder interino de Honduras diz que não negociará com OEA

TEGUCIGALPA - O presidente interino de Honduras, Roberto Micheletti, disse à agência France Presse que não pode "negociar nada" sobre o regresso do chefe de Estado deposto José Manuel Zelaya ao país, desafiando o prazo de 72 horas dado nesta quarta-feira, 1, pela Organização dos Estados Americanos (OEA), para restituí-lo no poder. Também nesta quarta, o Congresso hondurenho aprovou um decreto que suspende algumas garantias constitucionais dos cidadãos durante o toque de recolher que vigora das 22h às 6h, estipulado desde a queda de Zelaya, no domingo.

Nesta quarta, Micheletti pediu que a comunidade internacional dê um voto de confiança a ele. O presidente interino ressaltou que Honduras é um país soberano, voltou a defender a legalidade da situação política e acusou o presidente venezuelano, Hugo Chávez, de intromissão, depois que a OEA deu o prazo a seu governo para restituir Zelaya. Ele pediu "a Deus" que o mundo não isole seu país, apesar de ter afirmado que tem "a fortaleza" para enfrentar a situação. Após o ultimato da OEA, Zelaya adiou seu retorno a Honduras para sábado.

Enquanto isso, as manifestações de seguidores e opositores a Zelaya continuam em Tegucigalpa, capital de Honduras, e em outras cidades. "Estamos sós" diante do mundo, admitiu nesta quarta o Comissário dos Direitos Humanos do Estado, Ramón Custódio. Em declarações à imprensa, funcionários, empresários e políticos assinalaram que os hondurenhos devem se preparar para o isolamento e pediram à comunidade internacional que envie delegados para analisar os fatos.

Em meio a represálias diplomáticas e econômicas pelo que a comunidade internacional qualifica como um golpe de Estado, as poucas expressões de apoio a Honduras vêm de organizações empresariais centro-americanas, que rejeitaram o fechamento temporário das fronteiras imposto pela Nicarágua, El Salvador e Guatemala.

Os hondurenhos estão "sozinhos, como na guerra de 1969" contra El Salvador, afirmou Custódio, que lembrou que o país conseguiu seguir adiante nessa ocasião e o mesmo acontecerá agora. A situação será difícil, mas é uma oportunidade para "seguir adiante com nosso próprio esforço", disse a nova ministra de Finanças, Gabriela Núñez, à Rádio América, que reconheceu que o governo deverá ajustar-se às novas circunstâncias.

"Vamos resistir sete meses se for possível", declarou o prefeito de Choluteca, no sul do país, Quintín Soriano, do governante Partido Liberal, durante uma manifestação contra Zelaya, em alusão ao período que Micheletti deve governar, até que o novo chefe de Estado que será eleito em novembro assuma o poder. No entanto, para o presidente da Câmara de Comércio e Indústrias de Choluteca, Mario Argeñal, "este é o início da verdadeira crise."

O dirigente de um sindicato hondurenho Jesús Canahuati pediu que o novo governo envie "uma mensagem muito rápida para esclarecer a situação" e passar "de ser um país vilão a um exemplo de país que enfrentou o mal". Os hondurenhos devem "se unir sem diferenças" diante da crise, disse o ex-candidato presidencial do Partido Inovação e Unidade-Social-Democrata Olban Valados.

CRÍTICAS

O chefe de deputados do Partido Nacional, principal força de oposição, Rodolfo Irias, lamentou que os países e organismos que estão isolando Honduras "escutem somente uma das partes (Zelaya), sem vir aqui", e ressaltou que "a Constituição segue vigente". Honduras é o segundo país mais pobre da América, depois do Haiti, e aproximadamente 80% de seus mais de sete milhões de habitantes vive na pobreza, por isso a nação depende muito da ajuda internacional.

A condenação à deposição de Zelaya vai desde os países vizinhos de Honduras até outros tão distantes quanto a Rússia e a China, além das Nações Unidas, a OEA e organismos financeiros multilaterais. O novo governo afirma que Zelaya foi deposto mediante uma "substituição constitucional" e não um golpe de Estado, porque violou a Carta Magna e as leis ao tentar realizar uma consulta com o objetivo de instalar uma Assembleia Constituinte que, segundo seus opositores, ia prolongar seu governo.

Micheletti, líder do Parlamento até domingo passado, foi eleito como substituto de Zelaya no mesmo dia, em aplicação de uma disposição constitucional, para cumprir os sete meses que faltam do mandato de quatro anos do governante deposto, que acaba no dia 27 de janeiro de 2010.

O novo líder reafirmou que se Zelaya voltar ao país, como anunciou, será detido, porque tem ordens de captura pelos crimes cometidos em relação à consulta, declarada ilegal pela justiça ordinária e eleitoral com o argumento que o Executivo não tem faculdades para realizar esse tipo de processos.


Estadão

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