quinta-feira, 2 de julho de 2009

Lula ‘enquadra’ PT para sustentar Sarney no Senado

Durante reunião em que PT debateu apoio a Sarney, chegou ao gabinete uma pizza

De volta da Líbia, Lula fez escala, na noite passada, no Recife.

Tocou o telefone para Ideli Salvatti, sua líder no Senado.

Antes de embarcar, Lula recebera informações que o haviam deixado tenso.

Um pedaço do PT torcia o nariz para Sarney, que ameaçava renunciar.

Ainda na Líbia, Lula apressara-se em falar aos jornalistas.

Acusara a oposição de tramar contra Sarney para levar a presidência do Senado “no tapetão”.

Ideli cuidou de tranquilizá-lo. Fez um resumo do dia.

O cenário, disse a senadora ao presidente, já era de permanência de Sarney.

Ao chegar a Brasília, Lula conversou com o próprio Sarney, também por telefone.

Cogitara reunir-se com ele ontem mesmo. Preferiu agendar a conversa para esta quinta (2).

Além de Sarney, Lula receberá os senadores do PT. Exigirá que a bancada dê suporte ao "aliado".

Na conversa telefônica com o presidente, Ideli deu especial realce a um encontro que os senadores do PT tiveram com Sarney no início da noite.

De uma bancada de 12, compareceram dez. Faltaram Tião Viana e Flávio Arns.

Era o segundo encontro do dia. Pela manhã, Ideli e Aloizio Mercadante, líder do PT, já haviam feito uma visita ao presidente do Senado.

Nesse primeiro encontro, levaram a Sarney a proposta de que ele se licenciasse por 30 dias e nomeasse uma comissão suprapartidária para reformar o Senado.

Sarney respondera que não tiraria licença. Ou o PT o apoiava ou ele renunciaria ao comando do Senado.

“Se acham que sou obstáculo às mudanças, posso renunciar. Basta vocês formalizarem isso que eu me retiro...”

“Se acham que eu devo permanecer, que devemos discutir um novo caminho para o Senado, estou disposto”.

A certa altura, Mercadante levou a sério a hipótese de Sarney bater em retirada. Perscrutou sobre o ‘day after’. Queria saber se haveria um nome para substitui-lo.

Presente à reunião, Renan Calheiros, líder do PMDB e lugar-tenente de Sarney, esclareceu, de bate-pronto: “É claro que o PMDB tem nome!”

Na prática, matreiro a mais não poder, Sarney acomodou o seu destino no colo do PT. O mesmo PT que, em fevereiro, ele levara à lona.

Em aliança com o DEM, urdida por Renan, Sarney derrotara a candidatura de Tião Viana (PT-AC).

Sem os 14 votos do DEM, que agora exige que ele se licencie, Sarney condiciona sua permanência ao apoio dos 12 senadores do PT.

Informado de que sete petistas exigiam, além de mudanlas estruturais no Senado, a licença de Sarney, Lula mobilizou ministros e o presidente do PT, Ricardo Berzoini.

Armou-se um mutirão para enquadrar a bancada de senadores petistas. Como combinara na noite da véspera, Mercadante reuniu-se com os “liderados”.

Com o reforço de Berzoini, o líder relatou à bancada o teor do diálogo que ele e Ideli haviam mantido com Sarney.

No curso da conversa, entrou na liderança do PT um entregador de pizza (foto lá no alto). A cena resumiria o que viria a ocorrer no final do dia.

Submetida à pressão encomendada por Lula, as resistências do petismo a Sarney foram perdendo força.

À noite, dos dez senadores do PT que foram à casa de Sarney, cinco quebravam lanças contra a permanência dele no cargo desde a noite da véspera.

Mas apenas dois –Marina Silva e Eduardo Suplicy—ousaram defender diante de Sarney a necessidade de que ele se afastasse do cargo por meio de uma licença.

Os demais ou se calaram ou ajustaram o discurso. Em meio ao cheiro de orégano, havia uma tese: ruim com Sarney, pior sem ele.

Sob protestos de alguns poucos, foi prevalecendo a tese de que era preciso resguardar a “governabilidade”.

Mercadante disse ao blog que Sarney não pode ser tratado como o único responsável pelas mazelas do Senado.

Lembrou o papel do DEM, eterno ocupante da primeira-secretaria, espécie de prefeitura do Senado, por onde passam as principais decisões administrativas.

“Eles agora dizem que não tem nada com nada, que o problema é o Sarney. Inaceitável. Ele não é o único responsável. Não pode ser tratado dessa forma...”

“...Se o Sarney sai temporariamente, os problemas do Senado se resolvem? Não. Achávamos que a licença poderia distencionar o ambiente. Mas essa questão não está mais na pauta”.

Ouvida pelo repórter, Ideli aditou: “É signicativo como mudou a posição de boa parte da bancada de ontem [terça] à noite para hoje [quarta]...”

“...Depois da segunda conversa com o Sarney, esse ambiente deve ter se consolidado mais. Temos de fazer as mudanças estruturais no Senado...”

“...Mas ninguém pode esquecer que precisamos manter a governabilidade. O que move PSDB e PFL [DEM] não é a ética...”

“...Se fossem éticos, fariam CPIs em Porto Alegre, em Curitiba e em São Paulo. O que há no Senado é jogo político”.

Nesse diapasão, é improvável que o PT vá opor resistências a um apelo de Lula para que dê suporte a Sarney.

No dizer de Berzoini, além do Senado, está em jogo o apoio do PMDB à candidatura presidencial de Dilma Rousseff.


Escrito por Josias de Souza

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