quarta-feira, 1 de julho de 2009

‘O Senado tornou-se inadministrável’


José Sarney viveu nesta terça (30) o pior dia dos cinco meses de sua presidência. Chamou à sua residência, no Lago Sul, os três filhos: Roseana, Zequinha e Fernando.

Pela primeira vez, cogitou deixar o comando do Senado. Abandonado pelo DEM, parceiro de primeira hora, sentiu-se “traíido”.

Farejou na exigtência de licença formulada pelos ‘demos’ um cheiro de fim de linha. Abatido, recebeu, no início da tarde, uma trinca de senadores tucanos.

Foram à casa Sarney, às margens do Lago Paranoá, Sérgio Guerra, Marisa Serrano e Alvaro Dias. Encontraram-no queixoso, desanimado.

Roseana, governadora do Maranhão, permaneceu na sala. Zequinha, deputado pelo PV e Fernando, o filho que toca os negócios da família Sarney, deixaram o recinto.

Os tucanos propuseram a Sarney que assumisse como se fosse sua uma idéia urdida em reunião do PSDB.

Sarney constituiria um grupo suprapartidário de senadores. Esse grupo poria de pé, em 60 dias, uma proposta de reformulação profunda do Senado.

Nesse período, Sarney se absteria de presidir. Seria uma licença informal, não formalizada. Depois, retornaria ao cargo.

Sérgio Guerra, presidente do PSDB, chegou mesmo a sugerir os nomes dos senadores que integrariam o tal grupo.

Seriam: Tasso Jereissati, pelo PSDB; Garibaldi Alves, pelo PMDB; Aloizio Mercadante, pelo PT; e Eliseu Resende, pelo DEM.

Sarney não pareceu refratário à idéia. Pediu tempo para refletir. Disse que teria de consultar aliados e membros da Mesa que dirige o Senado junto com ele.

Pôs em dúvida, porém, a eficácia do gesto. Reclamou da vida. Disse que o Senado tornara-se uma Casa “inadministrável”. Repetiu o vocábulo três vezes.

Queixou-se da falta de apoio dos colegas. Disse que os senadores não reconhecem o mérito das providências que vem adotando.

Considerou “absurdo” que um político com a sua biografia tenha de ouvir “insultos” sempre que se anima a presidir as sessões do Senado.

Ouviu dos tucanos palavras de ânimo. Se topasse formar o grupo de senadores, dando-lhe plenos poderes, retomaria, dali a dois meses, o comando do Senado.

Disseram-lhe que até o insurreto DEM concordaria com a idéia. Era lorota. O líder ‘demo’, Agripino Maia, tachara de “maluquice” o plano do tucanato.

Agripino fora avisado da movimentação do PSDB por Renan Calheiros. O líder do PMDB havia sido procurado por Sérgio Guerra.

Antes de se dirigir à casa de Sarney, Guerra tocara o telefone para Agripino, que se recusou a atendê-lo.

Agripino estava reunido com sua bancada. Dos 14 senadores ‘demos’, 11 apoiaram a tese da licença de Sarney.

Três hesitaram: ACM Jr., Heráclito Fortes e Eliseu Resende. Mas, diante do fato consumado, renderam-se à opinião da maioria.

Agripino pediu uma audiência com Sarney. Queria comunicar-lhe a decisão da bancada. O encontro foi marcado para as 16h. Mas Sarney cancelou. Desistiu de ouvir os "traidores".

Mais tarde, em novo contato, Renan perguntou a Agripino se o DEM fechara as portas para eventuais composições. E Agripino, peremptório: qualquer composição passa pelo pedido formal de licença de Sarney.

Simultaneamente, na mansão do Lago Sul, Roseana agregava ao chororô do pai um ingrediente familiar.

Disse que o neto do presidente do Senado, José Adriano Cordeiro Sarney, estava transtornado. Achava que havia arruinado a carreira política do avô.

Filho de Zequinha, José Adriano é sócio da Sarcris, empresa que agenciou empréstimos a servidores do Senado. “Não fez nada de errado”, disse Roseana.

Lero vai, lero vem perguntou-se a Sarney quando seria instalada a CPI da Petrobras. Ele respondeu que o noticiário da crise suplantara a investigação.

Em timbre lamurioso, disse que, até onde estava informado, nem a oposição interessava-se mais pela investigação petroleira. Alvaro Dias disse que não verdade.

Os tucanos despediram-se de Sarney. Zequinha deu as caras na sala, para cumprimentar os interlocutores do pai.

Roseana conduziu os visitantes até a saída. Antes que entrassem no carro, disse-lhes uma frase sintomática.

Disse que, à luz da proposta formulada pelo PSDB, tentaria demover o pai da decisão que havia tomado. Os tucanos entenderam que Sarney flertava com a renúncia.

Em viagem à Líbia, Lula foi informado sobre a erosão da base de apoio de Sarney. Além do DEM, o PDT passara a defender o afastamento por licença.

Lula incumbiu a ministra-candidata Dilma Rousseff (Casa Civil) de levar um recado a Sarney. Pediu que não tomasse nenhuma decisão antes do seu retorno ao Brasil.

No início da noite, a assessoria de Sarney informou aos repórteres que a hipótese de licença não está nem mesmo sendo considerada.

Por volta de 19h, Marisa Serrano (PSDB-MS) cruzou com Gim Argello (DF), líder do PTB, no Senado. Pergutou-lhe o que faria Sarney.

Unha e cutícula com Renan, Argello respondeu: “Ele vai ficar”. Uma previsão da qual meio Senado duvida.



Escrito por Josias de Souza

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