quinta-feira, 23 de julho de 2009

Política 2.0


Com o Twitter, os políticos finalmente desembarcaram na rede. Falta agora captar o verdadeiro sentido da coisa e render-se ao ambiente de diálogo. Usar Twitter e blog para “disponibilizar conteúdo” equivale a fumigar uma plantação com jatinho

Os políticos descobriram o twitter.com. Para quem ainda não sabe, trata-se da ubíqua ferramenta de microblog. Por que “micro”? Porque limita as postagens a 140 caracteres. Você se cadastra como “seguidor” de alguém e recebe um aviso quando esse alguém “tuíta” (escreve) algo. Você também é avisado quando falam de você. E pode conversar em particular. Para quem viu a web nos primórdios, óbvio está que o Twitter é a evolução das antigas salas de bate-papo, que fizeram a festa da audiência nos grandes portais da virada do século.

Uma diferença do Twitter sobre os blogs tradicionais é que a exiguidade de caracteres favorece a homogeneização. A chance de o sujeito passar vergonha escrevendo duas linhas é bem menor do que escrevendo, por exemplo, 60. Você dá o recado sem correr grandes riscos. Isso para quem escreve. Para quem lê, a vantagem é não ter que “navegar”. Em vez de pular de site em site, você usa uma central que lhe avisa quando algo é posto num dos locais que você segue. Uma espécie de “leitor de RSS” mais dinâmico e proativo.

Para os políticos, estar no Twitter é uma maneira de distribuir instantaneamente as realizações para a rede de seguidores e interessados. Que poderão reenviar a informação, numa sequência de contágio viral. Mais ou menos como a propagação da gripe suína, neste caso para nossa apreensão. Teoricamente, reduz-se a dependência de intermediários, como a imprensa. E a um custo baixíssimo. Uma pena é que a distribuição via blog, youtube e Twitter não pode ser anabolizada como “divulgação do mandato” no uso da verba indenizatória. Isso foi uma piada.

Ponha a turma para se cadastrar no seu Twitter e você terá uma rede estruturada de comunicação instantânea. Desvantagem, não tem nenhuma? Tem. Quando você ocupa um lugar institucional na rede, seja pessoa física ou jurídica, também facilita a vida dos seus críticos. Claro que mesmo antes do Twitter todo mundo podia falar mal de todo mundo, mas agora há um detalhe, com requintes de crueldade: cresceu muito a chance de você ficar sabendo quando o detonam.

E, como ninguém em pleno gozo das faculdades mentais pode seguir tanta gente assim, se você bobear daqui a pouco tem um pessoal descadastrando você. Ou você pode virar alvo de alguma campanha orquestrada de descadastramento (o #unfollow). Mas mesmo isso não deve ser motivo para grande preocupação, pois o resultado prático de campanhas assim é que você acabará ficando mais conhecido, e não menos. Mesmo falando mal, afinal, estarão falando de você.

A observação mais cuidadosa da atividade dos políticos no Twitter mostra que, se tecnologicamente estão atualizados, conceitualmente eles ainda só enxergam a internet 1.0. Aquela onde as pessoas, empresas e instituições “disponibilizavam conteúdo”. Acionar Twitter e blog para “disponibilizar conteúdo” equivale a fumigar uma plantação com jatinho. Como é fácil recorrer às ferramentas para falar, é natural que logo todos os políticos estejam usando assim, unidirecionalmente. E quem terá vantagem competitiva? Quem aceitar usar a rede para ouvir, como comentei na coluna do último domingo.

Com o Twitter, os políticos finalmente desembarcaram na rede. Falta agora captar o verdadeiro sentido da coisa e render-se ao ambiente de diálogo. Mas não apenas para ouvir elogios e tratar de banalidades ou assuntos pessoais. Aceitar, sim, questionamentos sobre o que interessa: a atividade política. Quando fizerem isso, é possível que os nossos representantes venham — quem diria! — a sentir saudades da imprensa.

Sem razão para timidez

Esquentou nos últimos dias o lobby para refrear a queda da taxa de juros. Mesmo com o real lá em cima e com a deflação (especialmente no atacado) insistindo para não ir embora, a turma insiste em se agarrar ao osso.

Portal Clipping

Nenhum comentário: