sábado, 25 de julho de 2009

PT contraria Lula e defende licença de Sarney no comando do Senado

Na contramão da orientação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a bancada do PT no Senado voltou a pedir ontem o afastamento do presidente da Casa, José Sarney (PMDB-AP). Diante dos diálogos divulgados pelo Estado, em que Sarney discute com o filho Fernando Sarney a contratação do namorado de sua neta na Casa, o líder Aloizio Mercadante (SP) emitiu nota na qual considera "grave" a revelação. Em nome da bancada, ele afirmou que o Conselho de Ética do Senado terá de investigar "com rigor a possibilidade de participação direta" do peemedebista na promulgação do ato secreto que serviu para concretizar a nomeação.

"É grave essa nova denúncia porque há indícios concretos da associação do presidente do Senado, José Sarney, em ato secreto de nomeação do namorado de sua neta", afirma o texto. "A bancada reafirma a sua posição de que o melhor caminho seria o pedido de licença da presidência da Casa por parte do senador José Sarney."

O afastamento do parlamentar chegou a ser defendido pelos petistas no início do mês, mas Mercadante e a líder do governo no Congresso, Ideli Salvatti (SC), recuaram após Sarney ameaçar renunciar. A bancada então acabou sendo orientada expressamente pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva a trabalhar pela permanência do peemedebista no cargo, de olho na garantia de apoio para a eleição de 2010.

O novo pedido de licença ocorre na mesma semana em que o próprio Lula intensificou esforços em defesa de Sarney. Na quarta-feira - dia em que o Estado revelou gravações da Polícia Federal que indicaram a prática de nepotismo pela família Sarney -, Lula disse ao novo procurador-geral da República, Roberto Gurgel, que é preciso considerar a "biografia" dos acusados em investigações. No dia seguinte, foi mais incisivo. Ao comentar diretamente as novas revelações, afirmou que "não se pode vender tudo como crime de pena de morte".

A nota dos petistas, que também pede a investigação do vazamento das gravações, menciona a proposta dos senadores Pedro Simon (PMDB-RS) e Cristovam Buarque (PDT-DF) de antecipar a próxima reunião do Conselho de Ética. A bancada "não se opõe à antecipação da reunião", desde que "asseguradas as exigências regimentais e a concordância e a disponibilidade de seus integrantes em período de recesso".

CONSTRANGIMENTO

Mercadante divulgou a nota pela assessoria, enquanto viaja com a família. Antes das férias, ele já não escondia em conversas com colegas o constrangimento em acatar a recomendação de Lula. Chegou a dizer a um interlocutor que a situação era "absolutamente insustentável".

O líder falou com alguns senadores antes de divulgar a nota, mas outros foram pegos de surpresa. Ideli, que acatou prontamente a orientação de defender Sarney, não sabia, segundo auxiliares. Ontem, ela não respondeu os pedidos de entrevista. A petistas, ela confidenciou que a crise se agravou e poderá reavaliar sua posição.

A nota reforçou o argumento de setores da bancada que resistiam em apoiar Sarney. O senador Eduardo Suplicy (SP) já havia se antecipado e divulgado uma nota individual no dia anterior. "Acredito que em defesa do Senado Federal - instituição tão importante para os brasileiros - e da presidência da Casa, a atitude que o senador José Sarney pode adotar é pedir licença do cargo", afirmou.

Ontem, Suplicy acrescentou que "a maior parte dos senadores" do PT concorda com a licença. Derrotado na disputa pela presidência do Senado, Tião Viana (AC) também não esperou a nota. "Minha posição tem sido muito clara. Acho que a melhor conduta é o afastamento", insistiu. "A situação está muito complicada. Nossa posição está colocada. Agora, não depende mais de nós", reforçou a senadora Serys Slhessarenko (MT).

Estadão

Nenhum comentário: