quarta-feira, 15 de julho de 2009

Sobre ratos e fatos

Autor(es): Carlos Alexandre
Correio Braziliense - 14/07/2009


“A tua piscina está cheia de ratos/ tuas ideias não correspondem aos fatos/ O tempo não para.” Vinte e um anos depois, o clássico de Cazuza tocado em rádio confirma a nossa capacidade de nos perpetuar no equívoco, de assistir passivamente aos conchavos entre as camarilhas de Brasília, com o olhar condescendente do Planalto.

Hoje, com a instalação da CPI da Petrobras no Senado, seremos testemunhas de mais uma farsa montada no palco da mais importante casa legislativa do país. Somente um crédulo pode esperar que uma CPI controlada pelo governo, instalada no poder no qual o mandatário mor é acusado de se beneficiar de um desvio de R$ 500 mil da maior estatal do país, resulte em alguma medida moralizadora. A CPI da Petrobras já vem natimorta. Não passa de palanque para governo e oposição protagonizarem atos dissimulados e jogo de palavras.

Além dos escândalos que pesam sobre os ombros dos políticos, o que corrói o Senado são as práticas — muitas delas secretas — para manter a chamada atividade parlamentar. De cada 10 funcionários de gabinete dos 81 senadores, oito são comissionados e têm indicação política, como contabiliza a Folha de S. Paulo. Os senadores suplentes da Mesa Diretora, por sua vez, dispõem de quase R$ 100 mil por mês para manter uma equipe de assessores não concursados, informa o Correio. A revogação dos 663 atos secretos, determinada ontem por Sarney, por enquanto é mais um gesto político do que administrativo. Quem vai pagar pelas nomeações espúrias feitas à custa do erário? Agaciel? Os ex-presidentes do Senado? Sarney, que está nas cordas?

O Brasil não tolera mais tanto fisiologismo. Se o país conseguiu solidificar suas bases democráticas após 21 anos de regime de exceção, se construiu os fundamentos necessários para conquistar a estabilidade econômica e sobreviver à atual crise sem a necessidade de respirar com ajuda de aparelhos, isso se deve à capacidade do eleitor de votar em administradores responsáveis — apesar das indecorosas concessões feitas pelos escolhidos em nome de interesses eleitorais.

Chegou a hora de fazer o mesmo com os ocupantes do atual Legislativo. É preciso escolher gente capaz de tirar o Senado do atoleiro. Mais uma vez, está próximo o momento de expulsar os ratos que infestam o Congresso e resgatar a dignidade da casa de Rui Barbosa. O tempo não para, lembra Cazuza. Ou, como já cantava outro poeta roqueiro em 1978, “Nas favelas, no Senado/ sujeira pra todo lado...”


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