sexta-feira, 10 de julho de 2009

Viagem ao cotidiano sombrio de Cuba

AS MARCAS DO PASSADO
Carrões dos anos 50 e prédios decrépitos marcam a decadência de Havana, antes de Fidel a cidade mais bela do Caribe



O Dodge 51 nos deixou em frente de uma casa com fachada imponente, lindas colunas na varanda, pé-direito alto e pintura caprichada. Batemos na porta e ninguém atendeu. Fomos informados de que a entrada era por um corredor lateral, muito estreito, onde só passa uma pessoa por vez. Ao longo dele vivem várias famílias. A de Maria, a mulher que nos hospedou em Havana, capital de Cuba, é uma delas. O espaço é pequeno, menor ainda porque Maria o dividiu com a filha, Rosa, depois que ela se casou. Essa família vive um drama. O único filho de Maria mora no Brasil há mais de três anos e está proibido de entrar em Cuba até 2004. É a pena por não ter voltado ao país depois de fazer um curso de turismo no exterior. É a pena por ter se apaixonado por uma brasileira, com quem é casado. A família de Maria nos acolheu como se tentasse abraçar em nós o filho, com quem estivemos dois dias antes no Brasil.

O banheiro da casa de Rosa é muito precário. O vaso sanitário não tem tampo nem válvula de descarga, recorre-se ao velho método do balde de água. O chuveiro é frio, banho quente só de canequinha, com água esquentada no fogareiro. Não tem sabonete. Pedaços do jornal oficial Granma picotado são usados como papel higiênico. Na geladeira de Rosa sobra espaço, quase que só há garrafas d'água. Bem-humorada, ela se diverte referindo-se ao eletrodoméstico como "a minha máquina de fazer gelo". Em poucos dias constatamos espantados que produtos básicos de limpeza, de higiene pessoal e comida são artigos de luxo em Cuba.

A vida de Rosa, que nos poderia parecer um drama particular, na verdade é o retrato de Cuba. Esperávamos encontrar um país em crise. Mas, viajando de leste a oeste da ilha, o que vimos foi uma nação em colapso. Mercado negro, sonegação, corrupção, prostituição, malandragem e jeitinho passam diante da gente a todo momento. Cuba é um salve-se-quem-puder. A economia é tão complexa que até a mais brilhante inteligência teórica teria dificuldade de entender seu funcionamento. Três moedas circulam pelo país. O dólar, por supuesto. O peso cubano, que não vale nada. Oficialmente, 1 dólar compra 27 pesos. Tem também o peso conversível, que vale o mesmo que a moeda americana. O peso conversível foi criado para o governo ter controle sobre a entrada e a circulação de dólares no país. A moeda americana é trazida pelos cubanos que viajam para o exterior a trabalho, como marinheiros e tripulantes de companhias aéreas. Principalmente, é remetido ou trazido, nas visitas, por parentes de Miami. A população recebe salário em pesos cubanos, mas faz compras em dólares. A troca do dinheiro é feita nas casas de câmbio oficiais. Na corrida pela moeda americana, nem tudo é legal, mas tudo é válido. "Todo mundo rouba em Cuba", diz nossa anfitriã Rosa. Tantas revelações nos encheram de dúvidas. Resolvemos esclarecê-las com o povo cubano. Afinal, estávamos vivendo entre eles. Entramos no país como turistas, mas a realidade não nos deixou relaxar. Passamos 21 dias atrás da história não-oficial de Cuba, como uma dupla de repórter e fotógrafo, que de fato somos. Longe do turismo requintado e das estatísticas oficiais do governo.

As dificuldades da população se aprofundaram com o fim da Guerra Fria. Com a suspensão da ajuda da União Soviética, no início dos anos 90, foi imposto o período especial, marcado principalmente por um severo racionamento de energia. A nação começou a se deteriorar. Não era para menos. Os soviéticos injetavam cerca de 6 bilhões de dólares ao ano no país, ou seja, aproximadamente 500 dólares per capita, levando-se em conta uma população de 11 milhões de pessoas. A vida até a década de 80 era mais barata. Desde combustível até comida, tudo era acessível aos cubanos. Os soviéticos subsidiavam o petróleo e junto com os demais países comunistas do Leste Europeu exportavam produtos de primeira necessidade a preços bem camaradas. Se não bastasse o desamparo dessa gente, o embargo econômico capitaneado pelos americanos tornou a vida ainda mais implacável. Ela ficou bem mais difícil no país do comandante Fidel Castro.

O salário que os cubanos recebem é o mesmo de sempre, mas antes pagava todas as contas do mês. Agora não paga. O Partido Comunista de Cuba teve de encarar o problema e, sem saída, abriu timidamente a economia para o capital estrangeiro. As S.A. chegaram a Cuba. Canadá, Espanha, Brasil e outras nações atuam no país em parceria com o governo cubano. Metade do negócio é estrangeira, metade cubana. As indústrias são dirigidas por estrangeiros, os empregados são cubanos e o governo de Cuba fica com a metade do lucro, em dólares. Os trabalhadores recebem do governo a sua parte em pesos. A abertura da economia gerou empregos e atraiu capital estrangeiro para a maior e mais charmosa ilha do Caribe. Mas não melhorou a vida da maioria do povo.

A cesta básica de alimentos distribuída pelo governo dura apenas uma semana. Para garantir o sustento para o resto do mês, os cubanos precisam fazer bicos. Os pesos só podem ser gastos em poucas lojas e em mercados públicos que vendem o mínimo do básico: arroz, feijão, açúcar, sal, café, cigarro, palito de fósforo, alguns legumes e pouca coisa a mais. Mesmo assim, a quantidade é limitada por pessoa. Outros artigos de primeira necessidade são destaque de lojas de nomes inadequados, como a La Novedad. Ficamos perplexos ao ver rolos de papel higiênico, panelas, recipientes plásticos, lamparinas, panos de chão exibidos na vitrine. Produtos que no Brasil ficam escondidos no fundo da loja. As roupas vendidas em pesos são usadas – o preço varia conforme o número de vezes que elas foram recicladas. Mais variedade de produtos só nas "tiendas" que vendem artigos importados, em dólar, ou então no mercado negro, que oferece artigos de porta em porta. O comércio paralelo é movimentado por pequenos furtos feitos por operários das fábricas, funcionários de armazéns estatais ou empregados de lojas. A opção pela ilegalidade é involuntária. Não tem saída. É preciso adaptar-se a uma situação inadaptável. O povo depende do dólar para comprar sabonete, xampu, detergente, bolacha e leite.

A economia cubana está dolarizada desde 1993, quando o governo permitiu que o dinheiro americano circulasse no país. Esse precedente causou mudanças profundas na sociedade. Quem tem acesso ao dólar, como os que possuem parentes no exterior que lhes enviam remessas do dinheiro regularmente, vive melhor que os demais. Essas pessoas abriram negócios para atender os turistas e aos poucos adquiriram um padrão de vida que as distancia da grande massa de trabalhadores. Está surgindo uma nova classe social em Cuba: a pequena burguesia.

ÍCONES DE PAPELÃO
Galeria de arte em Trinidad expõe à exaustão imagens de Guevara, um ícone da revolução. Os turistas as compram como suvenir

No sul da ilha, em Trinidad, localizada a 365 quilômetros de Havana, conhecemos um típico representante dessa nova classe média cubana. Benício Aguilera, um ex-dançarino de cabaré que hospeda turistas em sua casa e vive muito acima dos padrões cubanos. A fachada desgastada do prédio onde mora esconde o conforto de seu apartamento. A decoração kitsch lembra a da casa do personagem gay do filme Morango e Chocolate, mas o lugar é aconchegante. O quarto em que ficamos hospedados por três dias tem espelhos por todos os lados, vasos enormes, candelabros e a cama coberta com colcha de cetim vermelha. A louça da casa é importada da França e da Inglaterra. O que mais chamou a atenção foi o banheiro. Ducha com água quente, privada com assento e válvula de descarga, papel higiênico e sabonete.

Aguilera tem autorização do governo para tocar um negócio próprio, uma casa particular, espécie de pensão, e ganha bem com isso. Ele tem dois empregados, que recebem em pesos, e fica com o grosso do dinheiro deixado pelos turistas. As roupas da casa e dos hóspedes são lavadas por uma senhora, num esquema de terceirização. Funciona como qualquer empresa da iniciativa privada. Os estrangeiros pagam tudo em dólares. A diária numa casa particular custa em torno de 15 dólares. Os proprietários também servem café da manhã a 3 dólares por pessoa e refeições a 7 dólares cada uma. Isso pode render 50 dólares diários ao dono do negócio que hospede um casal. Um dinheirão, diante do salário mensal de um médico em Cuba, que é de 20 dólares, um dos mais altos no país.

É um contraste quando comparado com o cidadão comum. Rosa, a dona-de-casa que nos recebeu em Havana, mora com a filha, de 4 anos, e o marido, que é operário de uma fábrica de peças e ganha 206 pesos cubanos por mês, o equivalente a 8 dólares. Esse é todo o dinheiro que têm para passar o mês. Oito dólares compram apenas uma lata de óleo de cozinha, que custa 2 dólares, 1 quilo de frango (cerca de 5 dólares) e um detergente, usado para lavar a louça e também a roupa. Ou seja, não dá para nada. O que a família de Rosa faz então para viver? Atividade ilegal, como grande parte dos cubanos. O chefe da família, um homem de 30 e poucos anos, trabalhador dedicado, marido e pai zeloso, desvia parte das ferramentas da fábrica em que trabalha e comercializa o material no mercado negro. Em troca de comissão, Rosa vende produtos importados, como perfumes, cremes, lingerie, trazidos do exterior por um amigo que trabalha em cruzeiros marítimos.

Os cubanos não se orgulham desse "jeitinho" de viver. Um médico cinqüentão de Cienfuegos, cidade industrial e portuária da zona central de Cuba, dirige seu velho Lada com vidro fumê pelas estradas vizinhas, dando carona a turistas em troca de dólares. O vidro é para disfarçar a atividade ilegal; o dinheiro, para comprar comida e rum. Ele é médico em uma clínica estatal e, junto com a mulher, também médica, ganha 40 dólares por mês. Pegamos carona com ele em uma estrada próxima a Cienfuegos. Ele estava acompanhado de um amigo, que, sem pudor, nos pediu 10 dólares pela carona. Começamos a negociar. O médico ficou envergonhado e nos falou para dar quanto quiséssemos. "Não quero que vocês saiam daqui pensando mal dos cubanos", disse, entre um gole de rum e outro.

Um cubano de meia-idade diz que seu povo está perdendo a dignidade. Ele fez questão de falar isso depois de um pequeno contratempo. Quis nos cobrar 1 dólar para fotografarmos seu curioso cachorro, que passeia pelas ruas de Havana de óculos escuros, fone de ouvido e lenço na cabeça. Nós nos irritamos. Explicamos que queríamos levar para o Brasil apenas uma recordação e estávamos entristecidos com a exploração que os turistas sofrem no país. Nada é de graça, qualquer informação vale 1 dólar. Ele foi embora constrangido e mais tarde fez questão de que tirássemos a foto sem custo algum. "Não conseguirei dormir em paz se vocês não levarem essa lembrança", disse, emocionado.

A LUTA PELA SOBREVIVÊNCIA
Carros particulares servindo de táxi (à esq.) e prostitutas em Havana: governo finge que não vê

Exemplos como esse colocam o futuro dos cubanos em xeque. A juventude começa a se questionar se faz sentido passar tantos anos na universidade para depois receber um salário que não dá para viver. Sabem que se pode ganhar 40 dólares por mês como cozinheiro de um "paladar", restaurante particular. Uma grande massa de jovens está concluindo que estudar muito não enche o bolso de ninguém. Eles trabalham para empresas estatais, já que a ociosidade é crime em Cuba, e passam as horas livres perambulando pelas ruas em busca de dólares. A ilegalidade está escancarada sob as barbas de Fidel e todos fingem que não vêem. Na verdade, não só estão a par de tudo como participam do processo.

A operação de um pequeno negócio mostra bem como a atividade informal está organizada no país. Em muitas casas particulares em que nos hospedamos tivemos de nos esconder de inspetores do governo. Percebendo a presença de turistas no local, eles fazem uma visita ao proprietário. Os donos do negócio ficam perturbados. Por quê? Para manter uma casa particular é preciso pagar um imposto para o governo. O valor é de 100 dólares mensais por quarto. Geralmente há mais de um quarto em cada casa, mas paga-se por apenas um. Sonegação clássica. A multa pelo descumprimento da regra é de 500 dólares. Para passar pela inspeção vale tudo. Desde oferecer suco de frutas, café e biscoitinhos até subornar o inspetor. Além do imposto mensal, os donos de negócio próprio têm de entregar anualmente 10% do lucro ao governo.

Em Santiago de Cuba, ponto de partida dos revolucionários que tomaram o poder em 1959, a prostituição é visível nas ruas e nos hotéis de luxo. No quatro-estrelas Casa Granda, que fica no Parque Céspedes, onde Fidel Castro fez o primeiro discurso vitorioso da revolução socialista, prostitutas e gigolôs se misturam com hóspedes e músicos cubanos. Alguns famosos, como o violonista e cantor Eliades Ochoa, do grupo Buena Vista Social Club, que vive por lá. A polícia assiste a tudo sem interferir. Não é de espantar. Todos levam um bom dinheiro nessa história. As prostitutas "classe A", como dizem os cubanos, podem ganhar até 100 dólares por cliente. A maior parte do dinheiro fica com o gigolô, que compra roupas e maquiagem para suas moças e paga um pedágio à polícia para poder tocar o negócio. Fidel condenou a prostituição em vários de seus longos discursos, mas anda calado. A atividade é um dos pontos altos do turismo, que atrai mais de 1 bilhão de dólares para o país a cada ano.

A todo momento somos abordados nas ruas por algum cubano oferecendo tabaco muito em conta, uma "jinetera", como são chamadas as prostitutas, drogas e até balas e bombons. Em Baracoa, pequena cidade litorânea onde o navegador Cristóvão Colombo fincou a primeira cruz no país, paramos em uma casa de chocolate, que curiosamente só vendia suco de abacaxi feito com água suspeita. O atendente do lugar nos informou que não havia chocolate, mas logo um cubano que estava por perto aproximou-se e disse que tinha algumas barras produzidas na fábrica da cidade. Perguntamos como conseguia o produto, e ele nos respondeu, sem a menor cerimônia e na frente de várias pessoas, que roubava da fábrica em que trabalhava.

O furto já é uma atividade institucionalizada em Cuba. O comércio ilegal de tabaco, um dos principais itens de exportação do país, é dos mais visíveis. Decidimos dar ouvidos a um dos muitos cubanos que nos ofereceram o produto em Havana. Ele abriu o jogo. Disse que tinha um tio que trabalhava numa indústria de tabaco e que roubava o artigo para vender no mercado paralelo. Miguel é um jovem de 25 anos, casado e pai de um garoto pequeno. Trabalha como padeiro e ganha 10 dólares por mês. Tira até vinte vezes mais participando da economia marginal. Ele oferece restaurantes, hospedarias, tabaco e jineteras aos turistas em troca de comissão. Muitos cubanos obtêm o sustento da mesma forma.

Como em qualquer lugar do mundo, a ilegalidade rende muito dinheiro. O charuto Cohiba, marca famosa criada pelos revolucionários, é vendido a 385 dólares a caixa de 25 unidades na loja da fábrica, em Havana. Dez vezes mais caro do que é cobrado nas ruas, cuja procedência é duvidosa. Ao visitarmos o lugar fomos abordados por um senhor de 50 anos, funcionário de uma empresa de turismo. Ele nos levou a uma casa, vizinha à fábrica, onde mora um pai-de-santo que vive de ler a sorte dos turistas e da venda de tabaco no mercado negro. Subimos dois lances de escada destruída, sem corrimão, e passamos por um corredor muito estreito e escuro para chegar ao pequeno apartamento de Salvador. Entramos e ele pediu para um garoto, que parecia seu filho, ir buscar a mercadoria, enquanto conversávamos sobre a semelhança entre as religiões afro-cubana e afro-brasileira. O menino saiu e voltou em poucos minutos com uma caixa de Cohiba embaixo da camisa, entregou-a e foi embora. O pai-de-santo fechou a pesada porta de ferro e começou a negociar. Em poucos minutos ele baixava de 80 para 40 dólares o preço da caixa. Quando deixamos claro que não levaríamos o tabaco, tampouco os conselhos espirituais do mestre cubano, criou-se um clima tenso. Para complicar, pedimos para tirar uma foto de recordação. Desconfiado, ele perguntou se éramos "periodistas", mas aceitou ser fotografado.

ESCASSEZ E VIGILÂNCIA:
Cubanos disputam alimentos escassos na feira de Baracoa. À direita, a advertência: os comunistas estão vigilantes

Em Cuba, o turista é bem tratado porque representa o caminho mais curto para chegar ao dólar. Também não há arma de fogo. Deduzimos, então, que não havia perigo algum em entrar num prédio suspeito ou em qualquer outro lugar da ilha. No Brasil dificilmente correríamos esse risco. Esse é um aspecto positivo de Cuba. Não há assaltos, só pequenos furtos. Arma é proibida, nem no mercado negro se pode encontrar um revólver. O Código Penal é muito rígido. Os cubanos preferem ficar longe da criminalidade mais pesada. É agradável, ainda, ver crianças calçadas e vestidas decentemente. Todas estão na escola, sem exceção. Mão-de-obra infantil também não se vê. As crianças têm tempo para se divertir jogando bolinha de gude e beisebol nas ruas. O estudo é obrigatório, e os pais que desobedecem à lei são multados. Ao contrário do que imaginávamos, porém, a escola não é totalmente gratuita. Custa 40 pesos mensais para o ensino primário, cerca de 20% do salário médio cubano. Também nos surpreendeu o fato de que não há vagas suficientes nas universidades. Há um teste de seleção, como o vestibular no Brasil.

A saúde é para todos, mas o acesso é burocratizado. Maria, a mulher que nos hospedou em Havana, é diabética. Precisa renovar periodicamente a autorização de uma dieta especial. A cada seis meses passa pelo crivo de seis profissionais da saúde, que carimbam seis vezes sua ficha médica. Isso lhe dá o direito de substituir alimentos da cesta básica por itens mais adequados a sua saúde. Ouvimos várias histórias parecidas que nos lembraram a precária rede pública de saúde brasileira. Gente que não consegue ser operada por falta de médico, equipamento cirúrgico, leito ou qualquer outro problema. Eles reclamam, principalmente, da falta de medicamentos.

Os cubanos vivem assim, sem conforto mas longe da miséria. Muitos pensam em deixar o país e já não é mais preciso recorrer a um bote improvisado para atravessar os 120 quilômetros que separam a ilha da Flórida, nos Estados Unidos, onde vivem mais de 1 milhão de cubanos, cerca de 10% da população. O governo não proíbe a saída para maiores de 18 anos, mas é difícil um cubano conseguir um visto permanente fora de casa. A vontade de se arriscar é grande. Rosa pensa em juntar-se ao irmão no Brasil. O caminho é longo e caro. Ela precisaria separar-se do marido e casar-se com um brasileiro em Cuba. O governo permite o matrimônio, mas cobra alto pela concessão, 800 dólares. A conta ainda inclui a tarjeta branca, autorização para um cubano sair do país (150 dólares), passaporte (50 dólares) e passagem aérea (400 dólares). Isso sem considerar o preço que um estrangeiro pede para casar-se com ela, cerca de 500 dólares. A soma total chega a quase 2.000 dólares.

A sociedade cubana está fragilizada. Sabe que vive um período de transição e teme o futuro. Fala-se muito no país sobre a debilidade da saúde de Fidel Castro. De fato, os discursos dele estão mais curtos. A voz apagada e rouca atrapalha. O sucessor ainda não está definido, mas para os cubanos ninguém está à altura de Fidel, há 43 anos no poder. "As pessoas o criticam pelas costas, mas quando o vêem na TV ou na praça pública babam", diz Aguilera, dono de casa particular em Trinidad. "Os cubanos são fidelistas, não socialistas."

Uma cubana com quem conversamos na rua disse que admira Fidel porque ele restaurou o equilíbrio social em Cuba. Entretanto, o enriquecimento de algumas pessoas já está colocando essa harmonia em jogo e causa insatisfação por parte dos menos abastados. Há um clima tenso no ar. Os cubanos estão inquietos. Há pouco tempo não se via ninguém reclamar dos primitivos e lotados ônibus que circulam pelas ruas. Hoje, o povo questiona, sem receio, até quando terá de agüentar tamanho incômodo. É proibido criticar o governo, mas ouvem-se freqüentemente queixas contra preços altos e autoritarismo da polícia. Alguns acreditam que a situação difícil do país vem do embargo econômico. Os mais críticos lembram a falta de iniciativa do governo em promover o desenvolvimento, quando contava com a ajuda farta dos soviéticos.

Para o governo cubano há ainda uma situação delicada a resolver: as relações com os Estados Unidos. São mais de quarenta anos de animosidade, com raros períodos de calmaria. Cedo ou tarde essa questão terá de ser resolvida. Alheios a qualquer situação diplomática, crianças andam pelas ruas com o Mickey estampado nas camisetas e adultos exibem camisas de times de beisebol dos Estados Unidos. Os ícones americanos convivem pacificamente com as imagens dos heróis da revolução Fidel Castro e Che Guevara, reproduzidas à exaustão nas fachadas dos prédios públicos, nos outdoors ou em qualquer estabelecimento comercial. Para os cubanos, o que está em jogo não é ser revolucionário ou contra-revolucionário. O povo está no limite. O que importa é a luta pela sobrevivência.

Denise Ramiro, de Havana
Fotos de Ed Viggiani

Veja.com

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